segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Peço desculpas por atrapalhar o sossego de sua viagem, mas venho aqui trazer...


Estratégias discursivas de pedintes e vendedores em ônibus


O discurso que analiso abaixo não se enquadra entre os discursos dominantes de nossa sociedade,  ao contrário. 

Porém, apresenta estratégias tão habilidosas quanto aqueles - e até mais, visto que é despojado de poder e, portanto, precisa de estratégias mais elaboradas  - demonstrando que há negociação, que há resistência e que há uma microfísica do poder, onde comparecem pequenos poderes, também eles, com seu grau de influência - uma interpretação possível do que nos ensinou Michel Foucault. Em resumo, não está "tudo dominado".
(Por falta de tempo, diferentemente, do post anterior, não fiz uma adaptação e mantive os termos acadêmicos)
Abraços!
                                

O gênero discursivo dos pedintes e vendedores em ônibus urbanos:cointencionalidade, ethos, posicionamento



Transcrito a partir da intervenção de uma pedinte* em um ônibus, o texto que analisarei neste exercício** é um gênero com formato recorrente em transportes coletivos nos centros urbanos do Estado do Rio de Janeiro, passível de ser estudado pela Análise do Discurso (AD). Ambulantes ou pedintes apresentam discursos com restrições no contrato de comunicação (CHARAUDEAU) marcadas pelo curto tempo de que dispõem para serem enunciados e obterem adesão (doações ou compra de seus produtos), pois devem logo descer do veículo para tomar outro e prosseguir sua estratégia de sobrevivência. São raras as exceções em que vendedores habilidosos se apresentam como quem oferece uma relação materialmente vantajosa para o Receptor. Em geral, esses discursos apresentam um ethos (MAINGUENEAU) de convencimento muito peculiar.
A adesão é convocada pela sensibilidade do auditório às necessidades do Eu Enunciador (EUe), de acordo com a teoria semiolinguística de Patrick Charaudeau (2008).  Evidenciamos que configura-se assim, o EUe, não uma pessoa de carne e osso, “ser social” (Locutor/EUc/sujeito comunicante), mas um “ser da fala”(Eu Enunciador), já (re)conhecido e constituído pelos parceiros no “espaço interno” da situação de comunicação, onde opera o “mundo discursivo”. E as necessidades do Eu Enunciador, nesses casos, são sempre situações de deficiência física, falta de saúde em geral e/ou grave pobreza.
Trata-se, esse ethos peculiar, da revelação de um marcante assujeitamento ideológico (ALTHUSSER). Para angariar adesão, o Locutor se coloca numa condição de inferioridade manejando um discurso sobre o qual não tem o menor controle ou consciência. Vem em evidência também a noção de posicionamento (MAINGUENEAU), na qual o locutor instaura “uma identidade enunciativa de fraca consistência doutrinal”, configurando um posicionamento de alguém inferior e até incômodo (“Desculpem-me por atrapalhar a viagem de vocês”).

