Vamos para mais um post, o terceiro da transcrição da fala de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Já estou percebendo que a transcrição toda não vai sair em quatro postagens como previ, mas em cinco. Nesta, após constatar a invasão do ambiente público pela privacidade individual – citando o caso de uma mulher que anunciou para milhões de telespectadores que nunca teve um orgasmo -, o sociólogo define o que ele chama de “o tipo de amizade do facebook”, marcada por duas únicas atividades, “conectar e desconectar”.
Como sempre, ofereço a todos a possibilidade de ver o vídeo http://bit.ly/nIhMVj
Com vocês, então, Zygmunt Bauman:
Entretanto, o perigo para essa autonomia [do indivíduo] veio do outro lado, da esfera do privado e do [próprio] indivíduo. A maior aproximação contemporânea da Ágora, do lugar onde a democracia foi feita, refeita, continuada desenvolvida e protegida, a maior aproximação disso são os talk shows na televisão. É onde as massas assistem, participam, telefonam, enviam perguntas, mensagens etc... Algo semelhante ao que se fazia na antiga Ágora.
[Mas] ao olharmos para isso, vemos que eles não estão discutindo os nossos interesses compartilhados, não estão discutindo o bem-estar da sociedade. Eles não estão discutindo sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos nós sofremos na sociedade atual. Eles apenas confessam, em última análise, os problemas privados, individuais e bastante íntimos, certo?
Ehrenberg, sociólogo francês, afirmou que, em sua opinião, a revolução pós-moderna começou numa quarta-feira à noite, num outono da década de 1980, quando uma certa Vivienne, uma mulher comum, na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou nunca ter tido um orgasmo em seu casamento, porque seu marido Michel, sofre de ejaculação precoce. Começo da revolução, começo da revolução. Por que começo da revolução? Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar coisas que eram personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você for católico, ao padre no confessionário, ou aos seus amigos realmente muito chegados, ou realmente muito íntimos. Mas você não iria à praça pública anunciar para todos.
Então, a Ágora foi conquistada, não pelos regimes totalitários, mas exatamente pela privacidade, por coisas que anteriormente eram privadas, no confessionário, que é a personificação, a encarnação da intimidade e da privacidade. Você conversa diretamente com Deus. É um segredo absoluto. Ninguém pode saber o que você confessou no confessionário. Nós instalamos microfones nos confessionários.
O mundo pós-moderno – a condição do indivíduo
Um viciado do facebook, me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso.
Laços humanos
Então , provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo” não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes. Quando eu era jovem eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades. Esse tipo de cosia. Mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você.Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e outra é desconectar.
Eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar... É fácil conectar e fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos on line, conexões on line, compartilhamento on line, mas conexões off line. Conexões de verdade, frente à frente, corpo a corpo, olho a olho.
Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc. É difícil, mas na Internet é tão fácil.Você só pressiona [o botão] delete e pronto. Em vez de 500 amigos, você terá 499. Mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500.
E isso mina os laços humanos. Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição. Bênção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar, e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no facebook, então é uma bênção. (Continua no próximo post)
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
A virada para o século 20, como num filme. Alguma semelhança com o nosso século?
Comentário que escrevi sobre o livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz (orgs.). Editora: Cosac Naify, São Paulo, 2004
Marcello Riella Benites
No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.
Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.
Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...
O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.
O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.
Marcello Riella Benites
No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.
Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.
Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...
O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.
O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.
Estudos Culturais: a mídia ainda dá as cartas, mas nem tanto. É possível uma resistência negociada
Enquanto não há tempo de continuar a digitação do vídeo com a entrevista de Zygmunt Bauman, que começamos nas duas últimas postagens, prosseguimos com a publicação do nosso Quadro Geral das Teorias da Comunicação, que interrompemos em 2 de março, quatro posts atrás. Abraços!
13) ESTUDOS CULTURAIS BRITÁNICOS
- Os Estudos Culturais Britânicos, que aqui chamaremos EC, têm hoje como principal questão a CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES DOS GRUPOS CULTURAIS.
