sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eleições 2010: Cidadãos da Web 2.0

Twitter, Facebook, Orkut & Cia não vão se igualar ao rádio e à TV nas eleições, pelo menos por enquanto. Mas colocando as pessoas em contato direto com os candidatos, as redes sociais abrem possibilidades inéditas à cidadania



Marcello Riella Benites

(Íntegra da reportagem publicada na Revista Cidade Nova SET/2010)



O presidenciável José Serra, na semana de fechamento desta reportagem, era seguido por cerca de 320 mil pessoas no Twitter. Tinha conquistado 8 mil seguidores em apenas dois dias e aproveitava a fama de estar entre os políticos que mais tuitavam sem auxílio de assessoria. No final de junho, um estudante gravou um vídeo cantando a paródia de uma música pop com letra favorável a Dilma Rousseff e colocou no You Tube: em pouco mais de um mês, o vídeo atingiu 189 mil exibições. Já o “tuitaço” de Marina Silva em 20 de julho, idealizado por um usuário do Orkut, fez com que a candidata ultrapassasse os 100 mil seguidores no Twitter – no início de agosto ultrapassavam 116 mil e Marina era considerada a que mais usava o microblog entre os três candidatos. Em comum, nesses três relatos, a importância de Sua Excelência, o “cidadão comum”, utilizando as chamadas redes sociais para se informar e fazer a diferença nas eleições.



O geólogo Leandro Machado, de Niterói (RJ), que segue Serra no Twitter e confirma a informação sobre o uso pessoal que o tucano faz do microblog, é seguidor também de Marina Silva e de vários perfis de Dilma, além de candidatos a governador. Também visita blogs de candidatos a senador e sites como o Vote na Web e o Cidade Democrática. “O Twitter nos deixa mais próximos dos candidatos. Na TV é tudo muito armado, como num cenário. E no caso de um candidato que disponha de pouco tempo na TV, não posso conhecê-lo bem, mas na Internet eu posso”, afirma Leandro.

Apesar da tecnologia envolvida, já que a Internet tem como primeira definição uma “rede de computadores”, as redes sociais, como vêm sendo chamados o Twitter, o Orkut, o You Tube, os blogs e o Facebook, entre outros, têm se demonstrado cada vez mais como “redes de pessoas”. Mesmo não tendo, em geral, a mesma carga de investimento afetivo e durabilidade na ligação que o contato presencial, possuem características sociológicas inerentes às relações humanas. Afinal, por trás das máquinas e dos perfis, existem pessoas. E como as redes sociais possibilitam essa busca de reciprocidade típica dos seres humanos, isso tem feito a diferença também na política. O exemplo mais emblemático foi a importância que tiveram na eleição de Barack Obama.



“Outra grande capacidade da Internet é a mobilização. Ela é um ótimo instrumento para unir pessoas em volta de interesses comuns. As redes fazem com que esses vínculos fiquem mais fortes e resultem em decisões concretas. Porém, isso não se consegue apenas direcionando mensagens para o eleitor, como nos meios de comunicação tradicional, mas, simplesmente, fazendo com que as pessoas se encontrem”, afirma Daniel Souza, coordenador de pesquisas da agência digital Talk Interactive que, entre outros serviços, presta assessoria a campanhas. E nesse “simplesmente” a que Daniel se refere está a diferença entre o político que quer levar sua mensagem aos eleitores por meio da web, e sentir as expectativas deles, e aquele que quer estar na rede apenas para não parecer “atrasado”.

 
Os “virais” da web

 
“A utilização das redes na política é um desdobramento de diversos fatores, como a conexão de pessoas, a resistência da Internet aos meios de comunicação tradicional como rádio e TV, a transparência que se exige nos processos, a mobilização de pessoas em prol de uma causa e a facilidade de se replicar conteúdo”, completa a jornalista Cibele Lana, especializada em redes sociais. Um fenômeno que vem chamando a atenção devido à facilidade de se multiplicar conteúdo nas redes sociais é a ocorrência dos chamados “virais”, conteúdos produzidos geralmente por internautas comuns, não ligados oficialmente a candidatos, que se disseminam pela web com rapidez como vírus e podem influenciar o processo eleitoral.


“Os virais preferidos são os de vídeo e os de fotografia. Toda ‘remixabilidade’ própria da Internet se encontra neles. O viral consegue desconstruir inúmeras mensagens maquiadas dos candidatos, desmascarar possíveis estratégias políticas, zombar da contradição nos discursos e, é claro, propagandear com muito humor através das recombinações de áudio, imagem e vídeo, idéias que podem circular como praga pela rede”, afirma Fábio Malini, professor de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).


Um vídeo viral que teve significativo destaque, porém, desfavorável, foi o de um candidato entrevistado no site do próprio partido fazendo afirmações gravemente desabonadoras a outra agremiação partidária, resultando, inclusive, em concessão, pelo Tribunal Superior Eleitoral, do direito de resposta na homepage. Não se tratou apenas de um “tiro no pé”. Mesmo identificado o deslize pela equipe do site, uma vez colocado o viral na rede por internautas, rapidamente, já se multiplicaram por milhares as cópias, que não podiam mais ser detidas e tiveram repercussão nacional.


