segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Peço desculpas por atrapalhar o sossego de sua viagem, mas venho aqui trazer...


Estratégias discursivas de pedintes e vendedores em ônibus


O discurso que analiso abaixo não se enquadra entre os discursos dominantes de nossa sociedade,  ao contrário. 

Porém, apresenta estratégias tão habilidosas quanto aqueles - e até mais, visto que é despojado de poder e, portanto, precisa de estratégias mais elaboradas  - demonstrando que há negociação, que há resistência e que há uma microfísica do poder, onde comparecem pequenos poderes, também eles, com seu grau de influência - uma interpretação possível do que nos ensinou Michel Foucault. Em resumo, não está "tudo dominado".
(Por falta de tempo, diferentemente, do post anterior, não fiz uma adaptação e mantive os termos acadêmicos)
Abraços!
                                

O gênero discursivo dos pedintes e vendedores em ônibus urbanos:cointencionalidade, ethos, posicionamento



Transcrito a partir da intervenção de uma pedinte* em um ônibus, o texto que analisarei neste exercício** é um gênero com formato recorrente em transportes coletivos nos centros urbanos do Estado do Rio de Janeiro, passível de ser estudado pela Análise do Discurso (AD). Ambulantes ou pedintes apresentam discursos com restrições no contrato de comunicação (CHARAUDEAU) marcadas pelo curto tempo de que dispõem para serem enunciados e obterem adesão (doações ou compra de seus produtos), pois devem logo descer do veículo para tomar outro e prosseguir sua estratégia de sobrevivência. São raras as exceções em que vendedores habilidosos se apresentam como quem oferece uma relação materialmente vantajosa para o Receptor. Em geral, esses discursos apresentam um ethos (MAINGUENEAU) de convencimento muito peculiar.
A adesão é convocada pela sensibilidade do auditório às necessidades do Eu Enunciador (EUe), de acordo com a teoria semiolinguística de Patrick Charaudeau (2008).  Evidenciamos que configura-se assim, o EUe, não uma pessoa de carne e osso, “ser social” (Locutor/EUc/sujeito comunicante), mas um “ser da fala”(Eu Enunciador), já (re)conhecido e constituído pelos parceiros no “espaço interno” da situação de comunicação, onde opera o “mundo discursivo”. E as necessidades do Eu Enunciador, nesses casos, são sempre situações de deficiência física, falta de saúde em geral e/ou grave pobreza.
Trata-se, esse ethos peculiar, da revelação de um marcante assujeitamento ideológico (ALTHUSSER). Para angariar adesão, o Locutor se coloca numa condição de inferioridade manejando um discurso sobre o qual não tem o menor controle ou consciência. Vem em evidência também a noção de posicionamento (MAINGUENEAU), na qual o locutor instaura “uma identidade enunciativa de fraca consistência doutrinal”, configurando um posicionamento de alguém inferior e até incômodo (“Desculpem-me por atrapalhar a viagem de vocês”).