- O movimento começou, oficialmente, com a fundação do Contemporary Centre of Culture Studies (CCCS), em 1964, na Universidade de Birmingham, por Richard Hoggart, que realizava pesquisas sobre os hábitos culturais da classe operária inglesa do pós-guerra.
- Vale ressaltar que os EC extrapolam o campo da comunicação.
- A originalidade dos EC está na consideração da cultura popular em condições de igualdade com a arte, a música e a literatura, enfim, as culturas erudita e tradicional.
- Hoggart afirma que NA CULTURA POPULAR NÃO EXISTE APENAS SUBMISSÃO, MAS TAMBÉM RESISTÊNCIA.
- Em 1968, Stuart Hall substitui Hoggart no CCCS e incentiva “a investigação de práticas e de análises dos MCS identificando papel central dos meios na direção da sociedade”.
- Os EC RECEBEM INFLUÊNCIA MARXISTA, MAS CRITICAM O REDUCIONISMO E O ECONOMICISMO MARXISTAS QUE NÃO RECONHECEM CERTA “AUTONOMIA RELATIVA” DAS CULTURAS POPULARES.
- E a ligação dos EC com a comunicação está nessa perspectiva também de uma resistência e uma REELABORAÇÃO QUE A CULTURA POPULAR É CAPAZ DE FAZER EM RELAÇÃO ÀS MENSAGENS DA MÍDIA.
- Entram aí os conceitos de “CODIFICAÇÃO” E “DECODIFICAÇÃO” das mensagens dos MCS.
- Mais tarde os EC enveredam por pesquisas de recepção segmentada por gênero e etnias (estudos etnográficos), e de faixas etárias (crianças por exemplo) - inclusive na América Latina como veremos, a partir dos estudos de Jesus Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini, entre outros - , ou seja, investigações sobre como estes grupos interpretam as mensagens da mídia e como as pessoas aparecem nos MCS
- Essa possibilidade/capacidade que os EC têm de pesquisar o POTENCIAL DE RESISTÊNCIA DAS CULTURAS POPULARES dá a eles um diferencial nas pesquisas dos IMPACTOS DOS MCS SOBRE GRUPOS, MINORIAS, COMUNIDADES E OUTROS SEGMENTOS SOCIAIS cada vez mais numerosos em nossa SOCIEDADE FRAGMENTADA.
- Essa contribuição – que se ampliou com a difusão dos EC em diversos países – é importantíssima no sentido de investigar o papel dos MCS na constituição das identidades desses grupos.
A obra fundadora é The Uses of Literacy (1957), em que Richard Hoggart estuda a forma como operários ingleses interpretam jornais populares, enquanto “Codificação/Decodificação” (1973) é uma das obras mais influentes, na qual Stuart Hall analisa três níveis de recepção em que as pessoas decodificam as mensagens midiáticas: código hegemônico, código de oposição e código negociado. Com alguma simplificação, poderíamos dizer que no primeiro código há uma aceitação acrítica da mensagem de dominação; no segundo, uma oposição radical a essa mensagem, resultando sempre em conflito e ruptura; e no terceiro, como o nome diz, ocorre uma negociação que inclui certa tolerância crítica às mensagens de dominação, mas também uma resistência estratégica a longo prazo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Zygmunt Bauman: a descrença no Estado-nação e a autonomia do indivíduo na pós-modernidade
O sociólogo polonês faz ainda uma suposição do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos
Então, vamos à transcrição da segunda parte – penso em fazer o total em quatro posts - da entrevista de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Peço desculpas, pois, no título da primeira parte eu mencionava que ele comentava o facebook; mas não falou naquela parte e nem falará nesta. Porém, vale a pena esperar, porque é realmente interessante. Nesta parte ele analisa o fracasso do Estado-nação, prevê uma democracia global e comenta a mundança da situação de autonomia do indivíduo na pós-modernidade. Ah! E faz ainda uma suposição interessantíssima e bem-humorada do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos...
E, novamente, se alguém quiser ver o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A.
O futuro da democracia
Eu sou um humilde sociólogo e não tenho habilidades proféticas aqui. Eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia em meus 61 anos fazendo sociologia. Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver. Eu posso só lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia. Um se refere a quais são as dimensões do divórcio entre poder e política. Porque se esse for o caso, então, o Estado, a única instituição política que temos - nós não temos uma instituição política global. O Estado não tem poder suficiente para realizar todas as promessas que os estados 50 anos atrás fizeram aos cidadãos.