Redes sociais pautam a grande mídia

Outro vídeo, ainda, disseminou pela web, horas antes do comício de uma candidata, as imagens de material de campanha dela num automóvel da prefeitura da cidade onde se realizaria o evento. E nesse caso, as imagens foram feitas por um blogueiro comum, sendo depois divulgadas em blogs da grande mídia, e finalmente ganhando todos os meios de comunicação. “O que a gente percebe agora é que o Twitter e os blogs estão pautando a grande mídia. Em eleições anteriores, um assessor de imprensa influente talvez ligasse para determinado jornal falando: ‘Olha, isso aí não pode ser publicado...’ Mas hoje não há como. Depois que está no You Tube, ninguém tira”, comenta Daniel Souza.

E além da espontaneidade dos blogueiros e da curiosidade e observação dos internautas que seguem políticos nas redes sociais, há o protagonismo de cidadãos que colocam na rede ferramentas altamente criativas para contribuir com a democracia. É o caso de Paula Góes, que mora em Londres, e Diego Casaes, de São Paulo, que, sem qualquer remuneração, lançaram ainda antes do início da campanha, a plataforma Eleitor 2010, que conta com a participação de mais de 50 voluntários. “Plataforma” é como vem sendo chamados no jargão da web sites com específicas capacidades colaborativas e de relacionamento. No caso do Eleitor 2010, essas características, ou “funcionalidades”, permitem a qualquer pessoa com alguma conexão na Internet fazer denúncias de crimes eleitorais em todo o Brasil.

 
E aqui voltamos às características de compartilhamento na web. Assim como se compartilham informações, também se compartilham as técnicas. “Muitos dos programas de computador livres que conhecemos, como o Linux, foram desenvolvidos a muitas mãos, a partir do momento em que os seus desenvolvedores começaram a deixar os códigos abertos para que quem tivesse ainda mais conhecimento pudesse aperfeiçoá-los”, afirma Cibele Lana. A plataforma Ushahidi, utilizada pelo Eleitor 2010, é um desses casos, e combina funcionalidades como o Google Maps e outras para que as pessoas possam enviar textos, fotos e vídeos, denunciando crimes, como compra de votos, conteúdo ofensivo em sites de campanha e inscrição eleitoral fraudulenta.



Fiscais do pleito

“O nosso foco é dar ao eleitor as ferramentas para que ele se torne um fiscal do pleito. Em vez de apenas votar, ele vai atuar também como um observador das eleições”, afirma Paula Góes. Para exemplificar essa fiscalização do cidadão comum, ela conta o caso de uma pequena cidade no norte do país. “Duas pessoas de lá fizeram denúncias. Uma mandou fotos e textos, dizendo que o prefeito distribuiu no dia de um jogo do Brasil camisetas verde e amarelas para o torcedor curtir a Copa, mas com o número do candidato que ele apoiava para o governo do Estado. E além de dar a camiseta, havia o recado de que o prefeito ficaria muito triste se os funcionários públicos não a usassem. O denunciante mandou fotos de uma espécie de carreata pelas ruas da cidade com as pessoas usando a camiseta. Eu acho que nossa plataforma foi o primeiro lugar onde isso foi publicado. Depois saiu na imprensa local”.

Paula conta que cada denúncia passa por um filtro, sendo examinada por um grupo que avalia sua coerência. Depois, a equipe tenta verificar por outros meios o relato. Quando ele é publicado, aparece com o status de “verificado” ou não. As denúncias são sempre anônimas. Não há como saber quem está mandando, se a pessoa não se identificar. “O cidadão pode fazer sua denúncia, sem precisar ligar para os grandes meios de comunicação e aguardar que mandem uma equipe de reportagem, ou esperar que sua denúncia passe pelo filtro dos interesses dos donos daquele meio de comunicação, correndo o risco até mesmo de ser ignorada, devido às limitações de espaço e tempo, porque um jornal tem espaço limitado, assim como o rádio e a TV”, diz a idealizadora do plataforma, que no início de agosto já tinha recebido cerca de 90 denúncias.

O Eleitor 2010 soma-se a inúmeras outras iniciativas. O Sem Sujeira combate a propaganda irregular como placas, cartazes e faixas em lugares proibidos. No Vote na Web, o visitante conhece os projetos de lei propostos por parlamentares e vota favoravelmente ou contrariamente, e assim, pode acompanhar também a qualidade dos mandatos. “Ali nós encontramos cada besteira... Mas também há projetos muito legais e temos a oportunidade de construir junto com o político, apoiar aquela proposta interessante com nossa manifestação”, afirma o geólogo Leandro Machado. Já o Cidade Democrática ajuda a aproximar pessoas que identificam diversos problemas e suas soluções em cidades do Brasil inteiro.