Ethos e assujeitamento ideológico acionando uma cointencionalidade “solidária”
Outro indício que reforça esses mesmos padrões de ethos, assujeitamento ideológico e posicionamento é, no caso específico em questão, o fato de a mulher não estabelecer um preço para o produto (“estou aqui vendendo esses pirulitos por qualquer valor”). De fato, não é que o pirulito vale pouco. Ele não vale nada, a ponto de o agradecimento, única retribuição que o Locutor deveria a quem dá algo pelo doce, é antecipadamente dirigido no final da enunciação a todos os que contribuírem e aos que não contribuírem (“agradeço da mesma forma”). Podemos inferir que a pedinte não precisaria prestar conta dos produtos porque provavelmente os recebeu de graça, possivelmente, de um doador sensível ao mesmo ethos já explicitado, por ocasião de outra situação de comunicação, anterior - suposta por nós.
Nesse ponto apresenta-se uma cointencionalidade “solidária” que é superior a qualquer troca comercial convencionalmente instituída. Um Tu Destinatário (TUd) também um “ser da fala” disperso na sociedade, se encarnaria tanto no doador dos pirulitos, suposto por nós, quanto no auditório composto pelos passageiros do ônibus. Essa cointencionalidade está inscrita na relação desses “seres sociais” (na posição de Receptor/sujeito interpretante/TUi) -  que em momentos diferentes assumem o papel do Tu Destinatário (TUd/ “ser da fala”)  –  com a nossa pedinte (no papel de sujeito comunicante/Locutor/EUc). São convergentes as intencionalidades do Locutor e do Receptor: a transferência de valor (dinheiro) que perpetua uma sobrevivência com baixa qualidade de vida e contribui para estabilizar um cenário social de desigualdade.
Uma relação que certamente, não se esgota nessa análise, que passa também por sentimentos como fraternidade e o desejo difuso na sociedade de fazer o que se pode para minimizar o sofrimento dos necessitados, elementos, porém, fora ainda do alcance das ferramentas da AD.
Frases recorrentes de um gênero discursivo
Gostaríamos agora de citar algumas frases recorrentes nesse que poderíamos chamar de “gênero discursivo dos vendedores e pedintes em ônibus nos grandes centros urbanos” - mesmo se nem todas estão presentes no texto em questão - e que apresentam grande riqueza em fatores sociopsicosociolinguageiros, revelando tanto a presença de um sujeito falante (individual), quanto um sujeito coletivo (social) e uma subjetividade marcada pela intersubjetividade (BENVENISTE); além das intencionalidades (CHARADEAU) recorrentes típicas desse gênero.
“Eu podia estar roubando, podia estar matando, mas estou aqui vendendo este produto/pedindo uma contribuição”
“Este produto que na loja custa 3 reais [valor a título de exemplo], na minha mão os senhores levam por apenas 1 real [valor emblemático ao qual são reduzidos os preços de grande parte dos produtos vendidos em ônibus, em geral, doces]”
“Este produto será o passatempo de sua viagem, a alegria de suas crianças” [formação discursiva “familiar” (FOUCALUT)
“Desculpem atrapalhar o sossego de sua viagem...”
“Àqueles que puderem ajudar eu agradeço, àqueles que não puderem, eu agradeço da mesma forma”.
O texto, frase a frase
Vamos agora ao texto transcrito de nossa Locutora a partir do momento em que ela “toma a palavra”***, reivindicando para si o direito a falar e de obter a atenção do auditório. Entre parênteses, as observações do ponto de vista da AD.
De início observamos que se trata de um registro formal - que não faz parte do hábito de fala da Locutora em seu cotidiano - aprendido, exercitado, e enunciado sem espontaneidade mas com eficácia.
Senhoras e senhores passageiros,
[O momento da “tomada da palavra” vem marcado por uma formação discursiva ligada às atividades dos meios de transporte de pessoas, que se adequa às restrições do contrato de comunicação – e atenua possíveis resistências e rejeições – conferindo à enunciação uma informalidade que convoca consideração maior do que se o registro fosse de uma fala informal]
Desculpem incomodar a viagem de vocês
[assujeitamento ideológico (ALTHUSSER) em posição de inferioridade,  e assumindo, inclusive certa consciência de uma suposta incoveniência com relação ao auditório, também com função de prevenir rejeições, como se dissesse: “eu sei que estou incomodando mas tenham compaixão”]
Mas é que me encontro desempregada e preciso sustentar três crianças
[enunciado representa uma formação discursiva “familiar”, do ponto de vista dos necessitados da sociedade]
É muito triste para uma mãe levantar pela manhã e não ter o leite para dar às crianças
[A menção ao leite – ela poderia ter mencionado o pão, que também integra a refeição matinal  – vincula ainda mais o enunciado a uma formação discursiva “materna”; a afirmação “É muito triste...” enfatiza o ethos e a intencionalidade da argumentação, de grande eficácia para angariar a adesão da audiência]
Por isso estou aqui vendendo esses pirulitos por qualquer valor que vocês possam colaborar
[Ressaltamos a contradição - já apontada no corpo da análise - da quebra das convenções de uma troca comercial comum, pois não importa o valor e, sim, que os ouvintes “possam colaborar”; não fixar um valor é mais um elemento desse ethos, uma estratégia que amplia a adesão]


Àqueles de vocês que puderem ajudar eu agradeço de coração, àqueles que não puderem, eu agradeço da mesma forma
[Mais uma vez, a enunciação esconde um ethos de despojamento. O “dizer” (DUCROT) não dito comparece por meio do “dito”, supostamente: “Não importa nem mesmo se vocês não me ajudarem, importa que tenham compaixão de minha situação, e aqui estamos unidos na condição da fraternidade humana”. Configura-se, de fato, um enunciado que confirma e antecipa o registro da formação discursiva “cristã” ratificado no fechamento da enunciação, a seguir...
Que Deus abençoe a todos e lhes dê uma boa viagem!
[Nossa pedinte (EUc), ao término de sua fala, percorre o veículo a partir do ponto onde estava, na parte da frente do mesmo, recolhendo as contribuições em dinheiro ou os doces (de quem não contribuiu) que já havia distribuído silenciosamente (ao entrar no ônibus, antes de tomar a palavra); a menção a Deus ancora todo o discurso no absoluto e garante a felicidade (“Que Deus abençôe a todos”) e se fecha retomando a formação discursiva dos profissionais dos meios de transporte, tão adequada àquela situação de comunicação]
NOTAS
*Entre outros autores, evidenciaremos, especialmente, os conceitos da teoria semioliguística de Patrick Charaudeau (2008), para exercitar o uso de seus conceitos, correndo o risco de produzir um texto sem tanta fluência, mas válido para treinamento no uso de noções aprendidas recentemente – e possibilidade de sugestões por parte do professor. Citaremos Chauradeau a partir da dissertação de mestrado de Graciele Resende (UFMG, 2006), que aborda um tema não relacionado com o desta análise, mas apresenta uma boa síntese introdutória da teoria semiolinguística.

**Transcrito a partir da enunciação - anotada em tópicos e reconstituída à memória - de uma mulher que tomou, na rodoviária de Macaé,  o ônibus da Viação 1001 com destino a Unamar (Cabo Frio), na tarde do dia 2 de julho de 2012. Com cerca de 25 anos e vestindo roupas sujas, ela era negra e tinha uma miscigenação que lhe dava tonalidade preta aos cabelos ondulados.
*** Vale lembrar que a importância do ato de tomada da palavra, evidenciado por Charaudeau, é valorizado também por AMOSSY (“Todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si").

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMOSSY, Ruth. Imagens de Si no Discurso: a Construção do Ethos. São Paulo: Contexto, 2008.
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Lisboa, Presença/Martins Fontes, 1974.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral. Campinas: Pontes, 1995.
CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e Discurso: Modos de Organização. São Paulo: Contexto, 2008.
DUCROT, Oswald. O Dizer e o Dito. Campinas: Pontes, 1987
FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. Petrópolis: Vozes, 1971.
MAINGUENEAU, Dominique; CHARAUDEAU. Patrick. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
RESENDE, Graciele. Estratégias discursivas em publicidades brasileiras de cerveja. 2006. Dissertação (mestrado em Estudos Linguísticos) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais. Disponível em http://pt.scribd.com/doc/55937310/2/A-TEORIA-SEMIOLINGUISTICA .

3 comentários:

  1. Marcello, faço alguns comentários sem querer esgotar um assunto que é complexo. Gostei da sua postagem pois você não colocou um discurso típico de dominação, pelo contrário.
    A propósito, acho a AD importante como mecanismo de análise e de desvelamento de intenções. No entanto acho que é necessário desmistificar o discurso como algo maquiavélico ou "do mal". Pode ter ou não intenções de dominação.
    Aliás, seu próprio post mostra isto. O discurso faz parte da natureza humana. Há o discurso empresarial, comercial, político, religioso, da mídia e até dos pais na educação dos filhos.
    Foucault mostra como relações de poder se encontram em qualquer nível do relacionamento humano.
    Giddens aborda, de certa forma, o assunto, mostrando a capacidade discursiva do ser humano na explicação de suas ações.
    Obviamente há vários tipos de discurso: desde a justificativa de ações até a manipulação de outros, ocultando ou dissimulando relações de dominação assimétricas.
    Me pergunto: as ações de marketing não procuram vender uma idéia ou produto? certamente, porém a ética presente na mensagem é que é duvidosa.
    Outro aspecto: redes de mídia (Globo por exemplo); grande parte da programação e das mensagens não têm a finalidade de reter o espectador? mesmo usando de programas com qualidade ou ética duvidosa?
    Enfim... assunto por demais complexo. Ficam aí somente alguns pensamentos sem maior base de sustentação, mas o que penso sobre o assunto.
    Abraço

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  2. Caro, Marcio,
    Antes de mais nada, obrigado por dedicar tempo a ler-me, e ainda mais, a postar aqui, enriquecendo o meu blog com suas reflexões, que vc diz "sem maior base de sustentação", mas que, não sei se é pretensão minha poder garantir a partir de minhas leituras, certamente, sustentadas pelos autores que vc citou e outros ainda com igual credibilidade. Grande a tua sensibilidade ao perceber que utilizei a AD aplicada a um discurso não dominante. Concordo com tua afirmação de que o discurso não é "do mal" por definição. E pensar assim é um risco que os analistas correm, especialmente, quando se trata de uma ferramenta teórica que bebe na fonte do marxismo. Daí tantas saudáveis revisões - já a partir de Antonio Gramsci, dos Estudos Culturais, do próprio Michel Foucault... - que permitem que o marxismo ainda hoje tenha algo a dizer. Sim, também questiono a ética do discurso do marketing, e a midiática, então... Mas como já disse uma amiga minha no facebook, isso já é muito conversa para bico seco. Que tal continuarmos diante de umas cervejinhas? Abraços!

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  3. Gostei do convite... gostaria muito de ir a RO, quem sabe a gente consegue! abração

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