Ethos e assujeitamento ideológico acionando uma cointencionalidade “solidária”
Outro indício que reforça esses mesmos padrões de ethos, assujeitamento ideológico e posicionamento é, no caso específico em questão, o fato de a mulher não estabelecer um preço para o produto (“estou aqui vendendo esses pirulitos por qualquer valor”). De fato, não é que o pirulito vale pouco. Ele não vale nada, a ponto de o agradecimento, única retribuição que o Locutor deveria a quem dá algo pelo doce, é antecipadamente dirigido no final da enunciação a todos os que contribuírem e aos que não contribuírem (“agradeço da mesma forma”). Podemos inferir que a pedinte não precisaria prestar conta dos produtos porque provavelmente os recebeu de graça, possivelmente, de um doador sensível ao mesmo ethos já explicitado, por ocasião de outra situação de comunicação, anterior - suposta por nós.
Nesse ponto apresenta-se uma cointencionalidade “solidária” que é superior a qualquer troca comercial convencionalmente instituída. Um Tu Destinatário (TUd) também um “ser da fala” disperso na sociedade, se encarnaria tanto no doador dos pirulitos, suposto por nós, quanto no auditório composto pelos passageiros do ônibus. Essa cointencionalidade está inscrita na relação desses “seres sociais” (na posição de Receptor/sujeito interpretante/TUi) -  que em momentos diferentes assumem o papel do Tu Destinatário (TUd/ “ser da fala”)  –  com a nossa pedinte (no papel de sujeito comunicante/Locutor/EUc). São convergentes as intencionalidades do Locutor e do Receptor: a transferência de valor (dinheiro) que perpetua uma sobrevivência com baixa qualidade de vida e contribui para estabilizar um cenário social de desigualdade.
Uma relação que certamente, não se esgota nessa análise, que passa também por sentimentos como fraternidade e o desejo difuso na sociedade de fazer o que se pode para minimizar o sofrimento dos necessitados, elementos, porém, fora ainda do alcance das ferramentas da AD.
Frases recorrentes de um gênero discursivo
Gostaríamos agora de citar algumas frases recorrentes nesse que poderíamos chamar de “gênero discursivo dos vendedores e pedintes em ônibus nos grandes centros urbanos” - mesmo se nem todas estão presentes no texto em questão - e que apresentam grande riqueza em fatores sociopsicosociolinguageiros, revelando tanto a presença de um sujeito falante (individual), quanto um sujeito coletivo (social) e uma subjetividade marcada pela intersubjetividade (BENVENISTE); além das intencionalidades (CHARADEAU) recorrentes típicas desse gênero.
“Eu podia estar roubando, podia estar matando, mas estou aqui vendendo este produto/pedindo uma contribuição”
“Este produto que na loja custa 3 reais [valor a título de exemplo], na minha mão os senhores levam por apenas 1 real [valor emblemático ao qual são reduzidos os preços de grande parte dos produtos vendidos em ônibus, em geral, doces]”
“Este produto será o passatempo de sua viagem, a alegria de suas crianças” [formação discursiva “familiar” (FOUCALUT)
“Desculpem atrapalhar o sossego de sua viagem...”
“Àqueles que puderem ajudar eu agradeço, àqueles que não puderem, eu agradeço da mesma forma”.
O texto, frase a frase
Vamos agora ao texto transcrito de nossa Locutora a partir do momento em que ela “toma a palavra”***, reivindicando para si o direito a falar e de obter a atenção do auditório. Entre parênteses, as observações do ponto de vista da AD.
De início observamos que se trata de um registro formal - que não faz parte do hábito de fala da Locutora em seu cotidiano - aprendido, exercitado, e enunciado sem espontaneidade mas com eficácia.
Senhoras e senhores passageiros,
[O momento da “tomada da palavra” vem marcado por uma formação discursiva ligada às atividades dos meios de transporte de pessoas, que se adequa às restrições do contrato de comunicação – e atenua possíveis resistências e rejeições – conferindo à enunciação uma informalidade que convoca consideração maior do que se o registro fosse de uma fala informal]
Desculpem incomodar a viagem de vocês
[assujeitamento ideológico (ALTHUSSER) em posição de inferioridade,  e assumindo, inclusive certa consciência de uma suposta incoveniência com relação ao auditório, também com função de prevenir rejeições, como se dissesse: “eu sei que estou incomodando mas tenham compaixão”]
Mas é que me encontro desempregada e preciso sustentar três crianças
[enunciado representa uma formação discursiva “familiar”, do ponto de vista dos necessitados da sociedade]
É muito triste para uma mãe levantar pela manhã e não ter o leite para dar às crianças
[A menção ao leite – ela poderia ter mencionado o pão, que também integra a refeição matinal  – vincula ainda mais o enunciado a uma formação discursiva “materna”; a afirmação “É muito triste...” enfatiza o ethos e a intencionalidade da argumentação, de grande eficácia para angariar a adesão da audiência]
Por isso estou aqui vendendo esses pirulitos por qualquer valor que vocês possam colaborar
[Ressaltamos a contradição - já apontada no corpo da análise - da quebra das convenções de uma troca comercial comum, pois não importa o valor e, sim, que os ouvintes “possam colaborar”; não fixar um valor é mais um elemento desse ethos, uma estratégia que amplia a adesão]


