Marcello Riella Benites
No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.
Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.
Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...
O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.
O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.
Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.
Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...
O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.
O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.
O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.

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