segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Teun van Kijk, grande nome da Análise do Discurso, na UFRGS em janeiro de 2011

Caros amigos, reproduzo aqui informação que recebi por e-mail sobre a visita do professor Teun van Dijk, estudioso da área da análise do discurso, uma referência na área do discurso midiático, que visitará em breve a UFRGS:
 
Informamos que o Prof. Teun van Dijk, professor visitante do Depto de
Ciências da Linguagem da Universitat Pompeu Fabra (Barcelona), fará uma
breve visita à UFRGS com o apoio do curso de Especialização em
Neuropsicologia (Depto de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade)
desta instituição.

O modelo teórico de van Dijk vem sendo utilizado para estudar os processos
discursivos em diversas áreas, como a Neuropsicologia Cognitiva, a
Psicologia Cognitiva, a Linguística, as Ciências Sociais e a Comunicação
Social. Para saber mais, acessem o site http://www.discourses.org/

No dia 18 de janeiro de 2011 às 14:00 o Prof. van Dijk oferecerá uma
conferência mais ampla, sobre Discurso e Conhecimento, especialmente
interessante para aqueles que estudam epistemologia, tipos de conhecimento e
estratégias de gestão do conhecimento durante o processamento textual.

No dia 19 de janeiro de 2011, o Prof. van Dijk oferecerá um workshop sobre
Discurso e Cognição Social, focado na a compreensão dos processos
pragmáticos envolvidos na construção de representações mentais das situações
comunicativas (modelos de contexto). Para este workshop há vagas limitadas,
dirigidas a um público de pesquisadores e estudantes interessados em debater
idéias e aperfeiçoar-se nessa área.Os interessados devem inscrever-se na
secretaria dos cursos de Especialização da Psicologia (especpsico@ufrgs.br).
O horário do workshop será divulgado para os participantes inscritos
(informar email no ato da inscrição).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Tecoms* 7 - Barthes, Morin e Baudrillard; Kristeva, Metz e Bourdieu; Virilio, Sfez e Maffesoli; P. Levy, Wolton e Debord

* Teorias da Comunicação

Prosseguimos com o nosso “Quadro Geral das Teorias da Comunicação.

9) O PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO FRANCÊS EM COMUNICAÇÃO

- Vale lembrar a já citada inadequação metodológica da didática de agrupar estudiosos em escolas, tendências etc, sobretudo ao falarmos do que foi e é produzido recentemente entre os teóricos franceses - ou radicados na França -, pois tais autores com freqüência divergem entre si.

- Porém, em comum, podemos dizer que os teóricos franceses são marcados pela cultura intelectual do pós-estruturalismo e da “desconstrução” do saber, predominante atualmente na França.

O ESTRUTURALISMO, linha de estudos iniciada pelo antropólogo Claude Lévis-Strauss, também francês, indica a importância da estrutura como sistema de relações (parentesco, troca econômica etc) na sociedade baseada em oposições binárias (amigo/inimigo, rico/pobre...)

Os teóricos franceses contemporâneos da comunicação podem, muitas vezes, ser definidos como “pós-estruturalistas” porque rejeitam essa “binariedade”, sustentando que as relações sociais seriam muito mais complexas

- O ano de 1960 foi um marco para eles, com a fundação do Centro de Estudos de Comunicação e Massas (Cecmas).

- Em 1968, o Cecmas lançou a Revista Communications, na qual autores como Roland Barthes, Edgar Morin, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Christian Metz, entre outros, passaram a publicar seus textos.

- Há TRÊS EIXOS DE ESTUDOS da comunicação explorados pelos intelectuais franceses:

1 - A COMUNICAÇÃO COMO FENÔMENO EXTREMO: não há meios de reduzir os MCS à lógica da utilidade social. Baudrillard é um dos que sustenta essa hipótese

2 - A COMUNICAÇÃO COMO FENÔMENO DE DOMINAÇÃO: a sociedade é dominada por intermédio dos MCS, mas ainda pode ser libertada, se for feito um bom uso desses meios. Partilham dessa linha Pierre Bourdieu, Paul Virilio e Lucien Sfez.

3 - A COMUNICAÇÃO COMO VÍNCULO SOCIAL COMPLEXO: os MCS são um fator de vínculo, ligação entre as pessoas - para o bem (integração social, por exemplo) e para o mal (pedofilia na Internet), e é aí que entra a COMPLEXIDADE; essa interpretação é defendida por Michel Maffesoli, Pierre Levy e Dominique Wolton.

Vamos, então, a pinceladas, MESMOS SE DE FORMA NÃO ORDENADA, sobre alguns desses autores, limitando-nos, devido à riqueza mas também ao caráter polêmico das suas idéias, a acenos, expressões e idéias atribuídas a eles pelo professor Juremir Machado da Silva (PUC-RS), no livro “Teorias da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências”:

- Pierre Lévy saúda as novas tecnologias como a Internet, afirmando que o mundo virtual supera a pirâmide “um-todos” pelo “processo comunicacional todos-todos”, democratizando a possibilidade de emissão das mensagens

- Já Virilio vê as novas tecnologias com desconfiança. Teme “a ‘ausência de isolamento’, modalidade pós-moderna e sofisticada de encarceramento do ser na ilusão coletiva”.
- Morin afirma que a mídia alimenta-se das mensagens que lhe vêm do mundo que por sua vez é alimentado pelas mensagens que a mídia emite

- Maffesoli diz que a imagem funciona como um totem ao redor do qual comungam os espectadores

- Gui Debord afirma que vivemos numa “sociedade do espetáculo” - que dá, aliás, título a seu importante livro de 1967

- Baudrillard fala de “sociedade de consumo”, “maiorias silenciosas” e “estratégias fatais”
- Lévy saúda o “emissor-receptor”

- Já Sfez diz que existe apenas “emissor-receptor-interlocutor-lobotomizado*”

* lobotomia: uma secção (corte) no lobo frontal (região do cérebro) indicada, entre outros casos, em situações de “dores intratáveis de outra forma”, como explica o dicionário Aurélio.
- Pierre Bourdieu, em “Sobre a Televisão” (1997) faz uma investigação sobre o cotidiano do campo jornalístico atribuindo aos jornalistas pelo menos conivência com os procedimentos de dominação dos MCS

- Ainda Sfez fala de “tautismo” expressão forjada com a junção das palavras “tautologia”** e “autismo”

** Tautologia: “Vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa; (Filos.): Erro lógico que consiste em aparentemente demonstrar uma tese repetindo-a com palavras diferentes”. (Dicionário Aurélio)

- Sfez, Virilio e Baudrillard refletem sobre a idéia de que vivemos numa “sociedade panóptica”, segundo a interpretação do filósofo, também francês, Michel Foucault em sua teorias sobre a poder e vigilância***. Historicamente, o panóptico é um modelo arquitetônico idealizado no século XIX por Jeremy Bentham (1748-1832), com o objetivo confinar pessoas - em fábricas, presídios, hospícios etc. Essas pessoas vêem (e vigiam) outros confinados sem saber se estão sendo vistas ou não.

*** “O Panóptico é uma torre circular oca, com um pátio central, rodeado por pequenas celas orientadas para o centro do círculo. Mesmo fazendo parte do mesmo conjunto, as celas não se comunicam entre si, são separadas por paredes. Na superfície que dá para o exterior, cada cela apresenta uma vasta janela, permitindo entrar a luz. Seu lado oposto é gradeado, permite quem está dentro estar continuamente visível para quem se situe no meio. Dentro desta torre há outra torre, localizada no centro. Lá, ficam os vigilantes observando através de seteiras. O esquema é tal que nunca os confinados sabem se estão sendo vistos ou não. Na incerteza, se vigiam a si mesmos” (FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 26ª ed., 1987).

- E voltamos a Bourdieu que afirma a existência de uma “circularidade da informação”: “a mídia fala dela mesma; pauta-se por outros veículos da mídia; saiu do acontecimento para entrar no culto à personalidade”.