E essa foi a era de ouro da democracia. Nos 30 anos do pós-guerra ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal. Agora a democracia está em decadência. Cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa. E têm dúvidas a respeito da qualidade da democracia. Por quê? Simplesmente porque o Estado, relativamente sem poder, consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos. O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isto é, o que a maioria dos Estados está fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar.
Quem sabe, talvez, talvez - aqui já estou envolvido em profecia - nós inventemos uma democracia global em algum momento. E essa seria uma solução radical, principalmente, porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo? Então teremos que inventar... Eu não, eu estou muito velho, mas você [apontando para o entrevistador] terão que inventar um equivalente global das invenções dos nossos antepassados. Eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional, parlamentos, parlamentos modernos. Eles inventaram a jurisdição, e não leis locais, habituais, tradicionais, o direito consuetudinário, mas um código de direito unificado para todo o país. Eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.
Se Aristóteles fosse convidado a ir a um prédio de qualquer parlamento contemporâneo... Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito da democracia, a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem, depois votam, chegam a algum acordo. Ele gostaria. Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia. Ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era apenas as pessoas indo ao mercado, brigando entre si e chegando a uma resolução. O que significa que a democracia é uma noção que adquire, com o tempo, na história, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.
Então, uma coisa que eu posso ter certeza é de que, se vocês realmente inventarem equivalentes globais para a democracia do Estado-nação, então, será uma democracia, certo, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos, [serão] maiores. Não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos de democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.
O problema da autonomia indivudual
[E, então*]Castoriadis** prossegue e diz que o indivíduo autônomo e a comunidade autônoma – politike – só podem existir juntos. Um precisa do outro. Você não pode ser um indivíduo numa sociedade tirana. Numa sociedade totalitária nós realmente não somos indivíduos. Deve haver uma cooperação mútua entre as duas economias. [Isso que ele disse] Foi muito bonito. Mas o perigo veio de um lado inesperado. Quando Custoriadis escreveu suas palavras, ele as escreveu contra o totalitarismo da época. Bem, de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado [...], mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera pública.
George Orwell, de forma memorável, colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”. Muito bem. Isso era um perigo, sem dúvida alguma. Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo. Nós realmente não temos mais medo, como acontecia na minha juventude de a individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima, como a polícia secreta etc. Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados se formos comparar. Entretanto, o perigo para essa autonomia veio do outro lado. (continua no próximo post)
*No vídeo se ouve “And then, Castoriadis...”, mas na legenda não aparece esse “And then - E então”, deixando perceber que houve um corte.
**Cornelius Castoriadis, em grego Κορνήλιος Καστοριάδης (1922 -1997), filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega, defensor do conceito de autonomia política (ndr/wikepedia)
Então, vamos à transcrição da segunda parte – penso em fazer o total em quatro posts - da entrevista de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Peço desculpas, pois, no título da primeira parte eu mencionava que ele comentava o facebook; mas não falou naquela parte e nem falará nesta. Porém, vale a pena esperar, porque é realmente interessante. Nesta parte ele analisa o fracasso do Estado-nação, prevê uma democracia global e comenta a mundança da situação de autonomia do indivíduo na pós-modernidade. Ah! E faz ainda uma suposição interessantíssima e bem-humorada do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos...
E, novamente, se alguém quiser ver o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A.
O futuro da democracia
Eu sou um humilde sociólogo e não tenho habilidades proféticas aqui. Eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia em meus 61 anos fazendo sociologia. Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver. Eu posso só lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia. Um se refere a quais são as dimensões do divórcio entre poder e política. Porque se esse for o caso, então, o Estado, a única instituição política que temos - nós não temos uma instituição política global. O Estado não tem poder suficiente para realizar todas as promessas que os estados 50 anos atrás fizeram aos cidadãos.
E essa foi a era de ouro da democracia. Nos 30 anos do pós-guerra ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal. Agora a democracia está em decadência. Cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa. E têm dúvidas a respeito da qualidade da democracia. Por quê? Simplesmente porque o Estado, relativamente sem poder, consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos. O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isto é, o que a maioria dos Estados está fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar.
