Como anunciei no twitter e no facebook, aqui está a primeira parte da transcrição que fiz - pouco mais de cinco minutos - da fala do sociólogo polonês Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento, patrocinado por diversas empresas, universidades e outras instituições públicas e privadas, e realizado na casa dele em Londres, no dia 25 de julho deste ano. Talvez até já houvesse transcrições desse vídeo na Internet.
Mas quis transcrever para garantir a fidelidade e também para meditar – penso que não é para menos – as palavras de Bauman. Ressalto que se trata da transcrição das legendas.
Para quem preferir ver o vídeo, que tem 30 minutos, eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A
Fronteiras do Pensamento - Diálogos com Zygmunt Bauman
O mundo pós moderno - a condição social
O que aconteceu no século XX foi a passagem de toda uma era na história mundial, de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores. E por outro lado um processo de fragmentação da vida humana. Quando eu era jovem, isto é “séculos” atrás, nós éramos impressionados com Jean-Paul Sartre que nos disse que precisamos criar o projet de la vie, projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida. Temos que seguir passa a passo, de forma consistente, ano após ano, chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você. Nós temos grande dificuldade de adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de uma vida inteira é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios.
Não era assim no início do século XX. As sociedades foram individualizadas. Ao invés de pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, temos que redefinir o significado da vida, o propósito da vida, [ redefinir o que venha a ser]a felicidade na vida [...]. As questões de identidade têm um papel tremendamente importante hoje no mundo. Você tem que criar sua própria identidade. Você não a herda. Não apenas você precisa fazer isso a partir do zero, mas você tem que passar sua vida toda de fato redefinindo sua identidade. Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom pra você, e ruim pra você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam muitas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar coisas que saíram da moda, a este respeito, que mudaram nos 86 anos da minha vida, provavelmente, eu levaria horas aqui, apenas para listar todas elas. Então, tudo isso mudou. Foram muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia mas muitas outras coisas. E receio que não possamos realmente dizer qual dessas mudanças é mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos. Não consigo dizer se foi o início de uma nova forma de vida, ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tipo de ordem social. Quando você está num processo de transição fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável, um [novo] acordo de convivência humana, mais isso vem cedo ou tarde. E até mesmo essa pergunta não dá pra responder.
Um mundo interdependente
Eu acredito que com algum grau de responsabilidade posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis; apenas duas coisas, posso dizer que são realmente irreversíveis. Uma coisa é que multiplicamos - nós, a humanidade no planeta - as conexões, as relações, a interdependência, as comunicações espalhadas em todo o mundo. Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros. O que acontece na Malásia, quer você saiba ou não, sinta ou não, tem uma tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo. E vice-versa. Estamos no mesmo barco. Essa é a primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país em certo sentido.
A segunda questão é que, aproximadamente, após 300 anos de história moderna nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que aconteceria no mundo. Agora isso acabou porque no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos, o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, a capacidade de alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta... O resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia foi que chegamos muito perto do que agora entendemos ser os limites de suportabilidade do planeta. (continua no próximo post)
sábado, 17 de setembro de 2011
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