- Para Morin, entretanto, “ninguém ou quase [ninguém] se encontra destituído de algum poder de intervenção [em relação ao predomínio dos MCS na sociedade]”

Como conclusão deste item número 9 sobre os teóricos franceses contemporâneos, apresentamos a seguinte citação, do professor Juremir mencionado acima: “Mesmo se discordam entre si, os [teóricos] franceses parecem ter um ponto em comum: tudo é comunicação; chegou a hora da comunicação total, da vertigem do signo, da circulação permanente, da avalanche comunicacional, que tudo permeia, contamina, devora, impregna, devasta”.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Minhas Leituras

Queridos amigos e amigas,


[Salto a introdução deste post, que pode ser lida em:
http://migre.me/3R6Uh ]

Segue uma lista de obras lidas, agrupadas por assuntos, a fim de apresentar as áreas de meu interesse, tais quais Teorias da Comunicação, Literatura Universal, Sociologia e Ciências Sociais, entre outras.


Segue a lista, subdvidida em alguns grupos.

Obras sobre Teorias da Comunicação

(incluindo algumas filosóficas e sociológicas que têm servido de base às teorias de comunicação, como as de Michel Foucault, Gilles Deleuze e Pierre Bordieu; e ainda livros sobre jornalismo e comunicação em geral)

Teorias da Comunicação – Conceitos, escolas e tendências – Holfeldt, Martino, Vera França Vozes

O que é virtual? – Pierre Lévy – Editora 34

As teorias da comunicação – Roberto Elísio dos Santos – Paulinas

História das Teorias da Comunicação – Armand e Michelle Mattelart – Loyola

Teoria da Comunicação de Massa – Luiz Costa Lima (org) – Paz e Terra6 (5ª Ed) - Incluindo alguns dos principais textos clássicos publicados até 1969, data da primeira edição, a saber:

- Indústria Cultural (Theodor Adorno e Max Horkheimer)

- A Obra de Arte na Época de sua reprodutibilidade técnica – Walter Benjamim
- entre outros ensaios clássicos das Teorias da Comunicação dos seguintes autores: Abraha Moles, Paul Lazarsfeld, Robert Merton, David Riesman, Marshall McLuhan, Hebert Marcuse, Edoardo Sanguineti, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Roland Barthes e Erwin Panofsky

Microfísica do Poder – Michel Foucault (Roberto Machado – org) – Graal

A Cultura da Mídia – Douglas Kellner – USC

Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo – Comentários sobre a cultura do Espetáculo – Contraponto

Antropológica do Espelho – Muniz Sodré – Vozes

A Identidade Cultural na Pós-Modernidade – Stuart Hall – DP&A

Da Diáspora (leitura quase total) – Stuart Hall – Org.: Liv Sovik – Humanitas UFMG

A Sociedade em Rede – Vol 1.: A era da informação – Manuel Castells – Paz e Terra
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna – Leo Charney e Vanessa Schwartz (Orgs.) Cosacnaify

(produzi dois textos a abordando este livro)

Sobre a Televisão – Pierre Bordieu – JZE

A Distinção – Pierre Bordieu – Edusp – Zouk

Revista Cult – Número temático sobre Pierre Bourdieu  – Ago Set 2008

O Mal-estar da Pós-modernidade – Zygmunt Bauman – Zahar

Cultura Híbridas6 – Nestor Garcia Canclini – Edusp

Dos Meios às Mediações – Jesús Martín-Barbero- UFRJ

Sobre a Televisão – Pierre Bordieu JZE

Brasilidade Televisiva e Ritos Reality de Personalização - Suzana Kilpp e Sonia Montaño, professora e aluna de mestrado na Unisinos (Trabalho sobre os programas BBB e Casa dos Artistas apresentado no XXVIIICongresso Brasileiro de Ciências de Comunicação)

Matrix, o Fim do Panóptico – Katia Maciel – ensaio publicado na Revista Lugar Comum: Estudos de Mídia, Cultura e Democracia (ECO – UFRJ) .

Cerca de 150 páginas sobre Sound Studies, linha recente de estudos que procuram dar conta do impacto cultural e social das tecnologias de som, especialmente, na modernidade, mas também a partir de uma história e de uma “arqueologia” do fenômeno sonoro. Trata-se de uma linha de pesquisa que, além de observar as conseqüências das tecnologias do som, como o walkman e o iPod, apontam para as questões da saturação do ambiente sonoro na atualidade e da comunicabilidade humana em crise. São textos em inglês de autores como Jonathan Sterne, Rick Altman, Michel Chion, Emily Thompson, Paul Hegart, Patrick Burkat, Andre Millard, Keir Keightley, Will Straw, Michael Bull, Theodor Adorno, e, ainda, da brasileira Simone de Sá (professora da UFF, que se destaca nessa linha de estudos em nosso País).

Não Contem com o Fim do Livro   - Umberto Eco e Jean-Claude Carrière

Cultura da Convergência  – Henry Jenkins – Aleph

Conversações Gilles Deleuze  – Editora 34

Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem – Marshall McLuhan – Cultrix

O Controle da Opinão Pública - Nilson Lage – Ipej/Vozes

O papel do jornal – Alberto Dines – Summus

O Rádio Sem Onda6 – Marcelo Kischinhevsky

Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia

Abaixo o nada a declarar: O assessor de imprensa na era da globalização – Boanerges Lopes - Zabelê

Notícia: Um Produto à Venda: Jornalismo na Sociedade Urbana e Industrial – Cremilda Medina – Summus (Leitura fichada)

O Planeta Mídia – Dênis de Moraes – Letra Livre

Minha Razão de Viver: Memórias de um Repórter - Samuel Wainer (Biografia) – Record

Cobras Criadas - David Nasser e [a Revista] o Cruzeiro – Luiz Maklouf Carvalho - Senac

Chatô – Rei do Brasil – Fernando Morais – Companhia das Letras 

Deus é Inocente, a imprensa, não - Carlos Dorneles (criticando teorias como a do "choque de civilizações")

Muito Além do Jardim Botânicos (estudo sobre o Jornal Nacional) – Carlos Eduardo Lins e Silva - Summus5

Manual de Radiojornalismo – Heródoto Barbeiro e Paulo Lima - Campus

Manual de Radiojornalismo Jovem Pan – Maria Elisa Porchat

Manual de redação da Folha de S. Paulo*

Manual de redação de O Globo*

Manual de redação de O Estado de S. Paulo*

*Não tenho mais esses livros, portanto, não lembro exatamente os títulos e outras informações da edição.

Telenovela: história de Produção – R.Ortiz, Silvia Borelli, José Mário O. Ramos - Brasiliense

Obras da área da interpretação sociológica e antropológica da cultura brasileira

O Abolicionismo – Joaquim Nabuco

Os Sertões – Euclides da Cunha

Raízes do Brasil – Sergio Buarque de Holanda

Literatura brasileira e universal, filosofia e mitologia

O Livro de Ouro da Mitologia6(consulto sempre como referência) - Thomas Bulfinch - Ediouro

O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder - Cia das Letras

Introdução à Filosofia –Problemas, Sistemas, Autores, Obras – B.Mondim – Paulinas

O Fenômeno Humano – Theilard de Chardin (Leitura parcial)

A Utopia  - Thomas More

Ilíada – Homero

Odisséia – Homero

Eneida – Virgílio

Dom Quixote – Miguel de Cervantes

Os Lusíadas - Camões

A Divina Comédia – Dante

O Príncipe – Maquiavel

Cem Anos de Solidão – Gabriel García Marquez

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint Exupéry

O Homem que Calculava – Malba Tahan

Dom Casmurro – Machado de Assis

Quincas Borba – Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Esaú e Jacó – Machado de Assis (leitura parcial)

A Mão e a Luva – Machado de Assis

Viagens de Gulliver – Jonathan Swift

1984 – George Orwell

A Revolução dos Bichos - George Orwell

A Volta ao Mundo em 80 Dias – Julio Verne

O Quinze – Raquel de Queiroz

O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

O Grande Mentecapto – Fernando Sabino

O Ateneu – Raul Pompéia

O Cortiço – Aluísio Azevedo

Como e por que Ler os Clássicos Universais desde Cedo – Ana Maria Machado

Carlos Drummond de Andrade – Antologia Poética

Os Cem Melhores Poemas do Século XX – Seleção: Ítalo Morriconi

Leituras com meus filhos ( entre tantos outros livros)