Quem sabe, talvez, talvez - aqui já estou envolvido em profecia - nós inventemos uma democracia global em algum momento. E essa seria uma solução radical, principalmente, porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo? Então teremos que inventar... Eu não, eu estou muito velho, mas você [apontando para o entrevistador] terão que inventar um equivalente global das invenções dos nossos antepassados. Eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional, parlamentos, parlamentos modernos. Eles inventaram a jurisdição, e não leis locais, habituais, tradicionais, o direito consuetudinário, mas um código de direito unificado para todo o país. Eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.
Se Aristóteles fosse convidado a ir a um prédio de qualquer parlamento contemporâneo... Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito da democracia, a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem, depois votam, chegam a algum acordo. Ele gostaria. Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia. Ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era apenas as pessoas indo ao mercado, brigando entre si e chegando a uma resolução. O que significa que a democracia é uma noção que adquire, com o tempo, na história, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.
Então, uma coisa que eu posso ter certeza é de que, se vocês realmente inventarem equivalentes globais para a democracia do Estado-nação, então, será uma democracia, certo, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos, [serão] maiores. Não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos de democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.
O problema da autonomia indivudual
[E, então*]Castoriadis** prossegue e diz que o indivíduo autônomo e a comunidade autônoma – politike – só podem existir juntos. Um precisa do outro. Você não pode ser um indivíduo numa sociedade tirana. Numa sociedade totalitária nós realmente não somos indivíduos. Deve haver uma cooperação mútua entre as duas economias. [Isso que ele disse] Foi muito bonito. Mas o perigo veio de um lado inesperado. Quando Custoriadis escreveu suas palavras, ele as escreveu contra o totalitarismo da época. Bem, de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado [...], mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera pública.
George Orwell, de forma memorável, colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”. Muito bem. Isso era um perigo, sem dúvida alguma. Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo. Nós realmente não temos mais medo, como acontecia na minha juventude de a individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima, como a polícia secreta etc. Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados se formos comparar. Entretanto, o perigo para essa autonomia veio do outro lado. (continua no próximo post)
*No vídeo se ouve “And then, Castoriadis...”, mas na legenda não aparece esse “And then - E então”, deixando perceber que houve um corte.
**Cornelius Castoriadis, em grego Κορνήλιος Καστοριάδης (1922 -1997), filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega, defensor do conceito de autonomia política (ndr/wikepedia)
sábado, 17 de setembro de 2011
Zygmunt Bauman, a pós-modernidade, redes, facebook...
Como anunciei no twitter e no facebook, aqui está a primeira parte da transcrição que fiz - pouco mais de cinco minutos - da fala do sociólogo polonês Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento, patrocinado por diversas empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e realizado na casa dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano. Talvez até já houvesse transcrições desse vídeo na Internet.
Mas quis transcrever para garantir a fidelidade e também para meditar – penso que não é para menos – as palavras de Bauman. Ressalto que se trata da transcrição das legendas.
Para quem preferir ver o vídeo, que tem 30 minutos, eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A
Fronteiras do Pensamento - Diálogos com Zygmunt Bauman
O mundo pós moderno - a condição social
O que aconteceu no século XX foi a passagem de toda uma era na história mundial, de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores. E por outro lado um processo de fragmentação da vida humana. Quando eu era jovem, isto é “séculos” atrás, nós éramos impressionados com Jean-Paul Sartre que nos disse que precisamos criar o projet de la vie, projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida. Temos que seguir passa a passo, de forma consistente, ano após ano, chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você. Nós temos grande dificuldade de adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de uma vida inteira é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios.
