A ambivalência da vida
Eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo a consciência do que eles realmente perderam [acerca dos benefícios dos laços humanos], porque eles nunca vivenciaram esse tipo de experiência. Por outro lado há a maldição. Pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Isso significa que você empenha seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações. Então, esta é uma situação muito ambivalente, e consequentemente, um fenômeno curioso, essa pessoa solitária numa multidão de solitários. Nós estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo
Há valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompesadora e relativamente feliz. Um é segurança e outro é liberdade. Você não consegue ser feliz. Você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escuridão. Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Então você precisa dos dois. Entretanto, o problema é que ninguém ainda na história e no planeta encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco de sua liberdade. Não há outra maneira. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte de sua segurança. Então você ganha alguma coisa e você perde algo.
A ambivalência da civilização
Há 81 anos Sigmund Freud publicou esse livro famoso tremendamente profundo e influente, intitulado “O Mal-estar na Civilização”. Ele disse que a civilização é sempre uma troca. Ou seja, você dá algo de um valor para receber algo de outro valor. E ele disse... Ele escreveu isso nos anos 1920. Naquela época ele disse que o problema deles, da velha geração, foi que eles entregaram liberdade demais em prol da segurança. E estou profundamente convicto de que, se Freud estivesse dando essa entrevista aqui, no meu lugar, ele provavelmente repetiria que toda civilização é uma troca, mas o seu diagnóstico seria exatamente o oposto, que os nossos problemas hoje derivam do fato de que nós entregamos demais a nossa segurança em prol de mais liberdade
Esse é um dilema. Eu acho que já sinto alguns sinais prodrômicos*, de que o pêndulo está começando a voltar. Em direção a mais segurança. O estado social vem de novo em favor do público. As pessoas sonham com ele, elas querem poderes mais fortes e mais estabilidade, um pouco mais de estabilidade. Está muito no início. Não estou dizendo que já estamos no caminho certo. Mas há sinais de que isso está acontecendo. Então, minhas conclusões são duas: em primeiro lugar, você nunca encontrará um solução perfeita do dilema entre segurança e liberdade. Sempre haverá muito de uma e muito pouco de outra, certo? E a segunda é que você nunca irá parar de procurar essa mina de ouro. (continua no próximo post)
*relativo a pródromo, fenômeno clínico que revela o início de uma doença (Aurélio)

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