20 Mil Léguas Submarinas - Julio Verne**

Viagem ao Centro da Terra - Julio Verne **

** Edições infantis

Sítio do Pica-pau Amarelo – Monteiro Lobato

Polyana Menina – Eleanor Poter

Fábulas de Esopo

Contos dos Irmãos Grimm

Fábulas de La Fontaine

Fábulas de Lenardo da Vinci

Robinson Crusoé – Daniel Defoe

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Teorias da Comunicação - Parte 6: News Making, Gatekeeping, Noticiabilidade


Continuamos falando do Paradigma da Sociedade de Massas, segundo o qual, as pessoas se comportom em blocos, coletivamente, com pouco espaço para a individualidade. E essa uniformidade comportamental é sustentada pela mídia. Mesmo recebendo, com razão, a crítica de ser reducionista, esse paradigma detecta interessantes mecanismos, especialmente, na produção das mensagens. (Você pode acompanhar esse resumo desde o primeiro post no qual explicamos a idéia que nos levou a publicá-lo no contexto da "Proposta da Faternidade na Mídia", e a partir do qual apresentamos as Teorias da Comunicação numa sequência que mescla a ordem cronológica e a evolução dos estudos sobre a mídia, desde os anos 1920/1940).

- NEWSMAKING (criação da notícia). Reúne estudos na área da sociologia das profissões, no caso a jornalística. São pesquisas sobre a cultura profissional do jornalismo. É uma vertente que, embora não seja assumida oficialmente por autores bem definidos, é trabalhada transversalmente por vários teóricos desde 1947 a partir de estudos sobre “GATEKEEPING” desenvolvidos pelo funcionalista Kurt Lewin.

O Gatekeeping (“gatekeeper” é “porteiro” em inglês) seria uma SELEÇÃO “involuntária” (por parte dos jornalistas) DO QUE DEVE OU NÃO TORNAR-SE NOTÍCIA.

Lewin comparou a chegada de notícias enviadas por telégrafo à redação de um grande jornal estadunidense com as que eram publicadas no dia seguinte. Ele observou que os critérios de publicação não eram tão objetivos como se poderia esperar (baseado apenas no atendimento ao público leitor) e dependeriam de fatores difusos ligados à subjetividade dos jornalistas:

Segundo aquela pesquisa, os critérios de publicação seriam:

-Autoridade institucional e eventuais sanções/punições

- Fidelidade e estima aos superiores

- Aspirações à mobilidade social por parte dos profissionais

A reflexão sobre o newsmaking e o gatekeeping levam ao conceito de NOTICIABILIDADE, ou seja, o potencial que determinado fato tem de tornar-se notícia.

Eis alguns CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE mais freqüentemente indicados por vários autores que tratam do tema:

            - Importância (alteração que a notícia pode causar na vida das pessoas)

            - Atualidade/Novidade

            - Proximidade (do fato em relação ao público)
          
            - Impacto nacional

            - Impacto internacional

            - Quantidade (de sujeitos/objetos de notícia envolvidos)

            - Impacto negativo
           
            - Raridade
           
            - Curiosidade (Ex.: Amus Cummings, editor do New York Sun, disse a célebre frase: “Se um cachorro morde um homem, não é notícia, mas, seu um homem morde um cachorro, é notícia”.

            - Interesse específico (para determinado público)


            - Condições técnicas de transformação das informações em notícia
Exemplos: 1) um fato importante, mas sem uma imagem impactante, de boa qualidade técnica, pode ter obstáculos para tornar-se uma notícia televisiva;
                  2) uma notícia, mesmo relevante, que chega à redação em um release mal escrito tem grandes possibilidades de não ser publicada

Poderíamos acrescentar tantos outros critérios, como o de anunciar tendências para o futuro, por exemplo.

De qualquer forma, todos esses critérios estão atrelados ao que a notícia pode agregar comercialmente.

Portanto, VENDER MAIS jornais e aumentar as audiências no rádio, TV e Internet acabam sendo O GRANDE CRITÉRIO DE NOTICIABILIDADE, que engloba todos os outros.

Aprofundando, porém, a reflexão despertada pelos estudos de Lewin, podemos dizer que um forte fator que também influencia na noticiabilidade envolve a cultura profissional dos jornalistas, incluindo desde opiniões e preferências pessoais, até o apoio e proteção a colegas e amigos. No dizer mais técnico de Antonio Holfeldt, um dos autores do livro “Teorias da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências”: “A cultura profissional [dos jornalistas] é um emaranhado de retóricas e táticas, códigos, estereótipos e símbolos relativos aos meios de comunicação de massa, que criam e mantêm paradigmas profissionais e de auto-imagem”.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tecoms 5: Sociedade de Massas, Teoria Hipodérmica, Teoria Crítica, Agenda Setting, Espiral do Silêncio...

Falamos anteriormente da Escola de Frankfurt, uma das mais influentes na visão crítica que se tem hoje da mídia. Quando se diz que "a  mídia faz a cabeça das pessoas", trata-se de uma idéia da Escola de Frankfurt que atingiu o senso comum. Agora vamos abordar o paradigma da sociedade de massas, que reúne elementos da Escola de Frankfurt e de outras importante escolas e tendências nos estudos dos MCS.

O PARADIGMA DA SOCIEDADE DE MASSAS




Esse paradigma é formado por uma série de idéias, vindas de diferentes escolas e tendências, das quais destacaremos algumas.



Elas têm em comum a visão de uma sociedade na qual o indivíduo sofre de uma total vulnerabilidade diante dos MCS. Os meios, nesse contexto, são também chamados Meios de Comunicação de Massa (MCM).



Entre tantas metáforas dessa sociedade estariam os filmes “O Show de Truman” e “Matrix” e, ainda, o livro “1984”, de George Orwell, que tem no Grande Irmão seu personagem central, “o grande olho que tudo vê”.



Mas mesmo o Mito da Caverna, genial intuição de Platão, mais de 300 anos antes de Cristo, já mostrava o falseamento que a realidade pode sofrer antes de chegar ao nosso conhecimento. Isso mostra que, mesmo diante da mídia pós-moderna com as novas tecnologias da era globalizada, talvez não estejamos diante de um fato tão novo em sua essência.



A própria ocorrência de UMA SOCIEDADE DE MASSAS, PORÉM, É EM SI OBJETO DE POLÊMICA. Não poucos teóricos recusam-se a aceitar que ocorra realmente tamanha perda de liberdade e individualidade em nossa sociedade; e muito menos que essas perdas se devam aos meios de comunicação.



No entanto, várias teorias sustentam o Paradigma da Sociedade de Massas.



Eis algumas delas:



- TEORIA HIPODÉRMICA, já citada (os MCS como uma seringa que aplicada na “pele” das pessoas injeta um conteúdo – as mensagens - provocando nelas um comportamento pré-determinado)



Designada com termo cunhado por Harold Lasswell em 1948, e desenvolvida também por outros teóricos desde a Escola Funcionalista, essa teoria é hoje quase unanimemente classificada como behaviorista e tida como superada.



- TEORIA CRÍTICA, também citada anteriormente, representada pela Escola de Frankfurt. O ano de 1947 é a data de referência, quando foi publicada a obra “Dialética do Esclarecimento”, com o ensaio “Indústria Cultural – O Iluminismo como mistificação de massa”).



Os críticos dessa teoria afirmam que ela não reflete sobre as possibilidades de reação do indivíduo à Indústria Cultural. A Teoria Crítica, apesar de toda essa argumentação, parece hoje, com a sociedade globalizada, uma profecia com muitas confirmações importantes.



- AGENDA SETTING (construção ou estabelecimento de agenda), teoria elaborada por Maxwell McCombs e Donald Shaw (The agenda setting function of mass media,1972).



Segundo esses pesquisadores, os MCM são dotados da capacidade de “agendamento” dos temas debatidos e comportamentos vividos na sociedade.



Os meios determinam desde os assuntos das conversas mais triviais até o resultado das eleições. Por acumulação de informações veiculadas diariamente (“efeito enciclopédia”), os MCM formam a opinião individual e pública.



