Após abordar temas como as relações entre o público e o privado, segurança e liberdade, modernidade e pós-modernidade, conexão e desconexão nas redes sociais, Zygmunt Bauman fala da gama de possibilidades que o destino nos abre (ou fecha), e que escolhemos de acordo com nosso caráter. Ele denuncia os “consultores” que oferecem receitas para a felicidade e menciona Sócrates, para quem a felicidade está em construir o próprio caminho. Esse post conclui a transcrição da entrevista com o autor de “Modernidade Líquida”, e que foi publicada no vídeo Fronteiras do Pensamento (http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A). O vídeo teve o patrocínio de empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e foi gravado na residência dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano.
Felicidade
Eu não acredito que haja apenas uma forma de ser feliz. Há muitas formas de ser feliz. Neste pequeno livro que escrevi sobre A arte da vida, há dois fatores relativamente independentes que dão forma à vida humana. Um deles é o destino. O destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influência; é o que acontece conosco, mas não foi causado por nós. Isso é o destino. E o outro é o caráter. O caráter é muito individual. Você pode trabalhar em cima do seu caráter, se quiser, você pode mudá-lo, melhorá-lo. Boa parte dele está sob seu controle. A divisão do trabalho entre o destino e o caráter é tal que o destino oferece a gama de opções que são realistas para você. Sobre isso você não tem nenhuma influência. Se você tivesse nascido 20 anos antes, sua gama de opções seria diferente; se você tivesse nascido 20 anos depois, novamente seria diferente; se você tivesse nascido nesse bairro rico, você teria uma gama de opções; se você tivesse nascido num gueto, seriam opções completamente diferentes. Mas sempre há gamas de opções, proporcionadas pelo destino. Porém, as escolhas entre essas opções são feitas pelo caráter. Mas como os tipos de caráter são muitos e bem diferentes, não é possível dar uma receita para a felicidade. Eu sei que hoje existem consultores ganhando muito dinheiro fingindo que possuem receitas para a felicidade. Não acreditem neles. Eles estariam enganando vocês. Eu jamais ousaria dar esse tipo de conselho.
A vida como criação
Não estou me comparando a Sócrates, mas muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates, sua personalidade, que ele construiu como relativamente a mais perfeita possível que se possa imaginar. Mas o que isso significa? Significa que o tipo de vida escolhida por Sócrates era considerada perfeita para Sócrates? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, pelo contrário. Porque Sócrates precisamente considerava o segredo de sua felicidade estava no fato de ele próprio, por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu. As pessoas que imitam a forma de vida de uma outra pessoa, o modelo de felicidade de outra pessoa, não são como Sócrates. Pelo contrário, elas traem a receita dele. Eles traem a sua receita. Precisamente, porque sua receita... bem, você pode traduzir isso em termos simples dizendo que para cada ser humano há um mundo perfeito, feito especialmente para ele ou para ela.
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