Àqueles de vocês que puderem ajudar eu agradeço de coração, àqueles que não puderem, eu agradeço da mesma forma
[Mais uma vez, a enunciação esconde um ethos de despojamento. O “dizer” (DUCROT) não dito comparece por meio do “dito”, supostamente: “Não importa nem mesmo se vocês não me ajudarem, importa que tenham compaixão de minha situação, e aqui estamos unidos na condição da fraternidade humana”. Configura-se, de fato, um enunciado que confirma e antecipa o registro da formação discursiva “cristã” ratificado no fechamento da enunciação, a seguir...
Que Deus abençoe a todos e lhes dê uma boa viagem!
[Nossa pedinte (EUc), ao término de sua fala, percorre o veículo a partir do ponto onde estava, na parte da frente do mesmo, recolhendo as contribuições em dinheiro ou os doces (de quem não contribuiu) que já havia distribuído silenciosamente (ao entrar no ônibus, antes de tomar a palavra); a menção a Deus ancora todo o discurso no absoluto e garante a felicidade (“Que Deus abençôe a todos”) e se fecha retomando a formação discursiva dos profissionais dos meios de transporte, tão adequada àquela situação de comunicação]
NOTAS
*Entre outros autores, evidenciaremos, especialmente, os conceitos da teoria semioliguística de Patrick Charaudeau (2008), para exercitar o uso de seus conceitos, correndo o risco de produzir um texto sem tanta fluência, mas válido para treinamento no uso de noções aprendidas recentemente – e possibilidade de sugestões por parte do professor. Citaremos Chauradeau a partir da dissertação de mestrado de Graciele Resende (UFMG, 2006), que aborda um tema não relacionado com o desta análise, mas apresenta uma boa síntese introdutória da teoria semiolinguística.

**Transcrito a partir da enunciação - anotada em tópicos e reconstituída à memória - de uma mulher que tomou, na rodoviária de Macaé,  o ônibus da Viação 1001 com destino a Unamar (Cabo Frio), na tarde do dia 2 de julho de 2012. Com cerca de 25 anos e vestindo roupas sujas, ela era negra e tinha uma miscigenação que lhe dava tonalidade preta aos cabelos ondulados.
*** Vale lembrar que a importância do ato de tomada da palavra, evidenciado por Charaudeau, é valorizado também por AMOSSY (“Todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si").

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMOSSY, Ruth. Imagens de Si no Discurso: a Construção do Ethos. São Paulo: Contexto, 2008.
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Lisboa, Presença/Martins Fontes, 1974.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral. Campinas: Pontes, 1995.
CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e Discurso: Modos de Organização. São Paulo: Contexto, 2008.
DUCROT, Oswald. O Dizer e o Dito. Campinas: Pontes, 1987
FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Petrópolis: Vozes, 1971.
MAINGUENEAU, Dominique; CHARAUDEAU. Patrick. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
RESENDE, Graciele. Estratégias discursivas em publicidades brasileiras de cerveja. 2006. Dissertação (mestrado em Estudos Linguísticos) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em http://pt.scribd.com/doc/55937310/2/A-TEORIA-SEMIOLINGUISTICA .

sábado, 16 de junho de 2012

Fátima: o apocalipse segundo Renato Russo


Um registro da habilidade com que o compositor da Legião Urbana manejava o discurso religioso com estratégias de ratificação e desconstrução
                                                
A cultura cristã atravessa os discursos dos setores mais influentes e também dos segmentos mais oprimidos da sociedade ocidental, constituindo-se numa marca quase onipresente. Mais particularmente, a cultura cristã católica, no Brasil, ganha contornos peculiares com apelo de todo um campo discursivo ligado a Maria, mãe de Jesus Cristo. As aparições de Nossa Senhora gozam de plena credibilidade diante da maior parte dos brasileiros, inclusive, muitos não católicos. A ela são atribuídas profecias, segredos de videntes, revelados somente aos papas, e a esperança das “causas perdidas”.

O compositor Renato Russo (1960-1996) é conhecido por suas releituras do universo religioso, o que demonstra que mesmo em sua eclética e sofisticada formação não falta esse popular ingrediente discursivo. Ratificando e ao mesmo tempo desconstruindo, ele aborda tais temas com familiaridade reveladora de muito do que se diz – e principalmente do que se oculta - por meio dos discursos que se apropriam da religião.

Num exercício de Análise de Discurso (A.D.)* apontaremos, entre colchetes e em negrito, junto aos próprios versos de uma das suas composições, intitulada Fátima (1986), as referências nas quais emergem indícios de como nela se constitui o sentido. Tentaremos demonstrar como essa composição atribui significados múltiplos a uma relação presente, conscientemente ou subliminarmente, em cada brasileiro – essa relação está presente mesmo naquele que a nega/desconsidera pelo simples fato de considerá-la objeto de negação/desconsideração.