- ESPIRAL DO SILÊNCIO. Elisabeth Nouelle-Newman cunhou a expressão e publicou os estudos fundamentais sobre essa teoria entre 1973 e 1984. Os MCM potencializam uma tendência de os indivíduos silenciarem opiniões pessoais quando julgam que essas opiniões não estão de acordo com as opiniões da maioria. Assim, uma opinião sobre determinado tema polêmico, mesmo sendo majoritária na sociedade, pode vir a tornar-se minoritária se não for divulgada pela mídia.



Nos casos em que essa teoria se confirme, vale notar:



a) as fortes conseqüências do efeito Espiral do Silêncio para a democracia,

b) a importância de divulgar as opiniões pessoais e de grupo, que se julgue benéficas e necessárias à sociedade e – com a mesma ênfase - usar a mídia para essa divulgação

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Escola de Frankfurt, de Adorno e Horkheimer (Indústria Cultural), Marcuse, Benjamim, Habermas; e ainda Marshall Mc Luhan, com a Galáxia de Gutemberg, a Aldeia Global e outras idéias poderosas

Já apresentamos as Teocoms (teorias da comunicação) como ferramenta útil aos comunicadores envolvidos com Frat&Mídia/Net One e propomos esse texto como possível texto coletivo, aberto, portanto a contribuições - basta postá-las como comentários. Aludimos a abordagens remotas do tema comunicação e a uma pre-história no século XVIII do que viriam a ser as Teocoms, avançando em seguida com a citação do início dos estudos sobre semiologia e semiótica; e, ainda, com as primeiras pesquisas de viés positivista e ligadas à visão estadunidense, dos anos 20 aos 40. Passemos agora à Escola de Frankfurt que, apesar do nome, desenvolveu-se principalmente, nos Estados Unidos, para onde fugiram seus estudiosos alemães, devido ao nazismo, encontrando uma cultura de consumo ainda mais desenvolvida que em seu país de origem, ideal para a crítica marxista que conceberam sobre os meios de comunicação social (MCS). Neste bloco abordaremos também o famoso teórico canadense Marshall Mc Luhan, que anos 1960 produziu poderosas idéias acerca da mídia, algumas caracterizadas como verdadeiras profecias observáveis hoje em nossa sociedade, como a da "aldeia global".

6) ESCOLA DE FRANKFURT

- Os estudiosos desta escola ANALISARAM, SOB VIÉS MARXISTA, A INFLUÊNCIA DOS MCS NA SOCIEDADE.

- Devido ao nazismo, deixaram a Alemanha e foram para os EUA.

- WALTER BENJAMIN – COM O ENSAIO “A OBRA DE ARTE NA ÉPOCA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA” (1936):

- Afirma que a obra de arte possui uma “aura” que se perde com a reprodução impetrada pelos meios de comunicação, que ampliam e consolidam a alienação na sociedade

- Tenta indicar meios de resistir a essa tendência e de realizar a revolução por meio da arte

- THEODOR ADORNO E MAX HORKHEIMER

São conhecidos nos estudos sobre comunicação pelo texto “INDÚSTRIA CULTURAL - O ILUMINISMO COMO MISTIFICAÇÃO DE MASSA” (que integra o livro “Dialética do Iluminismo”, citado muitas vezes como “Dialética do Esclarecimento”, publicado pela primeira vez em 1947.

- O Indústria Cultural é o texto mais influente da Escola de Frankfurt.

- Indica uma desilusão com o Iluminismo que profetizara maior tempo livre graças ao progresso tecnológico e mais liberdade para a fruição dos bens culturais. A profecia não se concretizara e a indústria cultural aprofundou a falta de liberdade, banalizando a cultura.

- O TERMO INDÚSTRIA CULTURAL, cunhado por Adorno e Horkheimer, indica o aparato de produção de bens culturais voltados para alienar as pessoas e aprofundar a dominação das massas pela classe dominante.

- HERBERT MARCUSE

Autor do texto “A Arte na Sociedade Unidimensional” (1967).

Marcuse foi um dos principais ideólogos dos protestos estudantis da década de 1960.

Ele afirma que, na sociedade unidimensional, o ser humano é considerado apenas na sua dimensão de produtividade e eficiência.

A sociedade unidimensional e totalitária absorve todas as “atividades não conformistas”, entre elas, a arte.

Marcuse busca, entretanto, apontar a imaginação e a arte autênticas como faculdades cognitivas capazes de transformar e romper o feitiço da sociedade unidimensional.

CONCLUINDO:

As teorias da Escola de Frankfurt são também denominadas como “Teoria Crítica”.

Os frankfurteanos são questionados muitas vezes por não apresentarem saídas suficientes para os graves fenômenos que denunciam.

Jürgem Habermas é o herdeiro da Escola de Frankfurt, com sua Teoria da Ação Comunicativa.

7) MARSHALL MC LUHAN

Duas de suas principais publicações são:

“A GALÁXIA DE GUTEMBERG” (1962)

“OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM” (1964)

NÃO ENQUADRADO NAS ESCOLAS TRADICIONAIS e, mesmo tendo contra si críticas de que seria um inconseqüente e alegre profeta da sociedade de massas, o canadense Mc Luhan é autor de algumas das mais influentes teorias sobre a comunicação:

- ALDEIA GLOBAL: uma espécie de proximidade entre todos os habitantes da Terra - graças à onipresença da mídia - faz do planeta uma única grande aldeia

- O MEIO É A MENSAGEM – esse conceito nega a neutralidade dos meios em si (TV, rádio, imprensa): não são apenas suportes para a mensagem ou meros aparatos técnicos; trazem em si um efeito imediato, independentemente da mensagem que veiculam; cada meio estabelece uma relação diferente com o ser humano (por exemplo, é possível dirigir ouvindo rádio, mas não se pode ler jornal impresso ao dirigir); e essas diferenças modificam também as relações humanas, principalmente, quando surge uma nova mídia (um exemplo óbvio, recente, é a Internet)

- OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÃO DO HOMEM – os meios são, cada vez mais, como prolongamentos dos sentidos do ser humano

- A GALÁXIA DE GUTEMBERG – uma evolução nas formas de aquisição do conhecimento ocorre na humanidade, chegando, com a imprensa, ao “homem gutemberguiano”, individualista na assimilação do saber (por meio da leitura, sem partilha, ao contrário do que acontecia, predominantemente antes da escrita, quando a transmissão conhecimento era oral).

“REENVOLVIMENTO VERBIVOCOVISUAL” (que seria a atual fase de envolvimento do ser humano com a mídia) e “MEIOS QUENTES E FRIOS” são outras importantes chaves de leitura para o pensamento de McLuhan

sábado, 16 de outubro de 2010

Quadro das Teocoms 3: Escola de Chicago, Escola Funcionalista, Mass Communication Research, Lasswell e modelo do processo comunicativo, Teoria Hipodérmica....


Depois da Introdução em que falei da importância das Teorias da Comunicação (Teocoms) para os integrantes do Frat&Mídia/Net One, e da segunda parte, na qual dei pinceladas sobre as reflexões acerca da comunicação desde os gregos antigos aos primeiros estudos sobre lingüística, vamos às pesquisas pioneiras desenvolvidas nos EUA. A numeração prossegue a partir dos posts anteriores.

4) ESCOLA DE CHICAGO (EUA)

No início do Século XX, estudos sobre a influência da imprensa e da propaganda na sociedade em processo de industrialização foram empreendidos principalmente pelo jornalista Robert Ezra Park.

5) ESCOLA FUNCIONALISTA

Também nos Estados Unidos, na década de 1930, consolida-se a Escola Funcionalista. AO LADO DA ESCOLA DE FRANKFURT (DE VIÉS MARXISTA), que abordaremos mais adiante, o Funcionalismo, de viés positivista, é a ESCOLA MAIS IMPORTANTE PARA AS TEOCOMS.