Porém...

Ainda na linha da webcidadania eleitoral, está no ar o site Ficha Limpa. Nele, não só o cidadão comum pode fazer denúncia de candidatos que tenham “ficha suja”, como os candidatos que quiserem, podem se deixar avaliar pela equipe do site, para figurar numa lista se comprometendo a serem transparentes em sua campanha eleitoral, informando semanalmente a origem dos recursos obtidos e os gastos efetivados. “Somente após a avaliação, o candidato é autorizado (ou não) a figurar na lista”, informa o site, que por sua vez, não é uma iniciativa de cidadãos comuns, mas da sociedade civil organizada, no caso o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) que recolheu mais de 1 milhão de assinaturas para que fosse votada e aprovada a Lei Ficha Limpa.

Vale lembrar, entretanto, que embora as redes sociais possibilitem toda essa liberdade de expressão e de controle social sobre o processo eleitoral, o caminho da denúncia fácil e mal intencionada, acobertada pelo anonimato, não está livre de processos judiciais. Outra ressalva é que as redes sociais ainda não têm a mesma influência nas eleições que os meios de comunicação tradicionais. “No Brasil, a influência da TV e do rádio ainda é muito grande na cabeça da maior parte dos eleitores. Temos uma população digital de apenas 30% a 40%”, afirma Daniel Souza, que lembra ainda: para que as redes sociais cumpram o papel cidadão de que falamos, não é suficiente apenas uma democratização digital, mas deve ocorrer antes uma “democratização educacional”.

Estatísticas que se pulverizam

Em se tratando de Internet, os números se alteram de forma muito rápida e frequentemente “se pulverizam”, sendo logo ultrapassadas devido às constantes novidades tecnológicas e novos usos das redes sociais. A característica principal é de um crescimento vertiginoso. No Brasil, como a utilização das redes nas campanhas eleitorais terá neste ano seu primeiro grande teste, as estatísticas a respeito não são consistentes, mas registros sobre a web em geral já dão um quadro de seu potencial nas eleições.

Brasil

- 66 milhões de usuários da Internet

- 87% dos internautas acessam redes sociais

- 20% dos usuários brasileiros têm a intenção de entrar nas redes sociais em breve

- País está em décimo no uso de serviços como Twitter, Orkut, Facebook e You Tube. A Índia é a líder, à frente da Sérvia, Coréia do Sul, Rússia, Espanha, China, Turquia, Romênia e Itália

- 18% do eleitorado (131,5 milhões) tem de 18 a 24 anos e acessa a web

- Twitter: 10,7 milhões de visita por mês (sem contar as repetidas) ao lado do Facebook e atrás do Orkut (26,9)

Twitter no mundo

- Mais de 100 milhões de usuários, terceira maior rede social, atrás do Facebook (400) e do QZone (310, presente apenas na China)

- 65 milhões de mensagens diárias; desde a criação, foram mais de 20 bilhões mensagens

- 190 milhões de visitas por mês (fora as repetidas)


Fontes: Ibope; Worldwide Independent Network of Market Research (WIN); Revista Veja; Ibope/Nielsen On Line; TSE.

Glossário 2.0

Site – Uma das mais tradicionais estruturas da Internet, os sites, geralmente mantidos por instituições, são endereços para exposição de informações e todo tipo de conteúdo na web.



Redes sociais – Emprestada da sociologia, a expressão “redes sociais” vem sendo utilizada para designar sites que facilitam o relacionamento entre as pessoas.



Web 2.0 – Usada como sinônimo de Internet, a palavra “web”, teia em inglês, tem também um significado próximo a “rede”. A Web 2.0 é a segunda geração de sites, serviços e comunidades na Internet, da qual fazem parte as redes sociais.



Blog – É um site mantido geralmente por pessoas físicas, que ali manifestam suas opiniões, mas também por instituições, permitindo atualizações rápidas e comentários imediatos por parte dos visitantes.



Orkut - O Orkut é uma rede social criada para ajudar os integrantes a conhecer ou reencontrar pessoas e formar comunidades segundo interesses comuns, compartilhando fotos e outros conteúdos.



Facebook – Nessa rede o usuário pode adicionar “amigos”, enviar e receber mensagens deles, e atualizar o próprio perfil pessoal e profissional. Guardando algumas semelhanças com o Orkut, o Facebook é bastante utilizado para contatos no mundo do estudo e do trabalho.



Twitter – Também conhecida como microblog, a rede social Twitter é composta por usuários que são acompanhados por “seguidores”, para os quais enviam mensagens de até 140 caracteres. Os seguidores, por sua vez, são seguidos por outros usuários.

You Tube – Site de compartilhamento de vídeos.


Box 3: Confira os endereços cidadãos citados nesta reportagem


http://eleitor2010.com/

http://semsujeira.com/

http://www.votenaweb.com.br/

http://www.cidadedemocratica.org.br/

http://www.fichalimpaja.org.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário