Delega-se o poder de interpretar o mundo a especialistas, como o juiz, o professor o padre...
Olá! Volto a postar depois de mais de sete meses. Agora, para dividir com vocês o meu entusiasmo com as aulas de Análise do Discurso, disciplina que estou cursando na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em Campos-RJ. Farei, talvez, outros posts sobre a também chamada AD.
Para começar, alguns trechos de Eni Orlandi - professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp, e respeitada autora na AD. Os trechos são do livro Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos (Pontes Editores).
Segundo Eni, não são todos que podem “interpretar [o mundo] de acordo com a sua vontade, há especialistas, há um corpo social a quem se delegam poderes de interpretar (logo de ‘atribuir sentidos’), tais como o juiz, o professor, o advogado, o padre, etc. Os sentidos estão sempre ‘administrados’, não estão soltos”.
(...)
“Cabe então perguntarmos como nos relacionamos com a linguagem em nosso cotidiano, enquanto sujeitos falantes que somos (pai, mãe, amigo, colega, cidadãos, etc), enquanto profissionais, professores, enquanto autores e leitores”.
No prefácio de seu livro, Eni afirma que a Análise do Discurso “nos coloca em estado de reflexão e, sem cairmos na ilusão de sermos conscientes de tudo, permite-nos ao menos sermos capazes de uma relação menos ingênua com a linguagem”, essa mesma linguagem, acrescento eu, dos “sentidos administrados” e dos especialistas a quem se delegam os poderes de interpretar o mundo e atribuir sentido às coisas do mundo.
Até a próxima!

Caro Marcello, gostei do seu post. O assunto AD é provocativo. Concordo que a interpretação ou o sentido que os especialistas nos passam podem não ser neutros, ou isentos de intenções de manutenção de relações de poder, ou pelo menos de manter o papel de "intérpretes fiéis ao conteúdo denotativo da linguagem". Uma leitura e reflexão mais atentas da mensagem podem revelar intenções subjacentes à ela (me lembro, por exemplo das propagandas).
ResponderExcluirLegal, Marcio!
ResponderExcluirDe fato, as propagandas são campo privilegiado para a Análise do Discurso, presentes ali, concomitantemente os mais diversos discursos, em relações de aliança, contradição, dominação e negociação. O publicitário, e ainda o economista e, hoje, com as mídias socias, o especialista em tecnologias, se colocam ao lado dos "intérpretes" a quem delegamos o poder de "atribuir sentido" às realidades que vivemos. O que acha?
Não só mas, muito mais! O político, os agentes da mídia (ver JN), os comediantes, os prof. de Universidades ou Institutos que vivem da TV interpretando economia, ecologia,etc...
ResponderExcluirE os comentaristas de futebol? Galvão, Neto e outros... e os analistas de mercado? são tantos... e os articulistas?... enfim não terminaríamos de enumerar. Obviamente muitos procuram uma postura ética, mas dificilmente são independentes. Mas há também os magistrados, padres, teólogos, os que militam no mundo da moda, da arte e vai por aí afora.
É um assunto muito extenso. Mas atenção: expor o subjacente do dito ou o não dito nos coloca numa posição desconfortável, pois estaremos manifestando opiniões diferentes da "doxa", o que provoca atritos; as pessoas podem nos ver como: "querendo aparecer", do contra, arrogante e outros adjetivos.
Sim, sinto que estamos falando a mesma linguagem quando você fala de "expor o subjacente do dito ou o não dito". Também podemos falar do "pré-construído", o interdiscurso que já havia quando entramos em cena. Essa presença dos intérpretes que, ampliando, são os formadores de opinião; e aí, nesse caso, entramos até nós mesmos na medida em que uma parcela de nós ou de nossas funções sustenta o status quo... Essa presença e influência dos intérpretes afasta a possibilidade daquilo que C. Wright Mills chama de comunidade de públicos (nas quais as decisões evoluem de discussões a partir da base até os níveis de tomada de decisões), conceito oposto ao de sociedade de massas. Certamente, expor, colocar a nu esses mecanismos pode ser uma função da Análise do Discurso, função incômoda, certamente.
ResponderExcluirLegal Marcello, bacana o que você escreveu sobre formadores de opinião. Entretanto penso que está faltando um componente; normalmente por trás de um discurso, que procura manter opinião, está uma ideologia que um grupo pretende manter dominante.
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