- É bom repetir, então, a ESCOLA FUNCIONALISTA TEM TENDÊNCIA POSITIVISTA;

- Estuda as funções dos MCS, que serviriam para manter o equilíbrio social; ou as disfunções dos meios, como fenômenos que abalam esse mesmo equilíbrio social;

- Robert Merton e Paul Lazarsfeld, no texto “Comunicação de Massa, Gosto Popular e Organização da Ação Social”, do livro “Comunication of Ideas” (1948), indicam FUNÇÕES como:

            - ATRIBUIÇÃO DE STATUS

            - REFORÇO DAS NORMAS SOCIAIS

            E citam ainda a DISFUNÇÃO NARCOTIZANTE

Já Harold Lasswell apresenta o seguinte modelo de funções dos MCS:

            - VIGILÂNCIA (INFORMATIVA: função de alarme)

            - CORRELAÇÃO DAS PARTES DA SOCIEDADE (integração)

            - TRANSMISSÃO DA HERANÇA CULTURAL (educativa)

Outro teórico funcionalista (Charles Wright) fala ainda da função RECREATIVA e afirma que as funções dos MCS podem ser LATENTES ou MANIFESTAS.

[Devemos ainda inserir aqui, de forma mais aprofundada, a teoria do Duplo Fluxo da Comunicação ou Two steps (neste caso: degrau) flow, Teoria dos Efeitos Limitados, que analisa a recepção da produção dos MCS mediada pelos líderes de opinião (primeiro degrau), até chegar às demais pessoas (segundo degrau), desenvolvida por Paul Lazarsfeld e Elihu Katz em “Personal influence: The part played by people in the flow of mass communication” (1955)]

MASS COMMUNICATION RESEARCH

Ainda em 1927, com o livro Propaganda Techniques in the World War, de Lasswell, começam os estudos denominados Mass Communication Research.

São pesquisas de opinião realizadas por estudiosos funcionalistas, desvendando os mecanismos de persuasão dos MCS. Tais estudos foram muitas vezes úteis aos objetivos políticos do Estado e aos interesses econômicos do mercado.


O MODELO DO PROCESSO COMUNICATIVO

Foi Harold Lasswell, aliás, que elaborou em 1948 o famoso esquema do processo da comunicação que conhecemos hoje, com base em cinco perguntas:

Quem?
Diz o quê?
Para quem?
Em que canal?
E com que efeito?

Esse modelo foi simplificado com o esquema:

EMISSOR  - MENSAGEM – RECEPTOR

Observação: Vale notar que já ARISTÓTELES havia elaborado um modelo parecido:

A Pessoa que Fala – O Assunto – A Pessoa a Quem Se Fala

TEORIA HIPODÉRMICA

E o mesmo Lasswell vai criar o conceito de “Agulha Hipodérmica”, segundo o qual as pessoas são totalmente influenciáveis pelos MCS, como se uma seringa atingindo a pele delas provocasse imediatamente um efeito desejado.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Quadro Geral das Teorias da Comunicação Parte 2: Um grande salto, de Platão e Aristóteles a Ortega Y Gasset, Saussere, Peirce e Barthes, tema sempre presente

Após o post anterior, no qual falei da importância, para os integrantes do grupo Frat&Mídia, de possuir noções gerais sobre teorias da comunicação (tecoms), e propus que este Quadro Geral se tornasse um texto coletivo, indicando ainda as fontes que consultei para escrevê-lo, prossigo mencionando muito brevemente que a comunicação foi abordada já desde os filósofos gregos antigos, que as teorias da comunicação tiveram uma espécie de "pré-história" no século XIX, e citando os pais da semiologia e da semiótica.

1) A COMUNICAÇÃO DESDE OS MAIS REMOTOS REGISTROS. UM SALTO

É claro que se pode estudar comunicação desde os mais remotos registros históricos, por exemplo, o discurso como verdade, em Platão, e a retórica como persuasão, em Aristóteles. Mas nosso objetivo é apresentar ou recordar elementos teóricos que sirvam como base comum entre nós – agentes que propõem a Fraternidade na comunicação – e os nossos interlocutores – colegas, professores, alunos e outros que tenham sensibilidade a essa proposta.

Portanto, para sermos mais objetivos, daremos um enorme salto até o período das décadas de 20 a 40 do século passado. Vejam que é uma lacuna enorme, que não pode deixar de ser preenchida a posteriori por quem sentir necessidade. Basta ver que saltamos as revoluções sociais e tecnológicas que geraram a cultura de massa na qual estamos inseridos. A expressão “cultura de massas”, aliás, não é aceita por todos, e por muitos é considerada como inadequada por relegar o indivíduo a uma condição de passividade excessiva. O fato é que nos interessa esta sociedade, onde o consumo é acessível a multidões, o avanço tecnológico é vertiginoso e, principalmente, onde os meios de comunicação ocupam excepcional destaque. Os MCS são na nossa sociedade uma das instituições fundamentais, se não a mais determinante da vida social.

Pois, então, sobre os MCS atuantes nesta nossa sociedade começaram a ser desenvolvidos estudos mais sistematicamente apenas a partir das décadas de 1920/40 como dissemos. Por quê? Porque até então a comunicação não havia aparecido como problema que pudesse se constituir em objeto de estudo. A imprensa era uma instituição importante, porém, ainda sem a supremacia que têm os MCS hoje sobre outras instituições que constituíram as bases da civilização ocidental - a família, o Estado, a Igreja, a escola.

Avançaremos a partir daqui com pinceladas, indicando - às vezes apenas por tópicos – os temas, datas, escolas, tendências, autores, conceitos, teorias e outras informações que merecem registro, sem necessariamente observar uma ordem cronológica ou encadeamento metodológico. Vale observar que o próprio agrupamento de teorias e autores em escolas e tendências não é sempre consensual, sendo, por exemplo, freqüentemente colocados numa mesma escola autores que discordam sobre temas fundamentais. Importante lembrar também que a própria comunicação ainda busca se firmar como ciência, numa caminhada espistemológica , como dizem os especialistas.

¬2) A “PRÉ-HISTÓRIA” DAS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO

Vale registrar que a reflexão sociológica e filosófica já a partir do século XIX serviu como terreno fértil para os primeiros estudos sobre comunicação. Principalmente a partir da segunda metade daquele século, houve uma espécie de “pré-história” das Teocoms, escrita por autores de grande erudição. Mesmo não dedicados especificamente ao estudo dos meios de comunicação – alguns conviveram apenas com a imprensa -, eles denunciavam uma era de “barbárie” para a cultura. Estavam horrorizados com a decadência que a incipiente produção em série causava aos bens culturais. Eis alguns daqueles intelectuais: Alexis de Tocqueville (1805-1859), Friderich Nietsche (1844-1900); T.S Eliot (1888-1965); Georges Duhamel (1884-1966), Ortega Y Gasset (1883-1955), Egon Friedel (?)

3) LINGÜÍSTICA, SEMIOLOGIA, SEMIÓTICA

Aqui, como breve aceno, citamos algumas áreas de estudos que ligam as pesquisas de comunicação com ciências já consolidadas como a Lingüística, e que servem como instrumentos de análise da linguagem utilizada pelos MCS.

O suíço Ferndinand Saussure, com o livro “Curso de Lingüística Geral”, publicado em 1916 pelos seus alunos, é considerado o pai da Lingüística moderna, ligada às Ciências Humanas.

A maior contribuição de Saussure foi afirmar que existe uma ciência geral dos signos, a Semiologia, que seria, inclusive, mais ampla que a própria Lingüística.

A Semiologia se ocuparia, então, de estudar os signos na vida social.

Segundo Saussure, OS COMPONENTES DO SIGNO SÃO:

SIGNIFICADO E SIGNIFICANTE

Saussure faz ainda uma importante distinção entre LÍNGUA E FALA:

A LÍNGUA é uma instituição social, um sistema organizado de sinais que exprimem idéias.

Já a FALA é um ato individual, um uso social da LÍNGUA, que pode modificá-la (os neologismos e as gírias são exemplos do dinamismo da FALA).

Na mesma época de Saussure, Charles Sanders Peirce aparece como pioneiro da SEMIÓTICA, ciência que teria como objetivo classificar todos os tipos de signos e não apenas os lingüísticos. Para Peirce, mais importante que o signo é a interpretação que se faz do signo.