Não era assim no início do século XX. As sociedades foram individualizadas. Ao invés de pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, temos que redefinir o significado da vida, o propósito da vida, [ redefinir o que venha a ser]a felicidade na vida [...]. As questões de identidade têm um papel tremendamente importante hoje no mundo. Você tem que criar sua própria identidade. Você não a herda. Não apenas você precisa fazer isso a partir do zero, mas você tem que passar sua vida toda de fato redefinindo sua identidade. Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom pra você, e ruim pra você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam muitas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar coisas que saíram da moda, a este respeito, que mudaram nos 86 anos da minha vida, provavelmente, eu levaria horas aqui, apenas para listar todas elas. Então, tudo isso mudou. Foram muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia mas muitas outras coisas. E receio que não possamos realmente dizer qual dessas mudanças é mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos. Não consigo dizer se foi o início de uma nova forma de vida, ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tipo de ordem social. Quando você está num processo de transição fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável, um [novo] acordo de convivência humana, mais isso vem cedo ou tarde. E até mesmo essa pergunta não dá pra responder.
Um mundo interdependente
Eu acredito que com algum grau de responsabilidade posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis; apenas duas coisas, posso dizer que são realmente irreversíveis. Uma coisa é que multiplicamos - nós, a humanidade no planeta - as conexões, as relações, a interdependência, as comunicações espalhadas em todo o mundo. Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros. O que acontece na Malásia, quer você saiba ou não, sinta ou não, tem uma tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo. E vice-versa. Estamos no mesmo barco. Essa é a primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país em certo sentido.
A segunda questão é que, aproximadamente, após 300 anos de história moderna nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que aconteceria no mundo. Agora isso acabou porque no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos, o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, a capacidade de alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta... O resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia foi que chegamos muito perto do que agora entendemos ser os limites de suportabilidade do planeta. (continua no próximo post)
Mas quis transcrever para garantir a fidelidade e também para meditar – penso que não é para menos – as palavras de Bauman. Ressalto que se trata da transcrição das legendas.
Para quem preferir ver o vídeo, que tem 30 minutos, eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A
Fronteiras do Pensamento - Diálogos com Zygmunt Bauman
O mundo pós moderno - a condição social
O que aconteceu no século XX foi a passagem de toda uma era na história mundial, de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores. E por outro lado um processo de fragmentação da vida humana. Quando eu era jovem, isto é “séculos” atrás, nós éramos impressionados com Jean-Paul Sartre que nos disse que precisamos criar o projet de la vie, projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida. Temos que seguir passa a passo, de forma consistente, ano após ano, chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você. Nós temos grande dificuldade de adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de uma vida inteira é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios.
Não era assim no início do século XX. As sociedades foram individualizadas. Ao invés de pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, temos que redefinir o significado da vida, o propósito da vida, [ redefinir o que venha a ser]a felicidade na vida [...]. As questões de identidade têm um papel tremendamente importante hoje no mundo. Você tem que criar sua própria identidade. Você não a herda. Não apenas você precisa fazer isso a partir do zero, mas você tem que passar sua vida toda de fato redefinindo sua identidade. Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom pra você, e ruim pra você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam muitas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar coisas que saíram da moda, a este respeito, que mudaram nos 86 anos da minha vida, provavelmente, eu levaria horas aqui, apenas para listar todas elas. Então, tudo isso mudou. Foram muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia mas muitas outras coisas. E receio que não possamos realmente dizer qual dessas mudanças é mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos. Não consigo dizer se foi o início de uma nova forma de vida, ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tipo de ordem social. Quando você está num processo de transição fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável, um [novo] acordo de convivência humana, mais isso vem cedo ou tarde. E até mesmo essa pergunta não dá pra responder.
Um mundo interdependente
Eu acredito que com algum grau de responsabilidade posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis; apenas duas coisas, posso dizer que são realmente irreversíveis. Uma coisa é que multiplicamos - nós, a humanidade no planeta - as conexões, as relações, a interdependência, as comunicações espalhadas em todo o mundo. Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros. O que acontece na Malásia, quer você saiba ou não, sinta ou não, tem uma tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo. E vice-versa. Estamos no mesmo barco. Essa é a primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país em certo sentido.
A segunda questão é que, aproximadamente, após 300 anos de história moderna nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que aconteceria no mundo. Agora isso acabou porque no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos, o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, a capacidade de alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta... O resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia foi que chegamos muito perto do que agora entendemos ser os limites de suportabilidade do planeta. (continua no próximo post)
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