Apresentamos antes a composição sem as nossas observações a fim de dar ao leitor a possibilidade de fazer a própria interpretação, para depois passarmos à análise do texto.

Fátima

Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que  o tempo agora está contra vocês
Você se perdem no meio de tanto medo
De não conseguir dinheiro
Pra comprar sem se vender

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo
Que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
E se começa um dia acaba
Eu tenho pena de vocês

E as ameaças de ataque nuclear?
Bombas de nêutrons
Não foi Deus quem fez
Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes pensam que são reis

Não quero ser
Como vocês
Eu não preciso mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz

Três crianças sem dinheiro e sem moral
Não ouviram a voz suave
Que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Ela talvez tivesse nome e era Fátima

E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou
E no terceiro dia
Ninguém ressuscitou

Vídeo da versão interpretada pela banda Capital Inicial:
http://www.youtube.com/watch?v=KrSvMkblbqw&feature=related

Versão interpretada por Renato Russo, na época em ele liderava o grupo Aborto Elétrico:
http://www.youtube.com/watch?v=TJOqVO6zOhE

Análise da canção

Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Você se perdem no meio de tanto medo

[O locutor assume posição profética, apocalíptica e de distanciamento, como quem exorta um interlocutor de quem está isolado e com quem não compartilha os destinos/desventuras. O verso “O tempo agora está contra vocês” indica o ciclo típico dos discursos apocalípticos: denúncia da corrupção humana – ira divina – redenção – volta à situação de corrupção]

De não conseguir dinheiro
Pra comprar sem se vender 

[A cultura católica se manifesta atribuindo valor negativo ao dinheiro, ligando-o à corrupção. Vale aqui a menção ao fato de que a condenação do dinheiro não é tão presente na cultura cristã de origem protestante, conforme assinala Max Weber na conhecida obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo**]

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo
Que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
E se começa um dia acaba 

[O discurso criacionista alega a origem divina do mundo e denuncia a soberba do homem – “fingindo que o mundo ninguém fez” - , prevendo o fim da humanidade devido à maldade humana. Isso nós percebemos claramente a  partir do que se diz por meio do “não dito” - na música não é citado personagem ou trecho bíblico - uma marca oculta que as ferramentas da Análise do Discurso ajudam a desvendar]

Eu tenho pena de vocês 

[O elemento discursivo da misericórdia divina comparece, ainda que em forma de ironia, mas indicando a possível redenção]

E as ameaças de ataque nuclear?
Bombas de nêutrons
Não foi Deus quem fez 

[Aqui o locutor convoca as formações discursivas (cultural) tecnológica (bomba de nêutrons) e militar (ataque nuclear), também bastante influentes nas sociedades ocidentais, com uma associação ao fim do mundo, que já foi o maior temor da humanidade e que não estava longe das pautas da opinião pública na década de 1980, quando a canção foi composta].

Alguém, alguém um dia vai se vingar 

[O “fogo” e o calor de explosões radioativas poderiam ser um fim do mundo bem de acordo com o Gênesis. Há interpretações de que, no Capítulo 9, Deus prometera, após o Dilúvio, não destruir mais o mundo por meio da água].

Vocês são vermes pensam que são reis
Não quero ser
Como vocês
Eu não preciso mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz

[No trecho que segue abaixo, o locutor abandona a posição discursiva inicial, afirmativa da formação cristã de viés apocalíptico. Introduz um novo sujeito enunciador que, por sua vez, adota uma estratégia de desconstrução desse mesmo discurso. Com a entrada do novo sujeito, o texto termina na impossibilidade de se completar o ciclo típico dos relatos apocalípticos a que nos referimos anteriormente, já que o desfecho elimina o estágio da redenção (“Ninguém ressuscitou”). Vale ressaltar a presença do intertexto*** – já anunciado no título da canção - relativo às aparições da mãe de Jesus Cristo relatadas por três crianças, em 1917, na cidade portuguesa de Fátima.]