Entre outros nomes de referência no estudo da linguagem e dos signos estão L. Hjelmslev, Roman Jakobson e Chomsky

ROLAND BARTHES, no importante livro ELEMENTOS DE SEMIOLOGIA (1964) sintetiza o legado desses autores, dando uma visão geral dessa ciência e dos instrumentos necessários à pesquisa semiológica.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quadro Geral das Teorias da Comunicação

O texto dividido em blocos que postarei a partir de hoje foi divulgado originalmente por e-mail há pouco mais de dois anos, para o Frat&Mídia, um grupo de comunicadores e profissionais de tecnologia da informação que no Brasil pauta suas reflexões e ações (sobretudo pela internet) nos princípios da Net One (http://www.net-one.org/), uma rede internacional de agentes de mídia que procura construir a fraternidade (a cristã, mas também a do triplo lema da Revolução Francesa: "Igualdade, Liberdade, Fraternidade") nos meios de comunicação e por meio deles. O texto total tem aproximadamente 40 mil toques. Por isso, o colocaremos em blocos aqui no Blog. Posteriormente à primeira divulgação, realizamos outras leituras, conhecemos outros autores e escolas sobre os quais pretendemos escrever aqui também.

Marcello Riella Benites

INTRODUÇÃO


Bem, gostaria de começar dizendo que procurar adquirir uma visão geral das Teorias da Comunicação (que a partir daqui chamaremos também de “Teocoms”) significa buscar uma ferramenta para Frat&mídia atingir o seu objetivo principal, distinto em dois itens: 1) Viver a fraternidade entre os participantes e estendê-la aos colegas agentes da comunicação; e 2) Refletir sobre os Textos Básicos da NetOne (discursos realizados em congressos internacionais, entre outros textos, que contêm os pressupostos e paradigmas da proposta da Fraternidade na Mídia).

Para ambos os itens citados é válido possuir um quadro geral das Teocoms. Quanto ao primeiro (viver a fraternidade), elas servem como base comum diante dos colegas, especialmente, os que estudaram e estudam teorias da comunicação e, ainda, como sinal de credibilidade e profissionalismo. Quanto ao segundo item (refletir sobre os Textos Básicos da NetOne), as Teocoms servem para reflexões comparadas com a elaboração teórica acerca da proposta da Fraternidade na Mídia.

O estudo de um quadro geral das Teocoms resulta numa análise da dura realidade de dominação e fragmentação da sociedade que os Meios de Comunicação Social (MCS) representam, uma análise, portanto, não sei se simplifico demais ao dizer, “pessimista”. Por outro lado, é um quadro que serve como instrumento para análises mais propositivas de melhoramentos e “injeção” da fraternidade no mundo midiático.

Um preâmbulo a ser feito ainda é a consideração pessoal de que o percurso das Teocoms é válido em toda a sua trajetória no tempo. Apesar da evolução e superação de conceitos, mesmo teorias consideradas obsoletas não deveriam ser desprezadas. Não deveriam ser desprezadas por três motivos: 1) pelo significado histórico do progresso que representaram quando foram lançadas; 2) mais ainda, pelo que poderiam ter de proféticas; 3) ou, pelo menos, pela possibilidade de se apresentarem, minimamente que seja, complementares a teorias contemporâneas.

Entre outros problemas, neste Resumo faltarão os anos de nascimento e morte de boa parte dos teóricos; bem como as datas dos lançamentos de algumas obras; e as nacionalidades de muitos dos autores, que julgávamos importante indicar. Enquanto escrevíamos vinham à mente idéias de incluir citações indispensáveis como a referência ao Mito da Caverna, de Platão; os tipos humanos sociológicos de David Riesman (o homem dirigido pela tradição; o auto-dirigido; e o altero-dirigido - pela mídia e pela aprovação social); a teoria dos Usos e Gratificações (Jay Blumler e Elihu Katz, 1975)... A lista de alterações e acréscimos, porém, seria interminável e atrasaria demais o envio desse texto ao público desejado.

Que tal um grande texto coletivo?

Portanto, após a revisão e a correção que o tempo possibilitava, envio o texto, alertando aos leitores que sou um jornalista apaixonado pela idéia da Fraternidade na Mídia e, em conseqüência, pelas teorias da comunicação. Mas não sou especialista em Teocoms. Fazer essa síntese foi para mim – e imagino que poderá ter o mesmo resultado para outros colegas - como lembrar o curso de comunicação na faculdade. Talvez seja muita pretensão... Bem, aos especialistas da área eu peço a compreensão e a correção para os possíveis equívocos. A todos peço os acréscimos que acharem necessários para que os incluamos num futuro aperfeiçoamento deste trabalho. Quem sabe não poderá ser esse um grande texto coletivo, uma primeira experiência de produção coletiva do nosso grupo Frat&mídia?

Informo ainda que, para a realização deste resumo, foram utilizados os livros “Teoria da Cultura de Massa”, de Luiz Costa Lima (org.) – Paz e Terra; “Teorias da Comunicação – Conceitos, escolas e tendências”, de Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino e Vera Veiga França (organizadores) - Vozes; e “As Teorias da Comunicação – Da fala à internet”, de Roberto Elísio Santos – Paulinas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A virada para o Séc. 20, como num filme. Alguma semelhança com nosso século?

Comentário que escrevi sobre o livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz (orgs.). Editora: Cosac Naify, São Paulo, 2004.




Marcello Riella Benites

No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como  aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.

Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.

Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...

O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.

O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.

O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eleições 2010: Cidadãos da Web 2.0

Twitter, Facebook, Orkut & Cia não vão se igualar ao rádio e à TV nas eleições, pelo menos por enquanto. Mas colocando as pessoas em contato direto com os candidatos, as redes sociais abrem possibilidades inéditas à cidadania



Marcello Riella Benites

(Íntegra da reportagem publicada na Revista Cidade Nova SET/2010)



O presidenciável José Serra, na semana de fechamento desta reportagem, era seguido por cerca de 320 mil pessoas no Twitter. Tinha conquistado 8 mil seguidores em apenas dois dias e aproveitava a fama de estar entre os políticos que mais tuitavam sem auxílio de assessoria. No final de junho, um estudante gravou um vídeo cantando a paródia de uma música pop com letra favorável a Dilma Rousseff e colocou no You Tube: em pouco mais de um mês, o vídeo atingiu 189 mil exibições. Já o “tuitaço” de Marina Silva em 20 de julho, idealizado por um usuário do Orkut, fez com que a candidata ultrapassasse os 100 mil seguidores no Twitter – no início de agosto ultrapassavam 116 mil e Marina era considerada a que mais usava o microblog entre os três candidatos. Em comum, nesses três relatos, a importância de Sua Excelência, o “cidadão comum”, utilizando as chamadas redes sociais para se informar e fazer a diferença nas eleições.



O geólogo Leandro Machado, de Niterói (RJ), que segue Serra no Twitter e confirma a informação sobre o uso pessoal que o tucano faz do microblog, é seguidor também de Marina Silva e de vários perfis de Dilma, além de candidatos a governador. Também visita blogs de candidatos a senador e sites como o Vote na Web e o Cidade Democrática. “O Twitter nos deixa mais próximos dos candidatos. Na TV é tudo muito armado, como num cenário. E no caso de um candidato que disponha de pouco tempo na TV, não posso conhecê-lo bem, mas na Internet eu posso”, afirma Leandro.

Apesar da tecnologia envolvida, já que a Internet tem como primeira definição uma “rede de computadores”, as redes sociais, como vêm sendo chamados o Twitter, o Orkut, o You Tube, os blogs e o Facebook, entre outros, têm se demonstrado cada vez mais como “redes de pessoas”. Mesmo não tendo, em geral, a mesma carga de investimento afetivo e durabilidade na ligação que o contato presencial, possuem características sociológicas inerentes às relações humanas. Afinal, por trás das máquinas e dos perfis, existem pessoas. E como as redes sociais possibilitam essa busca de reciprocidade típica dos seres humanos, isso tem feito a diferença também na política. O exemplo mais emblemático foi a importância que tiveram na eleição de Barack Obama.



“Outra grande capacidade da Internet é a mobilização. Ela é um ótimo instrumento para unir pessoas em volta de interesses comuns. As redes fazem com que esses vínculos fiquem mais fortes e resultem em decisões concretas. Porém, isso não se consegue apenas direcionando mensagens para o eleitor, como nos meios de comunicação tradicional, mas, simplesmente, fazendo com que as pessoas se encontrem”, afirma Daniel Souza, coordenador de pesquisas da agência digital Talk Interactive que, entre outros serviços, presta assessoria a campanhas. E nesse “simplesmente” a que Daniel se refere está a diferença entre o político que quer levar sua mensagem aos eleitores por meio da web, e sentir as expectativas deles, e aquele que quer estar na rede apenas para não parecer “atrasado”.

 
Os “virais” da web

 
“A utilização das redes na política é um desdobramento de diversos fatores, como a conexão de pessoas, a resistência da Internet aos meios de comunicação tradicional como rádio e TV, a transparência que se exige nos processos, a mobilização de pessoas em prol de uma causa e a facilidade de se replicar conteúdo”, completa a jornalista Cibele Lana, especializada em redes sociais. Um fenômeno que vem chamando a atenção devido à facilidade de se multiplicar conteúdo nas redes sociais é a ocorrência dos chamados “virais”, conteúdos produzidos geralmente por internautas comuns, não ligados oficialmente a candidatos, que se disseminam pela web com rapidez como vírus e podem influenciar o processo eleitoral.


“Os virais preferidos são os de vídeo e os de fotografia. Toda ‘remixabilidade’ própria da Internet se encontra neles. O viral consegue desconstruir inúmeras mensagens maquiadas dos candidatos, desmascarar possíveis estratégias políticas, zombar da contradição nos discursos e, é claro, propagandear com muito humor através das recombinações de áudio, imagem e vídeo, idéias que podem circular como praga pela rede”, afirma Fábio Malini, professor de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).


Um vídeo viral que teve significativo destaque, porém, desfavorável, foi o de um candidato entrevistado no site do próprio partido fazendo afirmações gravemente desabonadoras a outra agremiação partidária, resultando, inclusive, em concessão, pelo Tribunal Superior Eleitoral, do direito de resposta na homepage. Não se tratou apenas de um “tiro no pé”. Mesmo identificado o deslize pela equipe do site, uma vez colocado o viral na rede por internautas, rapidamente, já se multiplicaram por milhares as cópias, que não podiam mais ser detidas e tiveram repercussão nacional.


Redes sociais pautam a grande mídia

Outro vídeo, ainda, disseminou pela web, horas antes do comício de uma candidata, as imagens de material de campanha dela num automóvel da prefeitura da cidade onde se realizaria o evento. E nesse caso, as imagens foram feitas por um blogueiro comum, sendo depois divulgadas em blogs da grande mídia, e finalmente ganhando todos os meios de comunicação. “O que a gente percebe agora é que o Twitter e os blogs estão pautando a grande mídia. Em eleições anteriores, um assessor de imprensa influente talvez ligasse para determinado jornal falando: ‘Olha, isso aí não pode ser publicado...’ Mas hoje não há como. Depois que está no You Tube, ninguém tira”, comenta Daniel Souza.

E além da espontaneidade dos blogueiros e da curiosidade e observação dos internautas que seguem políticos nas redes sociais, há o protagonismo de cidadãos que colocam na rede ferramentas altamente criativas para contribuir com a democracia. É o caso de Paula Góes, que mora em Londres, e Diego Casaes, de São Paulo, que, sem qualquer remuneração, lançaram ainda antes do início da campanha, a plataforma Eleitor 2010, que conta com a participação de mais de 50 voluntários. “Plataforma” é como vem sendo chamados no jargão da web sites com específicas capacidades colaborativas e de relacionamento. No caso do Eleitor 2010, essas características, ou “funcionalidades”, permitem a qualquer pessoa com alguma conexão na Internet fazer denúncias de crimes eleitorais em todo o Brasil.

 
E aqui voltamos às características de compartilhamento na web. Assim como se compartilham informações, também se compartilham as técnicas. “Muitos dos programas de computador livres que conhecemos, como o Linux, foram desenvolvidos a muitas mãos, a partir do momento em que os seus desenvolvedores começaram a deixar os códigos abertos para que quem tivesse ainda mais conhecimento pudesse aperfeiçoá-los”, afirma Cibele Lana. A plataforma Ushahidi, utilizada pelo Eleitor 2010, é um desses casos, e combina funcionalidades como o Google Maps e outras para que as pessoas possam enviar textos, fotos e vídeos, denunciando crimes, como compra de votos, conteúdo ofensivo em sites de campanha e inscrição eleitoral fraudulenta.



Fiscais do pleito

“O nosso foco é dar ao eleitor as ferramentas para que ele se torne um fiscal do pleito. Em vez de apenas votar, ele vai atuar também como um observador das eleições”, afirma Paula Góes. Para exemplificar essa fiscalização do cidadão comum, ela conta o caso de uma pequena cidade no norte do país. “Duas pessoas de lá fizeram denúncias. Uma mandou fotos e textos, dizendo que o prefeito distribuiu no dia de um jogo do Brasil camisetas verde e amarelas para o torcedor curtir a Copa, mas com o número do candidato que ele apoiava para o governo do Estado. E além de dar a camiseta, havia o recado de que o prefeito ficaria muito triste se os funcionários públicos não a usassem. O denunciante mandou fotos de uma espécie de carreata pelas ruas da cidade com as pessoas usando a camiseta. Eu acho que nossa plataforma foi o primeiro lugar onde isso foi publicado. Depois saiu na imprensa local”.

Paula conta que cada denúncia passa por um filtro, sendo examinada por um grupo que avalia sua coerência. Depois, a equipe tenta verificar por outros meios o relato. Quando ele é publicado, aparece com o status de “verificado” ou não. As denúncias são sempre anônimas. Não há como saber quem está mandando, se a pessoa não se identificar. “O cidadão pode fazer sua denúncia, sem precisar ligar para os grandes meios de comunicação e aguardar que mandem uma equipe de reportagem, ou esperar que sua denúncia passe pelo filtro dos interesses dos donos daquele meio de comunicação, correndo o risco até mesmo de ser ignorada, devido às limitações de espaço e tempo, porque um jornal tem espaço limitado, assim como o rádio e a TV”, diz a idealizadora do plataforma, que no início de agosto já tinha recebido cerca de 90 denúncias.

O Eleitor 2010 soma-se a inúmeras outras iniciativas. O Sem Sujeira combate a propaganda irregular como placas, cartazes e faixas em lugares proibidos. No Vote na Web, o visitante conhece os projetos de lei propostos por parlamentares e vota favoravelmente ou contrariamente, e assim, pode acompanhar também a qualidade dos mandatos. “Ali nós encontramos cada besteira... Mas também há projetos muito legais e temos a oportunidade de construir junto com o político, apoiar aquela proposta interessante com nossa manifestação”, afirma o geólogo Leandro Machado. Já o Cidade Democrática ajuda a aproximar pessoas que identificam diversos problemas e suas soluções em cidades do Brasil inteiro.

Porém...

Ainda na linha da webcidadania eleitoral, está no ar o site Ficha Limpa. Nele, não só o cidadão comum pode fazer denúncia de candidatos que tenham “ficha suja”, como os candidatos que quiserem, podem se deixar avaliar pela equipe do site, para figurar numa lista se comprometendo a serem transparentes em sua campanha eleitoral, informando semanalmente a origem dos recursos obtidos e os gastos efetivados. “Somente após a avaliação, o candidato é autorizado (ou não) a figurar na lista”, informa o site, que por sua vez, não é uma iniciativa de cidadãos comuns, mas da sociedade civil organizada, no caso o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) que recolheu mais de 1 milhão de assinaturas para que fosse votada e aprovada a Lei Ficha Limpa.

Vale lembrar, entretanto, que embora as redes sociais possibilitem toda essa liberdade de expressão e de controle social sobre o processo eleitoral, o caminho da denúncia fácil e mal intencionada, acobertada pelo anonimato, não está livre de processos judiciais. Outra ressalva é que as redes sociais ainda não têm a mesma influência nas eleições que os meios de comunicação tradicionais. “No Brasil, a influência da TV e do rádio ainda é muito grande na cabeça da maior parte dos eleitores. Temos uma população digital de apenas 30% a 40%”, afirma Daniel Souza, que lembra ainda: para que as redes sociais cumpram o papel cidadão de que falamos, não é suficiente apenas uma democratização digital, mas deve ocorrer antes uma “democratização educacional”.

