sábado, 24 de setembro de 2011

Estudos Culturais: a mídia ainda dá as cartas, mas nem tanto. É possível uma resistência negociada



Enquanto não há tempo de continuar a digitação do vídeo com a entrevista de Zygmunt Bauman, que começamos nas duas últimas postagens, prosseguimos com a publicação do nosso Quadro Geral das Teorias da Comunicação, que interrompemos em 2 de março, quatro posts atrás. Abraços!

13) ESTUDOS CULTURAIS BRITÁNICOS

- Os Estudos Culturais Britânicos, que aqui chamaremos EC, têm hoje como principal questão a CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES DOS GRUPOS CULTURAIS.

- O movimento começou, oficialmente, com a fundação do Contemporary Centre of Culture Studies (CCCS), em 1964, na Universidade de Birmingham, por Richard Hoggart, que realizava pesquisas sobre os hábitos culturais da classe operária inglesa do pós-guerra.

- Vale ressaltar que os EC extrapolam o campo da comunicação.

- A originalidade dos EC está na consideração da cultura popular em condições de igualdade com a arte, a música e a literatura, enfim, as culturas erudita e tradicional.

- Hoggart afirma que NA CULTURA POPULAR NÃO EXISTE APENAS SUBMISSÃO, MAS TAMBÉM RESISTÊNCIA.

- Em 1968, Stuart Hall substitui Hoggart no CCCS e incentiva “a investigação de práticas e de análises dos MCS identificando papel central dos meios na direção da sociedade”.

- Os EC RECEBEM INFLUÊNCIA MARXISTA, MAS CRITICAM O REDUCIONISMO E O ECONOMICISMO MARXISTAS QUE NÃO RECONHECEM CERTA “AUTONOMIA RELATIVA” DAS CULTURAS POPULARES.

- E a ligação dos EC com a comunicação está nessa perspectiva também de uma resistência e uma REELABORAÇÃO QUE A CULTURA POPULAR É CAPAZ DE FAZER EM RELAÇÃO ÀS MENSAGENS DA MÍDIA.

- Entram aí os conceitos de “CODIFICAÇÃO” E “DECODIFICAÇÃO” das mensagens dos MCS.

- Mais tarde os EC enveredam por pesquisas de recepção segmentada por gênero e etnias (estudos etnográficos), e de faixas etárias (crianças por exemplo) - inclusive na América Latina como veremos, a partir dos estudos de Jesus Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini, entre outros - , ou seja, investigações sobre como estes grupos interpretam as mensagens da mídia e como as pessoas aparecem nos MCS

- Essa possibilidade/capacidade que os EC têm de pesquisar o POTENCIAL DE RESISTÊNCIA DAS CULTURAS POPULARES dá a eles um diferencial nas pesquisas dos IMPACTOS DOS MCS SOBRE GRUPOS, MINORIAS, COMUNIDADES E OUTROS SEGMENTOS SOCIAIS cada vez mais numerosos em nossa SOCIEDADE FRAGMENTADA.

- Essa contribuição – que se ampliou com a difusão dos EC em diversos países – é importantíssima no sentido de investigar o papel dos MCS na constituição das identidades desses grupos.

A obra fundadora é The Uses of Literacy (1957), em que Richard Hoggart estuda a forma como operários ingleses interpretam jornais populares, enquanto “Codificação/Decodificação” (1973) é uma das obras mais influentes, na qual Stuart Hall analisa três níveis de recepção em que as pessoas decodificam as mensagens midiáticas: código hegemônico, código de oposição e código negociado. Com alguma simplificação, poderíamos dizer que no primeiro código há uma aceitação acrítica da mensagem de dominação; no segundo, uma oposição radical a essa mensagem, resultando sempre em conflito e ruptura; e no terceiro, como o nome diz, ocorre uma negociação que inclui certa tolerância crítica às mensagens de dominação, mas também uma resistência estratégica a longo prazo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Zygmunt Bauman: a descrença no Estado-nação e a autonomia do indivíduo na pós-modernidade

O sociólogo polonês faz ainda uma suposição do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos

Então, vamos à transcrição da segunda parte – penso em fazer o total em quatro posts - da entrevista de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Peço desculpas, pois, no título da primeira parte eu mencionava que ele comentava o facebook; mas não falou naquela parte e nem falará nesta. Porém, vale a pena esperar, porque é realmente interessante. Nesta parte ele analisa o fracasso do Estado-nação, prevê uma democracia global e comenta a mundança da situação de autonomia do indivíduo na pós-modernidade. Ah! E faz ainda uma suposição interessantíssima e bem-humorada do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos...

E, novamente, se alguém quiser ver o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A.

O futuro da democracia

Eu sou um humilde sociólogo e não tenho habilidades proféticas aqui. Eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia em meus 61 anos fazendo sociologia. Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver. Eu posso só lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia. Um se refere a quais são as dimensões do divórcio entre poder e política. Porque se esse for o caso, então, o Estado, a única instituição política que temos - nós não temos uma instituição política global. O Estado não tem poder suficiente para realizar todas as promessas que os estados 50 anos atrás fizeram aos cidadãos.

E essa foi a era de ouro da democracia. Nos 30 anos do pós-guerra ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal. Agora a democracia está em decadência. Cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa. E têm dúvidas a respeito da qualidade da democracia. Por quê? Simplesmente porque o Estado, relativamente sem poder, consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos. O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isto é, o que a maioria dos Estados está fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar.

Quem sabe, talvez, talvez - aqui já estou envolvido em profecia - nós inventemos uma democracia global em algum momento. E essa seria uma solução radical, principalmente, porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo? Então teremos que inventar... Eu não, eu estou muito velho, mas você [apontando para o entrevistador] terão que inventar um equivalente global das invenções dos nossos antepassados. Eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional, parlamentos, parlamentos modernos. Eles inventaram a jurisdição, e não leis locais, habituais, tradicionais, o direito consuetudinário, mas um código de direito unificado para todo o país. Eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.

Se Aristóteles fosse convidado a ir a um prédio de qualquer parlamento contemporâneo... Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito da democracia, a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem, depois votam, chegam a algum acordo. Ele gostaria. Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia. Ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era apenas as pessoas indo ao mercado, brigando entre si e chegando a uma resolução. O que significa que a democracia é uma noção que adquire, com o tempo, na história, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.

Então, uma coisa que eu posso ter certeza é de que, se vocês realmente inventarem equivalentes globais para a democracia do Estado-nação, então, será uma democracia, certo, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos, [serão] maiores. Não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos de democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.

O problema da autonomia indivudual

[E, então*]Castoriadis** prossegue e diz que o indivíduo autônomo e a comunidade autônoma – politike – só podem existir juntos. Um precisa do outro. Você não pode ser um indivíduo numa sociedade tirana. Numa sociedade totalitária nós realmente não somos indivíduos. Deve haver uma cooperação mútua entre as duas economias. [Isso que ele disse] Foi muito bonito. Mas o perigo veio de um lado inesperado. Quando Custoriadis escreveu suas palavras, ele as escreveu contra o totalitarismo da época. Bem, de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado [...], mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera pública.

George Orwell, de forma memorável, colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”. Muito bem. Isso era um perigo, sem dúvida alguma. Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo. Nós realmente não temos mais medo, como acontecia na minha juventude de a individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima, como a polícia secreta etc. Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados se formos comparar. Entretanto, o perigo para essa autonomia veio do outro lado. (continua no próximo post)

*No vídeo se ouve “And then, Castoriadis...”, mas na legenda não aparece esse “And then - E então”, deixando perceber que houve um corte.

**Cornelius Castoriadis, em grego Κορνήλιος Καστοριάδης (1922 -1997), filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega, defensor do conceito de autonomia política (ndr/wikepedia)

sábado, 17 de setembro de 2011

Zygmunt Bauman, a pós-modernidade, redes, facebook...

Como anunciei no twitter e no facebook, aqui está a primeira parte da transcrição que fiz - pouco mais de cinco minutos - da fala do sociólogo polonês Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento, patrocinado por diversas empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e realizado na casa dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano. Talvez até já houvesse transcrições desse vídeo na Internet.
Mas quis transcrever para garantir a fidelidade e também para meditar – penso que não é para menos – as palavras de Bauman. Ressalto que se trata da transcrição das legendas.

Para quem preferir ver o vídeo, que tem 30 minutos, eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A

Fronteiras do Pensamento - Diálogos com Zygmunt Bauman
O mundo pós moderno - a condição social
O que aconteceu no século XX foi a passagem de toda uma era na história mundial, de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores. E por outro lado um processo de fragmentação da vida humana. Quando eu era jovem, isto é “séculos” atrás, nós éramos impressionados com Jean-Paul Sartre que nos disse que precisamos criar o projet de la vie, projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida. Temos que seguir passa a passo, de forma consistente, ano após ano, chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você. Nós temos grande dificuldade de adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de uma vida inteira é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios.
Não era assim no início do século XX. As sociedades foram individualizadas. Ao invés de pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, temos que redefinir o significado da vida, o propósito da vida, [ redefinir o que venha a ser]a felicidade na vida [...]. As questões de identidade têm um papel tremendamente importante hoje no mundo. Você tem que criar sua própria identidade. Você não a herda. Não apenas você precisa fazer isso a partir do zero, mas você tem que passar sua vida toda de fato redefinindo sua identidade. Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom pra você, e ruim pra você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam muitas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar coisas que saíram da moda, a este respeito, que mudaram nos 86 anos da minha vida, provavelmente, eu levaria horas aqui, apenas para listar todas elas. Então, tudo isso mudou. Foram muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia mas muitas outras coisas. E receio que não possamos realmente dizer qual dessas mudanças é mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos. Não consigo dizer se foi o início de uma nova forma de vida, ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tipo de ordem social. Quando você está num processo de transição fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável, um [novo] acordo de convivência humana, mais isso vem cedo ou tarde. E até mesmo essa pergunta não dá pra responder.
Um mundo interdependente
Eu acredito que com algum grau de responsabilidade posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis; apenas duas coisas, posso dizer que são realmente irreversíveis. Uma coisa é que multiplicamos - nós, a humanidade no planeta - as conexões, as relações, a interdependência, as comunicações espalhadas em todo o mundo. Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros. O que acontece na Malásia, quer você saiba ou não, sinta ou não, tem uma tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo. E vice-versa. Estamos no mesmo barco. Essa é a primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país em certo sentido.
A segunda questão é que, aproximadamente, após 300 anos de história moderna nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que aconteceria no mundo. Agora isso acabou porque no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos, o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, a capacidade de alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta... O resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia foi que chegamos muito perto do que agora entendemos ser os limites de suportabilidade do planeta. (continua no próximo post)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marshall McLuhan, o artista e a tecnologia

Amigos,

Gostaria de saber a opinião de vocês sobre a seguinte reflexão de Marshall McLuhan - concebida antes de a internet existir tal qual a conhecemos hoje – sobre o papel do artista com relação às novas tecnologias.
Em “Os meios de comunicação como extensão do homem” (1964), McLuhan chama os meios de “próteses”, ou seja, algo que nos é acrescentado, que nos “prolonga”. Na medicina moderna estamos acostumados com a idéia de que próteses podem ser implantadas também por meio de cirurgias.

Agora, passo a palavra ao teórico canadense:

“Os novos meios e tecnologias pelos quais nos ampliamos e prolongamos constituem vastas cirurgias coletivas levadas a efeito no corpo social”
“(...) a mudança técnica não altera apenas os hábitos da vida mas também as estruturas do pensamento e da valoração(...)”.
“O artista apanha a mensagem do desafio cultural e tecnológico [das novas técnicas e meios] décadas antes que ocorra seu impacto transformador. Constrói então modelos ou arcas de Noé para fazer frente à mudança iminente”.
“As vítimas que sofreram o impacto da nova tecnologia invariavelmente costumam tartamudear lugares-comuns sobre a falta de senso prático dos artistas e sobre seus gostos fantasiosos. Mas (...)[nas palavras de Wyndham Lewis] ‘o artista está sempre empenhado em escrever a minuciosa história do futuro, porque ele é a única pessoa consciente da natureza do presente!’ O conhecimento deste simples fato agora se torna necessário à sobrevivência humana. É secular a habilidade do artista em furtar-se ao pleno golpe das novas tecnologias, neutralizando sua violência com plena consciência, assim como é secular a inabilidade das vítimas atingidas, e que não sabem contornar a nova violência, em reconhecer a necessidade que têm dos artistas. Premiar os artistas e transformá-los em celebridades pode também ser um meio de ignorar seu trabalho profético, impedindo que eles sejam oportunamente úteis à sobrevivência. O artista é o homem que, em qualquer campo, científico ou humanístico, percebe as implicações de suas ações e do novo conhecimento de seu tempo. Ele é o homem da consciência integral”.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Enzemberger: Os MCS para conscientizar ou alienar. Althusser: a mídia como aparelho ideológico do Estado

Prosseguimos nosso Quadro Geral sobre as teorias da comunicação a partir de estudiosos marxistas que abordavam a comunicação já com um olhar de quem faz uma releitura do marxismo.

