sexta-feira, 25 de maio de 2012

Análise do Discurso: uma relação menos ingênua com a linguagem


Delega-se o poder de interpretar o mundo a especialistas, como o juiz, o professor o padre...


Olá! Volto a postar depois de mais de sete meses. Agora, para dividir com vocês o meu entusiasmo com as aulas de Análise do Discurso, disciplina que estou cursando na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em  Campos-RJ.  Farei, talvez, outros posts sobre a também chamada AD. 


Para começar, alguns trechos de Eni Orlandi - professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp, e respeitada autora na AD. Os trechos são do livro Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos (Pontes Editores).


Segundo Eni, não são todos que podem “interpretar [o mundo] de acordo com a sua vontade, há especialistas, há um corpo social a quem se delegam poderes de interpretar (logo de ‘atribuir sentidos’), tais como o juiz, o professor, o advogado, o padre, etc. Os sentidos estão sempre ‘administrados’, não estão soltos”.
(...)


“Cabe então perguntarmos como nos relacionamos com a linguagem em nosso cotidiano, enquanto sujeitos falantes que somos (pai, mãe, amigo, colega, cidadãos, etc), enquanto profissionais, professores, enquanto autores e leitores”.


No prefácio de seu livro, Eni afirma que a Análise do Discurso “nos coloca em estado de reflexão e, sem cairmos na ilusão de sermos conscientes de tudo, permite-nos ao menos sermos capazes de uma relação menos ingênua com a linguagem”, essa mesma linguagem, acrescento eu, dos “sentidos administrados” e dos especialistas a quem se delegam os poderes de interpretar o mundo e atribuir sentido às coisas do mundo.




Até a próxima!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O dia em que eu (não) entrevistei Barbosa Lima Sobrinho

Um dia, fui entrevistar o Barbosa Lima Sobrinho, quando eu trabalhava na hoje extinta Bloch Editores. Eu fui até à sede da ABI e tinha dez minutos para entrevistá-lo. Era um tema ligado à cidadania. Ele era o jornalista que eu mais admirava. Eu ainda era meio foca e, empolgadíssimo, começei a falar de como eu o acompanhava por meio de seus artigos - na época ele fazia grande campanha contra o estabelecimento da reeleição para os cargos do Executivo. Então, de repente, quando eu ia começar a entrevista, chegaram as pessoas com quem ele iria se reunir e ele começou a cumprimentá-las. E eu pensei: "Caramba! Falei de mais e agora vou ficar sem a entrevista!". Só que aí o Barbosa Lima Sobrinho virou e me disse: "Meu filho você sabe tudo sobre mim. Pode ir para a redação escrever sua matéria e dizer que fui eu que falei". Apertou a minha mão e me mostrou o caminho da porta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Bauman lembra Sócrates ao falar de destino, caráter e felicidade

Após abordar temas como as relações entre o público e o privado, segurança e liberdade, modernidade e pós-modernidade, conexão e desconexão nas redes sociais, Zygmunt Bauman fala da gama de possibilidades que o destino nos abre (ou fecha), e que escolhemos de acordo com nosso caráter. Ele denuncia os “consultores” que oferecem receitas para a felicidade e menciona Sócrates, para quem a felicidade está em construir o próprio caminho. Esse post conclui a transcrição da entrevista com o autor de “Modernidade Líquida”, e que foi publicada no vídeo Fronteiras do Pensamento (http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A). O vídeo teve o patrocínio de empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e foi gravado na residência dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano.

Felicidade

Eu não acredito que haja apenas uma forma de ser feliz. Há muitas formas de ser feliz. Neste pequeno livro que escrevi sobre A arte da vida, há dois fatores relativamente independentes que dão forma à vida humana. Um deles é o destino. O destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influência; é o que acontece conosco, mas não foi causado por nós. Isso é o destino. E o outro é o caráter. O caráter é muito individual. Você pode trabalhar em cima do seu caráter, se quiser, você pode mudá-lo, melhorá-lo. Boa parte dele está sob seu controle. A divisão do trabalho entre o destino e o caráter é tal que o destino oferece a gama de opções que são realistas para você. Sobre isso você não tem nenhuma influência. Se você tivesse nascido 20 anos antes, sua gama de opções seria diferente; se você tivesse nascido 20 anos depois, novamente seria diferente; se você tivesse nascido nesse bairro rico, você teria uma gama de opções; se você tivesse nascido num gueto, seriam opções completamente diferentes. Mas sempre há gamas de opções, proporcionadas pelo destino. Porém, as escolhas entre essas opções são feitas pelo caráter. Mas como os tipos de caráter são muitos e bem diferentes, não é possível dar uma receita para a felicidade. Eu sei que hoje existem consultores ganhando muito dinheiro fingindo que possuem receitas para a felicidade. Não acreditem neles. Eles estariam enganando vocês. Eu jamais ousaria dar esse tipo de conselho.

A vida como criação

Não estou me comparando a Sócrates, mas muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates, sua personalidade, que ele construiu como relativamente a mais perfeita possível que se possa imaginar. Mas o que isso significa? Significa que o tipo de vida escolhida por Sócrates era considerada perfeita para Sócrates? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, pelo contrário. Porque Sócrates precisamente considerava o segredo de sua felicidade estava no fato de ele próprio, por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu. As pessoas que imitam a forma de vida de uma outra pessoa, o modelo de felicidade de outra pessoa, não são como Sócrates. Pelo contrário, elas traem a receita dele. Eles traem a sua receita. Precisamente, porque sua receita... bem, você pode traduzir isso em termos simples dizendo que para cada ser humano há um mundo perfeito, feito especialmente para ele ou para ela.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Bauman: quem garante segurança perde liberdade... E vice-versa

Nesta parte da entrevista, Zygmunt Bauman fala da ambivalência da vida e da civilização. Lamenta que muitos jovens não experimentem a beleza dos laços verdadeiramente humanos e fala do lado desafiador desses laços, o de comprometer-se para sempre. Depois, cita uma obra famosa de Sigmund Freud, o “Mal-estar na Civilização”, para abordar o tema da vida como uma constante escolha entre liberdade e segurança: quando você conquista certa liberdade perde um pouco de segurança, quando garante um pouco mais desta, perde parte daquela. A propósito, Bauman aprofunda essa questão em seu livro “O Mal-estar na Pós-modernidade”. Mas vamos ao post, que é o quarto e penúltimo, da transcrição da entrevista, cujo vídeo, como já dissemos, está em http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A

A ambivalência da vida
Eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo a consciência do que eles realmente perderam [acerca dos benefícios dos laços humanos], porque eles nunca vivenciaram esse tipo de experiência. Por outro lado há a maldição. Pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Isso significa que você empenha seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações. Então, esta é uma situação muito ambivalente, e consequentemente,  um fenômeno curioso, essa pessoa solitária numa multidão de solitários. Nós estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo

Há  valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompesadora e relativamente feliz. Um é segurança e outro é liberdade. Você não consegue ser feliz. Você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escuridão. Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Então você precisa dos dois. Entretanto, o problema é que ninguém ainda na história e no planeta encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco de sua liberdade. Não há outra maneira. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte de sua segurança. Então você ganha alguma coisa e você perde algo.
A ambivalência da civilização
Há 81 anos Sigmund Freud publicou esse livro famoso tremendamente profundo e influente, intitulado “O Mal-estar na Civilização”. Ele disse que a civilização é sempre uma troca. Ou seja, você dá algo de um valor para receber algo de outro valor. E ele disse... Ele escreveu isso nos anos 1920. Naquela época ele disse que o problema deles, da velha geração, foi que eles entregaram liberdade demais em prol da segurança. E estou profundamente convicto de que, se Freud estivesse dando essa entrevista aqui, no meu lugar, ele provavelmente repetiria que toda civilização é uma troca, mas o seu diagnóstico seria exatamente o oposto, que os nossos problemas hoje derivam do fato de que nós entregamos demais a nossa segurança em prol de mais liberdade