Estatísticas que se pulverizam

Em se tratando de Internet, os números se alteram de forma muito rápida e frequentemente “se pulverizam”, sendo logo ultrapassadas devido às constantes novidades tecnológicas e novos usos das redes sociais. A característica principal é de um crescimento vertiginoso. No Brasil, como a utilização das redes nas campanhas eleitorais terá neste ano seu primeiro grande teste, as estatísticas a respeito não são consistentes, mas registros sobre a web em geral já dão um quadro de seu potencial nas eleições.

Brasil

- 66 milhões de usuários da Internet

- 87% dos internautas acessam redes sociais

- 20% dos usuários brasileiros têm a intenção de entrar nas redes sociais em breve

- País está em décimo no uso de serviços como Twitter, Orkut, Facebook e You Tube. A Índia é a líder, à frente da Sérvia, Coréia do Sul, Rússia, Espanha, China, Turquia, Romênia e Itália

- 18% do eleitorado (131,5 milhões) tem de 18 a 24 anos e acessa a web

- Twitter: 10,7 milhões de visita por mês (sem contar as repetidas) ao lado do Facebook e atrás do Orkut (26,9)

Twitter no mundo

- Mais de 100 milhões de usuários, terceira maior rede social, atrás do Facebook (400) e do QZone (310, presente apenas na China)

- 65 milhões de mensagens diárias; desde a criação, foram mais de 20 bilhões mensagens

- 190 milhões de visitas por mês (fora as repetidas)


Fontes: Ibope; Worldwide Independent Network of Market Research (WIN); Revista Veja; Ibope/Nielsen On Line; TSE.

Glossário 2.0

Site – Uma das mais tradicionais estruturas da Internet, os sites, geralmente mantidos por instituições, são endereços para exposição de informações e todo tipo de conteúdo na web.



Redes sociais – Emprestada da sociologia, a expressão “redes sociais” vem sendo utilizada para designar sites que facilitam o relacionamento entre as pessoas.



Web 2.0 – Usada como sinônimo de Internet, a palavra “web”, teia em inglês, tem também um significado próximo a “rede”. A Web 2.0 é a segunda geração de sites, serviços e comunidades na Internet, da qual fazem parte as redes sociais.



Blog – É um site mantido geralmente por pessoas físicas, que ali manifestam suas opiniões, mas também por instituições, permitindo atualizações rápidas e comentários imediatos por parte dos visitantes.



Orkut - O Orkut é uma rede social criada para ajudar os integrantes a conhecer ou reencontrar pessoas e formar comunidades segundo interesses comuns, compartilhando fotos e outros conteúdos.



Facebook – Nessa rede o usuário pode adicionar “amigos”, enviar e receber mensagens deles, e atualizar o próprio perfil pessoal e profissional. Guardando algumas semelhanças com o Orkut, o Facebook é bastante utilizado para contatos no mundo do estudo e do trabalho.



Twitter – Também conhecida como microblog, a rede social Twitter é composta por usuários que são acompanhados por “seguidores”, para os quais enviam mensagens de até 140 caracteres. Os seguidores, por sua vez, são seguidos por outros usuários.

You Tube – Site de compartilhamento de vídeos.


Box 3: Confira os endereços cidadãos citados nesta reportagem


http://eleitor2010.com/

http://semsujeira.com/

http://www.votenaweb.com.br/

http://www.cidadedemocratica.org.br/

http://www.fichalimpaja.org.br/

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Somos modernos ou pós-modernos? Respostas híbridas na América Latina


Publico aqui o comentário que fiz do livro "Culturas Híbridas" (Edusp, 2006), de Néstor García Canclini

Diante da transição, que muitos teóricos afirmam ocorrer no Ocidente, de uma cultura moderna para uma cultura pós-moderna, um questionamento provocado pelo livro Culturas Híbridas (Edusp) é: como sermos, nós latino-americanos, pós-modernos se ainda não somos modernos? Na verdade, até mesmo a conveniência sobre sermos modernos é questionada pelo autor, o acadêmico argentino radicado no México Néstor García Canclini, no subtítulo -  “estratégias para entrar e sair da modernidade” – desse livro publicado originalmente em 1989 e que mantém ainda consistentes suas teses.

Ora, como sabemos, o ideal modernista é o projeto de um indivíduo emancipado da religião e das ideologias, rico de conhecimento/informação; construindo uma sociedade voltada para a expansão da produção econômica, fundada nas descobertas científicas e no desenvolvimento industrial; e na renovação incessante em todos os níveis da atividade humana, com o objetivo ético, moral e racional de aperfeiçoar a democracia; com popularização cultural e científica e com eliminação da pobreza.  O livro nos lembra que esse projeto não está de forma alguma realizado de forma homogênea no continente latino-americano.

Numa “Introdução à edição de 2001”, Canclini analisa os prós e contras do conceito de hibridismo/hibridação. Ele o faz já a partir do aspecto histórico, mostrando que não se trata de um fenômeno novo, constituindo-se a própria história da humanidade num contínuo processo de hibridação que se particularizou no continente entre colonizados, colonizadores e escravos negros vindos da África. É evidente, porém, o fato de que as hibridações se aceleraram, em todos os níveis – étnico, cultural, ideológico... -, de forma marcante nas décadas finais do século 20.

A obra percebe o entrelaçamento sem volta entre o culto (erudito), o popular e o massivo (mídia) - vale ressaltar que essa é uma das reflexões centrais deste texto. Indica ainda o fênomeno da desterritorialização dos processos culturais e identitários urbanos, que ocorre com as migrações generalizadas pelo planeta. A cidade de Tijuana, no México, fronteiriça com os EUA, que em 1950 tinha 60 mil habitantes e hoje abriga mais de 1 milhão, é apresentada como exemplo da desterritorialização: a característica mais importante nas cidades de hoje não é mais tanto a natureza ou a cultura do local (território), e, sim, as marcas globais (concluímos, por exemplo, arquitetura urbana, ambientes homogeneizados dos shoppings e aeroportos; problemas como trânsito e violência; ritmo de vida ditado pelo mercado, pelo consumo e pela pressa...). Mas o autor não deixa de identificar também um esforço dos mexicanos de Tijuana – como ocorreria em outras cidades “desterritorializadas” - no sentido de uma “reterritorialização” que resiste/negocia para manter certa identidade original.

Outro conceito interessante proposto por Canclini é o de “poderes oblíquos”, que poderiam ser o poder dividido em parcelas também controladas pelos dominados, que sempre têm, afinal, alguma força de barganha e que podem por “vias diagonais” gerir conflitos e marcar conquistas. Trata-se de uma perspectiva na qual “hegemônicos e subalternos precisam uns dos outros”; uma perspectiva que aceita a fragmentação e as combinações entre tradição, modernidade e pós-modernidade; que vê a pós-modernidade não como nova etapa histórica, mas como crítica àquele evolucionismo  que apresenta os progressos tecnológicos e econômicos os únicos geradores de todo o sentido de que a sociedade precisa.

O autor indica, finalmente, três vias de adaptação às reestruturações provocadas pela modernidade tardia: 1) resistência e reafirmação do autêntico projeto moderno; 2) adesão incondicional ao evolucionismo já citado. 3) um “deslizamento constante entre o culto, o popular e o massivo”. É uma “saída” – lembremo-nos do subtítulo - que poderia desfazer a falsa obrigatoriedade de escolher entre inovar (e, portanto, estabelecer diferença, distinção, discriminar entre o novo e o velho, o desenvolvido e o subdesenvolvido) e democratizar.

Inovar e democratizar são escolhas, concluímos, que não necessariamente se excluem, e podem se  “hibridar”. Tanto a via do “deslizamento entre culto, popular e massivo”, quanto as decisões de inovar e democratizar podem se harmonizar e servir de base às duas propostas com as quais o livro termina: a) um esforço para a reconstrução da crítica social e b) o questionamento do neoliberalismo como dogma da modernidade; tudo isso sendo “radical sem ser fundamentalista”, conclui Canclini.

(Escrito em fevereiro de 2009)