Três crianças sem dinheiro e sem moral
Não ouviram a voz suave
Que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Ela talvez tivesse nome e era Fátima
E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou
E no terceiro dia
Ninguém ressuscitou

NOTAS

*Análise do Discurso (A.D.), vertente da Linguística, surgida por volta dos anos 1960 – mas com precursores antecedentes – que investiga não o conteúdo dos discursos presentes na sociedade mas as condições de produção desses mesmos discursos, em sua inscrições sócio-históricas, com base na linguística estruturalista, na psicanálise e no marxismo.

**A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo “vincula o nascimento do capitalismo à doutrina calvinista da predestinação e à consequente interpretação do êxito material como garantia da graça divina”. (4ª capa da obra na edição da Martin Claret, 2001)

*** Intertexto é como a Análise do Discurso nomeia a presença de outros “textos” num mesmo texto, de outros discursos num mesmo discurso. Para a A.D., nunca falamos sozinhos. Sempre há outros discursos em nosso discurso. Segundo Helena Nagamine Brandão, em “Introdução à Análise do Discurso" (Editora da Unicamp, 2004), “intertexto de um discurso compreende o conjunto de fragmentos que ele [esse discurso] cita efetivamente”.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Análise do Discurso: uma relação menos ingênua com a linguagem


Delega-se o poder de interpretar o mundo a especialistas, como o juiz, o professor o padre...


Olá! Volto a postar depois de mais de sete meses. Agora, para dividir com vocês o meu entusiasmo com as aulas de Análise do Discurso, disciplina que estou cursando na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em  Campos-RJ.  Farei, talvez, outros posts sobre a também chamada AD. 


Para começar, alguns trechos de Eni Orlandi - professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp, e respeitada autora na AD. Os trechos são do livro Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos (Pontes Editores).


Segundo Eni, não são todos que podem “interpretar [o mundo] de acordo com a sua vontade, há especialistas, há um corpo social a quem se delegam poderes de interpretar (logo de ‘atribuir sentidos’), tais como o juiz, o professor, o advogado, o padre, etc. Os sentidos estão sempre ‘administrados’, não estão soltos”.
(...)


“Cabe então perguntarmos como nos relacionamos com a linguagem em nosso cotidiano, enquanto sujeitos falantes que somos (pai, mãe, amigo, colega, cidadãos, etc), enquanto profissionais, professores, enquanto autores e leitores”.


No prefácio de seu livro, Eni afirma que a Análise do Discurso “nos coloca em estado de reflexão e, sem cairmos na ilusão de sermos conscientes de tudo, permite-nos ao menos sermos capazes de uma relação menos ingênua com a linguagem”, essa mesma linguagem, acrescento eu, dos “sentidos administrados” e dos especialistas a quem se delegam os poderes de interpretar o mundo e atribuir sentido às coisas do mundo.




Até a próxima!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O dia em que eu (não) entrevistei Barbosa Lima Sobrinho

Um dia, fui entrevistar o Barbosa Lima Sobrinho, quando eu trabalhava na hoje extinta Bloch Editores. Eu fui até à sede da ABI e tinha dez minutos para entrevistá-lo. Era um tema ligado à cidadania. Ele era o jornalista que eu mais admirava. Eu ainda era meio foca e, empolgadíssimo, começei a falar de como eu o acompanhava por meio de seus artigos - na época ele fazia grande campanha contra o estabelecimento da reeleição para os cargos do Executivo. Então, de repente, quando eu ia começar a entrevista, chegaram as pessoas com quem ele iria se reunir e ele começou a cumprimentá-las. E eu pensei: "Caramba! Falei de mais e agora vou ficar sem a entrevista!". Só que aí o Barbosa Lima Sobrinho virou e me disse: "Meu filho você sabe tudo sobre mim. Pode ir para a redação escrever sua matéria e dizer que fui eu que falei". Apertou a minha mão e me mostrou o caminho da porta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Bauman lembra Sócrates ao falar de destino, caráter e felicidade

Após abordar temas como as relações entre o público e o privado, segurança e liberdade, modernidade e pós-modernidade, conexão e desconexão nas redes sociais, Zygmunt Bauman fala da gama de possibilidades que o destino nos abre (ou fecha), e que escolhemos de acordo com nosso caráter. Ele denuncia os “consultores” que oferecem receitas para a felicidade e menciona Sócrates, para quem a felicidade está em construir o próprio caminho. Esse post conclui a transcrição da entrevista com o autor de “Modernidade Líquida”, e que foi publicada no vídeo Fronteiras do Pensamento (http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A). O vídeo teve o patrocínio de empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e foi gravado na residência dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano.