Esse é um dilema. Eu acho que já sinto alguns sinais prodrômicos*, de que o pêndulo está começando a voltar. Em direção a mais segurança. O estado social vem de novo em favor do público. As pessoas sonham com ele, elas querem poderes mais fortes e mais estabilidade, um pouco mais de estabilidade. Está muito no início. Não estou dizendo que já estamos no caminho certo. Mas há sinais de que isso está acontecendo. Então, minhas conclusões são duas: em primeiro lugar, você nunca encontrará um solução perfeita do dilema entre segurança e liberdade. Sempre haverá muito de uma e muito pouco de outra, certo? E a segunda é que você nunca irá parar de procurar essa mina de ouro. (continua no próximo post)

*relativo a pródromo, fenômeno clínico que revela o início de uma doença (Aurélio)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Zygmunt Bauman fala sobre o Facebook

Vamos para mais um post, o terceiro da transcrição da fala de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Já estou percebendo que a transcrição toda não vai sair em quatro postagens como previ, mas em cinco. Nesta, após constatar a invasão do ambiente público pela privacidade individual – citando o caso de uma mulher que anunciou para milhões de telespectadores que nunca teve um orgasmo -, o sociólogo define o que ele chama de “o tipo de amizade do facebook”, marcada por duas únicas atividades, “conectar e desconectar”.

Como sempre, ofereço a todos a possibilidade de ver o vídeo http://bit.ly/nIhMVj

Com vocês, então, Zygmunt Bauman:

Entretanto, o perigo para essa autonomia [do indivíduo] veio do outro lado, da esfera do privado e do [próprio] indivíduo. A maior aproximação contemporânea da Ágora, do lugar onde a democracia foi feita, refeita, continuada desenvolvida e protegida, a maior aproximação disso são os talk shows na televisão. É onde as massas assistem, participam, telefonam, enviam perguntas, mensagens etc... Algo semelhante ao que se fazia na antiga Ágora.

[Mas] ao olharmos para isso, vemos que eles não estão discutindo os nossos interesses compartilhados, não estão discutindo o bem-estar da sociedade. Eles não estão discutindo sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos nós sofremos na sociedade atual. Eles apenas confessam, em última análise, os problemas privados, individuais e bastante íntimos, certo?

Ehrenberg, sociólogo francês, afirmou que, em sua opinião, a revolução pós-moderna começou numa quarta-feira à noite, num outono da década de 1980, quando uma certa Vivienne, uma mulher comum, na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou nunca ter tido um orgasmo em seu casamento, porque seu marido Michel, sofre de ejaculação precoce. Começo da revolução, começo da revolução. Por que começo da revolução? Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar coisas que eram personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você for católico, ao padre no confessionário, ou aos seus amigos realmente muito chegados, ou realmente muito íntimos. Mas você não iria à praça pública anunciar para todos.

Então, a Ágora foi conquistada, não pelos regimes totalitários, mas exatamente pela privacidade, por coisas que anteriormente eram privadas, no confessionário, que é a personificação, a encarnação da intimidade e da privacidade. Você conversa diretamente com Deus. É um segredo absoluto. Ninguém pode saber o que você confessou no confessionário. Nós instalamos microfones nos confessionários.

O mundo pós-moderno – a condição do indivíduo

Um viciado do facebook, me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso.

Laços humanos

Então , provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo” não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes. Quando eu era jovem eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades. Esse tipo de cosia. Mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você.Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade,  a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e outra é desconectar.

Eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar... É fácil conectar e fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos on line, conexões on line, compartilhamento on line, mas conexões off line. Conexões de verdade, frente à frente, corpo a corpo, olho a olho.
Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc. É difícil, mas na Internet  é tão fácil.Você só pressiona [o botão] delete e pronto. Em vez de 500 amigos, você terá 499. Mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500.
E isso mina os laços humanos. Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição. Bênção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar, e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no facebook, então é uma bênção. (Continua no próximo post)

sábado, 24 de setembro de 2011

A virada para o século 20, como num filme. Alguma semelhança com o nosso século?