12) NOVA ESQUERDA

No final da década de 1960, HANS MAGNUS ENZEMBERGER:

- dava continuidade à crítica marxista do capitalismo, mas observando também as injustiças existentes nos países comunistas. Elabora, então, uma nova abordagem marxista para os meios de comunicação no sentido de utilizar as “potencialidades emancipadoras” dos meios

- em vez de “demonizar” os MCS, como fizeram os frankfurteanos, Enzemberger atribui aos meios o álibi de neutralidade, afirmando poderem esses servirem tanto à conscientização quanto à alienação do receptor.

LOUIS ALTHUSSER (“IDEOLOGIA E APARELHOS IDEOLÓGICOS DO ESTADO”):

- Em 1970, esse filósofo francês contribuiu para um importante desenvolvimento no conceito marxista de que a reprodução das condições de produção é a condição de manutenção do capitalismo.

- Ele acrescentou a essa teoria que a reprodução das condições de trabalho não ocorre nos locais de produção propriamente (fábricas, fazendas, escritórios...) e, sim, por meio dos Aparelhos Ideológicos do Estado (Igreja, Escola, família, partidos, e meios de informação).

- Ao incluir os MCS entre os aparelhos ideológicos do Estado, Althusser criou todo um filão de reflexões percorrido por diversos teóricos da comunicação marxistas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A teoria matemática da comunicação (Shannon & Weaver)

Outro dia, uma amiga minha, jornalista e professora universitária, mencionou de passagem Shannon & Weaver, e eu resolvi refrescar os registros da minha memória acerca desses pioneiros das Teorias da Comunicação (Teocoms). Corri então ao meu "História das Teorias da Comunicação" (Loyola), de Armand e Michelle Mattelart - porém, ressalvo que este post não se trata de mais um trecho do meu "Quadro Geral das Tecoms, que prometo retomar em breve, mas sim, de um "parêntese". Mencionar Shannon & Weaver significa lembrar a publicação do trabalho de Claude Elwod Shannon, "A Teoria Matemática da Comunicação", acrescida dos comentários de Warren Weaver. Nessa publicação, em 1949, pela Universidade de Illinois, Shannon, matemático e engenheiro eletricista da Bell/AT&T, e Weaver, que durante a Segunda Guerra Mundial coordenou uma pesquisa sobre grandes máquinas de calcular, tornaram famosa uma visão do processo de comunicação que influenciou muitas escolas - opostas, inclusive - de pesquisas na área influentes até hoje. O famoso modelo "Emissor - Mensagem - Receptor" é uma simplificação do sistema proposto por Warren & Weaver, a saber: 1) Fonte (de informação); 2) Codificador ou emissor; 3) Canal; 4) Decodificador ou receptor; 5) Destinação (pessoa ou coisa à qual a mensagem é transmitida). Segundo esse modelo, o problema da comunicação consiste em "reproduzir em um ponto dado, de maneira exata ou aproximativa, uma mensagem selecionada em outro ponto". A idéia de tratar essa questão em termos matemáticos tem a ver com o objetivo de medir o custo de uma mensagem entre dois pontos desse sistema, mesmo em meio a "perturbações aleatórias" (ruídos). Procurando reduzir essas perturbações, haverá menos custo e maior aproveitamento da mensagem, ou seja, a comunicação será mais proveitosa. A "Teoria Matemática da Comunicação" foi muito útil no trabalho de transposição de conceitos das ciências exatas, já consolidados e aceitos, para os estudos da comunicação, que estavam nos primórdios e precisavam de respaldo científico. Posteriormente, muitas pesquisas em comunicação se utilizaram de conceitos como "ruído", "codificação" e "decodificação" para investigações e reflexões também nas áreas das ciências humanas.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Eco, Swingewood e Tofler: apocalípticos e integrados na terceira onda


Olá!
Este é meu primeiro post de 2011. O último foi em 6 de dezembro do ano passado, sobre a vinda de um grande pesquisador da área da Análise do Discurso ao  Brasil. Volto a publicar trechos do Quadro Geral das Teorias da Comunicação, que elaborei a partir de minhas leituras sobre o tema, e cuja introdução pode ser lida em  http://migre.me/3Sv09 . Ao último trecho desta série, que postei em 26 de dezembro de 2010, dei o título de "Barthes, Morin e Baudrillard; Kristeva, Metz e Bordieu; Virilio, Sfez e Maffesoli, P. Levy, Wolton e Debord", dando pinceladas acerca desses teóricos do pensamento francês contemporâneo. Hoje continuo com Umberto Eco (Apocalípticos e Integrados, 1964), Alan Swingewood ("O Mito da Cultura de Massa," 1978) e Alvin Tofler (A Terceira Onda, 1981).

