Publico aqui o comentário que fiz do livro "Culturas Híbridas" (Edusp, 2006), de Néstor García Canclini
Diante da transição, que muitos teóricos afirmam ocorrer no Ocidente, de uma cultura moderna para uma cultura pós-moderna, um questionamento provocado pelo livro Culturas Híbridas (Edusp) é: como sermos, nós latino-americanos, pós-modernos se ainda não somos modernos? Na verdade, até mesmo a conveniência sobre sermos modernos é questionada pelo autor, o acadêmico argentino radicado no México Néstor García Canclini, no subtítulo - “estratégias para entrar e sair da modernidade” – desse livro publicado originalmente em 1989 e que mantém ainda consistentes suas teses.
Ora, como sabemos, o ideal modernista é o projeto de um indivíduo emancipado da religião e das ideologias, rico de conhecimento/informação; construindo uma sociedade voltada para a expansão da produção econômica, fundada nas descobertas científicas e no desenvolvimento industrial; e na renovação incessante em todos os níveis da atividade humana, com o objetivo ético, moral e racional de aperfeiçoar a democracia; com popularização cultural e científica e com eliminação da pobreza. O livro nos lembra que esse projeto não está de forma alguma realizado de forma homogênea no continente latino-americano.
Numa “Introdução à edição de 2001”, Canclini analisa os prós e contras do conceito de hibridismo/hibridação. Ele o faz já a partir do aspecto histórico, mostrando que não se trata de um fenômeno novo, constituindo-se a própria história da humanidade num contínuo processo de hibridação que se particularizou no continente entre colonizados, colonizadores e escravos negros vindos da África. É evidente, porém, o fato de que as hibridações se aceleraram, em todos os níveis – étnico, cultural, ideológico... -, de forma marcante nas décadas finais do século 20.
A obra percebe o entrelaçamento sem volta entre o culto (erudito), o popular e o massivo (mídia) - vale ressaltar que essa é uma das reflexões centrais deste texto. Indica ainda o fênomeno da desterritorialização dos processos culturais e identitários urbanos, que ocorre com as migrações generalizadas pelo planeta. A cidade de Tijuana, no México, fronteiriça com os EUA, que em 1950 tinha 60 mil habitantes e hoje abriga mais de 1 milhão, é apresentada como exemplo da desterritorialização: a característica mais importante nas cidades de hoje não é mais tanto a natureza ou a cultura do local (território), e, sim, as marcas globais (concluímos, por exemplo, arquitetura urbana, ambientes homogeneizados dos shoppings e aeroportos; problemas como trânsito e violência; ritmo de vida ditado pelo mercado, pelo consumo e pela pressa...). Mas o autor não deixa de identificar também um esforço dos mexicanos de Tijuana – como ocorreria em outras cidades “desterritorializadas” - no sentido de uma “reterritorialização” que resiste/negocia para manter certa identidade original.
Outro conceito interessante proposto por Canclini é o de “poderes oblíquos”, que poderiam ser o poder dividido em parcelas também controladas pelos dominados, que sempre têm, afinal, alguma força de barganha e que podem por “vias diagonais” gerir conflitos e marcar conquistas. Trata-se de uma perspectiva na qual “hegemônicos e subalternos precisam uns dos outros”; uma perspectiva que aceita a fragmentação e as combinações entre tradição, modernidade e pós-modernidade; que vê a pós-modernidade não como nova etapa histórica, mas como crítica àquele evolucionismo que apresenta os progressos tecnológicos e econômicos os únicos geradores de todo o sentido de que a sociedade precisa.
O autor indica, finalmente, três vias de adaptação às reestruturações provocadas pela modernidade tardia: 1) resistência e reafirmação do autêntico projeto moderno; 2) adesão incondicional ao evolucionismo já citado. 3) um “deslizamento constante entre o culto, o popular e o massivo”. É uma “saída” – lembremo-nos do subtítulo - que poderia desfazer a falsa obrigatoriedade de escolher entre inovar (e, portanto, estabelecer diferença, distinção, discriminar entre o novo e o velho, o desenvolvido e o subdesenvolvido) e democratizar.
Inovar e democratizar são escolhas, concluímos, que não necessariamente se excluem, e podem se “hibridar”. Tanto a via do “deslizamento entre culto, popular e massivo”, quanto as decisões de inovar e democratizar podem se harmonizar e servir de base às duas propostas com as quais o livro termina: a) um esforço para a reconstrução da crítica social e b) o questionamento do neoliberalismo como dogma da modernidade; tudo isso sendo “radical sem ser fundamentalista”, conclui Canclini.
(Escrito em fevereiro de 2009)

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