Comentário que escrevi sobre o livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz (orgs.). Editora: Cosac Naify, São Paulo, 2004


Marcello Riella Benites

No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como  aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.

Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.

Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...

O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.

O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.

O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.

Estudos Culturais: a mídia ainda dá as cartas, mas nem tanto. É possível uma resistência negociada



Enquanto não há tempo de continuar a digitação do vídeo com a entrevista de Zygmunt Bauman, que começamos nas duas últimas postagens, prosseguimos com a publicação do nosso Quadro Geral das Teorias da Comunicação, que interrompemos em 2 de março, quatro posts atrás. Abraços!

13) ESTUDOS CULTURAIS BRITÁNICOS

- Os Estudos Culturais Britânicos, que aqui chamaremos EC, têm hoje como principal questão a CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES DOS GRUPOS CULTURAIS.

- O movimento começou, oficialmente, com a fundação do Contemporary Centre of Culture Studies (CCCS), em 1964, na Universidade de Birmingham, por Richard Hoggart, que realizava pesquisas sobre os hábitos culturais da classe operária inglesa do pós-guerra.

- Vale ressaltar que os EC extrapolam o campo da comunicação.

- A originalidade dos EC está na consideração da cultura popular em condições de igualdade com a arte, a música e a literatura, enfim, as culturas erudita e tradicional.

- Hoggart afirma que NA CULTURA POPULAR NÃO EXISTE APENAS SUBMISSÃO, MAS TAMBÉM RESISTÊNCIA.

- Em 1968, Stuart Hall substitui Hoggart no CCCS e incentiva “a investigação de práticas e de análises dos MCS identificando papel central dos meios na direção da sociedade”.

- Os EC RECEBEM INFLUÊNCIA MARXISTA, MAS CRITICAM O REDUCIONISMO E O ECONOMICISMO MARXISTAS QUE NÃO RECONHECEM CERTA “AUTONOMIA RELATIVA” DAS CULTURAS POPULARES.

- E a ligação dos EC com a comunicação está nessa perspectiva também de uma resistência e uma REELABORAÇÃO QUE A CULTURA POPULAR É CAPAZ DE FAZER EM RELAÇÃO ÀS MENSAGENS DA MÍDIA.

- Entram aí os conceitos de “CODIFICAÇÃO” E “DECODIFICAÇÃO” das mensagens dos MCS.

- Mais tarde os EC enveredam por pesquisas de recepção segmentada por gênero e etnias (estudos etnográficos), e de faixas etárias (crianças por exemplo) - inclusive na América Latina como veremos, a partir dos estudos de Jesus Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini, entre outros - , ou seja, investigações sobre como estes grupos interpretam as mensagens da mídia e como as pessoas aparecem nos MCS

- Essa possibilidade/capacidade que os EC têm de pesquisar o POTENCIAL DE RESISTÊNCIA DAS CULTURAS POPULARES dá a eles um diferencial nas pesquisas dos IMPACTOS DOS MCS SOBRE GRUPOS, MINORIAS, COMUNIDADES E OUTROS SEGMENTOS SOCIAIS cada vez mais numerosos em nossa SOCIEDADE FRAGMENTADA.

- Essa contribuição – que se ampliou com a difusão dos EC em diversos países – é importantíssima no sentido de investigar o papel dos MCS na constituição das identidades desses grupos.

A obra fundadora é The Uses of Literacy (1957), em que Richard Hoggart estuda a forma como operários ingleses interpretam jornais populares, enquanto “Codificação/Decodificação” (1973) é uma das obras mais influentes, na qual Stuart Hall analisa três níveis de recepção em que as pessoas decodificam as mensagens midiáticas: código hegemônico, código de oposição e código negociado. Com alguma simplificação, poderíamos dizer que no primeiro código há uma aceitação acrítica da mensagem de dominação; no segundo, uma oposição radical a essa mensagem, resultando sempre em conflito e ruptura; e no terceiro, como o nome diz, ocorre uma negociação que inclui certa tolerância crítica às mensagens de dominação, mas também uma resistência estratégica a longo prazo.