O sociólogo polonês faz ainda uma suposição do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos
Então, vamos à transcrição da segunda parte – penso em fazer o total em quatro posts - da entrevista de Zygmunt Bauman no vídeo Fronteiras do Pensamento. Peço desculpas, pois, no título da primeira parte eu mencionava que ele comentava o facebook; mas não falou naquela parte e nem falará nesta. Porém, vale a pena esperar, porque é realmente interessante. Nesta parte ele analisa o fracasso do Estado-nação, prevê uma democracia global e comenta a mundança da situação de autonomia do indivíduo na pós-modernidade. Ah! E faz ainda uma suposição interessantíssima e bem-humorada do que Sócrates acharia se fosse a um dos nossos parlamentos modernos...
E, novamente, se alguém quiser ver o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A.
O futuro da democracia
Eu sou um humilde sociólogo e não tenho habilidades proféticas aqui. Eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia em meus 61 anos fazendo sociologia. Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver. Eu posso só lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia. Um se refere a quais são as dimensões do divórcio entre poder e política. Porque se esse for o caso, então, o Estado, a única instituição política que temos - nós não temos uma instituição política global. O Estado não tem poder suficiente para realizar todas as promessas que os estados 50 anos atrás fizeram aos cidadãos.
E essa foi a era de ouro da democracia. Nos 30 anos do pós-guerra ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal. Agora a democracia está em decadência. Cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa. E têm dúvidas a respeito da qualidade da democracia. Por quê? Simplesmente porque o Estado, relativamente sem poder, consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos. O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isto é, o que a maioria dos Estados está fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar.
Quem sabe, talvez, talvez - aqui já estou envolvido em profecia - nós inventemos uma democracia global em algum momento. E essa seria uma solução radical, principalmente, porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo? Então teremos que inventar... Eu não, eu estou muito velho, mas você [apontando para o entrevistador] terão que inventar um equivalente global das invenções dos nossos antepassados. Eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional, parlamentos, parlamentos modernos. Eles inventaram a jurisdição, e não leis locais, habituais, tradicionais, o direito consuetudinário, mas um código de direito unificado para todo o país. Eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.
Se Aristóteles fosse convidado a ir a um prédio de qualquer parlamento contemporâneo... Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito da democracia, a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem, depois votam, chegam a algum acordo. Ele gostaria. Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia. Ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era apenas as pessoas indo ao mercado, brigando entre si e chegando a uma resolução. O que significa que a democracia é uma noção que adquire, com o tempo, na história, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.
Então, uma coisa que eu posso ter certeza é de que, se vocês realmente inventarem equivalentes globais para a democracia do Estado-nação, então, será uma democracia, certo, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos, [serão] maiores. Não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos de democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.
O problema da autonomia indivudual
[E, então*]Castoriadis** prossegue e diz que o indivíduo autônomo e a comunidade autônoma – politike – só podem existir juntos. Um precisa do outro. Você não pode ser um indivíduo numa sociedade tirana. Numa sociedade totalitária nós realmente não somos indivíduos. Deve haver uma cooperação mútua entre as duas economias. [Isso que ele disse] Foi muito bonito. Mas o perigo veio de um lado inesperado. Quando Custoriadis escreveu suas palavras, ele as escreveu contra o totalitarismo da época. Bem, de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado [...], mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera pública.
George Orwell, de forma memorável, colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”. Muito bem. Isso era um perigo, sem dúvida alguma. Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo. Nós realmente não temos mais medo, como acontecia na minha juventude de a individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima, como a polícia secreta etc. Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados se formos comparar. Entretanto, o perigo para essa autonomia veio do outro lado. (continua no próximo post)
*No vídeo se ouve “And then, Castoriadis...”, mas na legenda não aparece esse “And then - E então”, deixando perceber que houve um corte.
**Cornelius Castoriadis, em grego Κορνήλιος Καστοριάδης (1922 -1997), filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega, defensor do conceito de autonomia política (ndr/wikepedia)
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