10) UMBERTO ECO

O pesquisador italiano Umberto Eco também publicou artigos na Revista Communications, dos pensadores franceses citados no post anterior.

Autor do livro “APOCALÍTICOS E INTEGRADOS” (1964), Eco taxava de “APOCALÍPTICOS” os teóricos que seguiam a linha da ESCOLA DE FRANKFURT, acusando-os por um pessimismo excessivo e por não analisarem a cultura de massas (CM) em toda complexidade que ela apresenta.

Segundo ele, a CM tem uma legitimidade histórica por resultar de uma ascensão social das massas, independentemente do conteúdo das mensagens.

Denominava, por outro lado, de “INTEGRADOS” os seguidores da Escola FUNCIONALISTA por considerá-los passivos em relação à cultura de massa.

Propõe a substituição da própria expressão “cultura de massas” por “comunicação de massa”.

Eco sustenta que se deve estudar a cultura de massas nas suas características de “efemeridade” e “reprodutibilidade”.

Também afirma que a análise da cultura de massa deve ter como objeto de estudo a mensagem e não os meios.

Esse estudo teria por nome “ANÁLISE ESTRUTURAL DA MENSAGEM” e levaria em conta:

a)     a linguagem dos bens culturais
b)    a forma como são percebidos e interpretados pelos receptores
c)     o contexto cultural em que se inserem
d)    o pano de fundo político e social



11) ESCOLA PROGRESSISTA-EVOLUCIONISTA

- Os teóricos dessa escola seriam certamente acusados de “integrados” pelo italiano Eco.

- Adeptos do neoliberalismo pós-industrial, tal como defendido pela ex-primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher, e pelo ex-presidente estadunidense Ronald Reagan, eles entendem que na sociedade pós-industrial, não apenas as elites, mas as massas têm acesso pleno à cultura.

ALAN SWINGEWOOD (“O MITO DA CULTURA DE MASSA”, 1978) AFIRMA QUE:

- a massa é constituída por todos os indivíduos da sociedade

- a noção de que a massa deve receber produtos culturais de baixo nível é um mito criado pelos críticos da CM.

- o gosto pessoal é valorizado na CM, gerando a segmentação na produção dos bens culturais

- a educação generalizada, universalizada, aumenta a participação política num processo “inevitável e revolucionário”

- OCORRE ENTÃO A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO, com uma UNIFICAÇÃO DE TODOS OS EXTRATOS SOCIAIS.

ALVIN TOFLER (“A TERCEIRA ONDA – DESMASSIFICANDO OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA”, 1981) teoriza:

- Na Primeira Onda, antes da primeira Revolução Industrial (RI), quando a comunicação era feita no seio de instituições como a família, a escola, o Estado, a Igreja e ainda nos locais de trabalho, O CONSENSO ERA DITADO POR AUTORIDADES que representavam essas instituições

- A Segunda Onda vem com a RI, e O CONSENSO PASSA A SER DADO PELOS QUE CONTROLAM  A IMPRENSA e, mais tarde, os demais MCS.

- Já a TERCEIRA ONDA chega com a sociedade pós-industrial. Ocorre então, um enorme aumento no fluxo de informação e a participação cada vez maior do receptor no processo comunicativo.

- Idéias, crenças, atitudes e ideologias tornam-se temporários.

- O CONSENSO SE DESPEDAÇA.

- SEM O CONSENSO, o indíviduo ganha finalmente a liberdade para pensar e escolher.

- Na sociedade pós-industrial, o fenômeno da segmentação é muito forte e as mensagens dos meios são orientadas especificamente para grupos (segmentos da população) cada vez mais isolados entre si.

- A leitura desse fato pela Escola Progressista-Evolucionista, entretanto, é positiva: a segmentação dos bens culturais é um sinal de que são atendidas as necessidades particulares de cada público e até do indivíduo.