Felicidade

Eu não acredito que haja apenas uma forma de ser feliz. Há muitas formas de ser feliz. Neste pequeno livro que escrevi sobre A arte da vida, há dois fatores relativamente independentes que dão forma à vida humana. Um deles é o destino. O destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influência; é o que acontece conosco, mas não foi causado por nós. Isso é o destino. E o outro é o caráter. O caráter é muito individual. Você pode trabalhar em cima do seu caráter, se quiser, você pode mudá-lo, melhorá-lo. Boa parte dele está sob seu controle. A divisão do trabalho entre o destino e o caráter é tal que o destino oferece a gama de opções que são realistas para você. Sobre isso você não tem nenhuma influência. Se você tivesse nascido 20 anos antes, sua gama de opções seria diferente; se você tivesse nascido 20 anos depois, novamente seria diferente; se você tivesse nascido nesse bairro rico, você teria uma gama de opções; se você tivesse nascido num gueto, seriam opções completamente diferentes. Mas sempre há gamas de opções, proporcionadas pelo destino. Porém, as escolhas entre essas opções são feitas pelo caráter. Mas como os tipos de caráter são muitos e bem diferentes, não é possível dar uma receita para a felicidade. Eu sei que hoje existem consultores ganhando muito dinheiro fingindo que possuem receitas para a felicidade. Não acreditem neles. Eles estariam enganando vocês. Eu jamais ousaria dar esse tipo de conselho.

A vida como criação

Não estou me comparando a Sócrates, mas muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates, sua personalidade, que ele construiu como relativamente a mais perfeita possível que se possa imaginar. Mas o que isso significa? Significa que o tipo de vida escolhida por Sócrates era considerada perfeita para Sócrates? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, pelo contrário. Porque Sócrates precisamente considerava o segredo de sua felicidade estava no fato de ele próprio, por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu. As pessoas que imitam a forma de vida de uma outra pessoa, o modelo de felicidade de outra pessoa, não são como Sócrates. Pelo contrário, elas traem a receita dele. Eles traem a sua receita. Precisamente, porque sua receita... bem, você pode traduzir isso em termos simples dizendo que para cada ser humano há um mundo perfeito, feito especialmente para ele ou para ela.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Bauman: quem garante segurança perde liberdade... E vice-versa

Nesta parte da entrevista, Zygmunt Bauman fala da ambivalência da vida e da civilização. Lamenta que muitos jovens não experimentem a beleza dos laços verdadeiramente humanos e fala do lado desafiador desses laços, o de comprometer-se para sempre. Depois, cita uma obra famosa de Sigmund Freud, o “Mal-estar na Civilização”, para abordar o tema da vida como uma constante escolha entre liberdade e segurança: quando você conquista certa liberdade perde um pouco de segurança, quando garante um pouco mais desta, perde parte daquela. A propósito, Bauman aprofunda essa questão em seu livro “O Mal-estar na Pós-modernidade”. Mas vamos ao post, que é o quarto e penúltimo, da transcrição da entrevista, cujo vídeo, como já dissemos, está em http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A

A ambivalência da vida
Eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo a consciência do que eles realmente perderam [acerca dos benefícios dos laços humanos], porque eles nunca vivenciaram esse tipo de experiência. Por outro lado há a maldição. Pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Isso significa que você empenha seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações. Então, esta é uma situação muito ambivalente, e consequentemente,  um fenômeno curioso, essa pessoa solitária numa multidão de solitários. Nós estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo

Há  valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompesadora e relativamente feliz. Um é segurança e outro é liberdade. Você não consegue ser feliz. Você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escuridão. Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Então você precisa dos dois. Entretanto, o problema é que ninguém ainda na história e no planeta encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco de sua liberdade. Não há outra maneira. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte de sua segurança. Então você ganha alguma coisa e você perde algo.
A ambivalência da civilização
Há 81 anos Sigmund Freud publicou esse livro famoso tremendamente profundo e influente, intitulado “O Mal-estar na Civilização”. Ele disse que a civilização é sempre uma troca. Ou seja, você dá algo de um valor para receber algo de outro valor. E ele disse... Ele escreveu isso nos anos 1920. Naquela época ele disse que o problema deles, da velha geração, foi que eles entregaram liberdade demais em prol da segurança. E estou profundamente convicto de que, se Freud estivesse dando essa entrevista aqui, no meu lugar, ele provavelmente repetiria que toda civilização é uma troca, mas o seu diagnóstico seria exatamente o oposto, que os nossos problemas hoje derivam do fato de que nós entregamos demais a nossa segurança em prol de mais liberdade

Esse é um dilema. Eu acho que já sinto alguns sinais prodrômicos*, de que o pêndulo está começando a voltar. Em direção a mais segurança. O estado social vem de novo em favor do público. As pessoas sonham com ele, elas querem poderes mais fortes e mais estabilidade, um pouco mais de estabilidade. Está muito no início. Não estou dizendo que já estamos no caminho certo. Mas há sinais de que isso está acontecendo. Então, minhas conclusões são duas: em primeiro lugar, você nunca encontrará um solução perfeita do dilema entre segurança e liberdade. Sempre haverá muito de uma e muito pouco de outra, certo? E a segunda é que você nunca irá parar de procurar essa mina de ouro. (continua no próximo post)

*relativo a pródromo, fenômeno clínico que revela o início de uma doença (Aurélio)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Zygmunt Bauman fala sobre o Facebook

Vamos para mais um post, o terceiro da transcrição da fala de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Já estou percebendo que a transcrição toda não vai sair em quatro postagens como previ, mas em cinco. Nesta, após constatar a invasão do ambiente público pela privacidade individual – citando o caso de uma mulher que anunciou para milhões de telespectadores que nunca teve um orgasmo -, o sociólogo define o que ele chama de “o tipo de amizade do facebook”, marcada por duas únicas atividades, “conectar e desconectar”.

Como sempre, ofereço a todos a possibilidade de ver o vídeo http://bit.ly/nIhMVj

Com vocês, então, Zygmunt Bauman:

Entretanto, o perigo para essa autonomia [do indivíduo] veio do outro lado, da esfera do privado e do [próprio] indivíduo. A maior aproximação contemporânea da Ágora, do lugar onde a democracia foi feita, refeita, continuada desenvolvida e protegida, a maior aproximação disso são os talk shows na televisão. É onde as massas assistem, participam, telefonam, enviam perguntas, mensagens etc... Algo semelhante ao que se fazia na antiga Ágora.

[Mas] ao olharmos para isso, vemos que eles não estão discutindo os nossos interesses compartilhados, não estão discutindo o bem-estar da sociedade. Eles não estão discutindo sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos nós sofremos na sociedade atual. Eles apenas confessam, em última análise, os problemas privados, individuais e bastante íntimos, certo?

Ehrenberg, sociólogo francês, afirmou que, em sua opinião, a revolução pós-moderna começou numa quarta-feira à noite, num outono da década de 1980, quando uma certa Vivienne, uma mulher comum, na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou nunca ter tido um orgasmo em seu casamento, porque seu marido Michel, sofre de ejaculação precoce. Começo da revolução, começo da revolução. Por que começo da revolução? Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar coisas que eram personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você for católico, ao padre no confessionário, ou aos seus amigos realmente muito chegados, ou realmente muito íntimos. Mas você não iria à praça pública anunciar para todos.

Então, a Ágora foi conquistada, não pelos regimes totalitários, mas exatamente pela privacidade, por coisas que anteriormente eram privadas, no confessionário, que é a personificação, a encarnação da intimidade e da privacidade. Você conversa diretamente com Deus. É um segredo absoluto. Ninguém pode saber o que você confessou no confessionário. Nós instalamos microfones nos confessionários.

O mundo pós-moderno – a condição do indivíduo

Um viciado do facebook, me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso.

Laços humanos

Então , provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo” não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes. Quando eu era jovem eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades. Esse tipo de cosia. Mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você.Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade,  a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e outra é desconectar.

Eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar... É fácil conectar e fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos on line, conexões on line, compartilhamento on line, mas conexões off line. Conexões de verdade, frente à frente, corpo a corpo, olho a olho.
Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc. É difícil, mas na Internet  é tão fácil.Você só pressiona [o botão] delete e pronto. Em vez de 500 amigos, você terá 499. Mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500.
E isso mina os laços humanos. Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição. Bênção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar, e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no facebook, então é uma bênção. (Continua no próximo post)