quinta-feira, 24 de junho de 2010

Direito como Lei divina ou como poder do indivíduo sobre si mesmo?

A partir do fim da Idade Média e do início do Renascimento, tal concepção do Direito [como Lei divina] começa a mudar, acompanhando a "virada antropocêntrica", que afeta todos os campos do saber humano. A Modernidade instaura uma ruptura com a maneira de viver e e de pensar do mundo antigo e medieval,que encontra seu ponto de mutação entre os séculos XVI e XVII. O Direito tende, então, a ser identificado com o domínio (dominium), que, por sua vez, é definido como uma faculdade (facultas) ou um poder (potestas) do sujeito sobre si mesmo e sobre as coisas. Nasce, então, a concepção subjetiva dos direitos naturais, que desvinucla e liberta progressivamente o indivíduo da sujeição a uma ordem natural e divina objetiva e confere-lhe uma dignidade e um poder próprio e original, quase ilimitado, ou melhor, limitado somente pelo poder igualmente próprio e original do outro indivíduo, sob a égide da lei e do contrato social.(Trecho do ensaio "A Fraternidade é uma categoria política", de Giuseppe Tosi, no livro "O Princípio Esquecido", vol.2 (Editora Cidade Nova)

domingo, 20 de junho de 2010

Uma nova mídia só emplaca se mexer com o nosso cotidiano

É interessante quando um livro vai além do próprio conteúdo. É o caso de A Nova Mídia (1997,Zahar, 1998), de Wilson Dizard,consultor de políticas de informação do Departamento de Estado dos EUA - pelo menos na época da publicação do livro. A obra dá conta das mudanças tecnológicas, de mercado, culturais e sociais na mídia. Lógico, falava da situação no final dos anos1990 sem dar tanto relevo,inclusive, à Internet, mas revelava uma dinâmica paradigmática da evolução da economia política dos meios de comunicação na substituição das mídias: uma nova tecnologia midiática emplaca apenas se influenciar práticas culturais, ou seja, se mexer com o cotidiano das pessoas. Aí ganha importância mercadológica, beneficiando os setores/empresas que as desenvolveram, e prejudicando os que não sabem assimilar essa nova mídia. Publicado originalmente em 1997, A Nova Mídia nem mencionou palavras como twitter, facebook ou I pad mas quase profetizou a forma como essas mídias estão revolucionando o mercado, as comunicações e as nossas vidas.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O poema que sustentou Mandela em 27 anos de prisão

Segundo o blog Sobre Vivendo (http://sobre-vivendo.blogspot.com/2010/06/filme-invictus.html), Invictus - que dá nome ao filme de Clint Eastwood sobre a história de como Nelson Mandela uniu brancos e negros da África do Sul por meio do rugby - é um poema do poeta inglês William Ernest Henley (1849-1903), escrito em 1875 e publicado pela primeira vez em 1888.

E as palavras de Invictus foram um dos sustentos de Mandela nos 27 anos de prisão. Pra compartilhar com quem não viu o filme e pra recordar com viu:

Sob o manto da noite que me cobre
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
Por minha alma indomável
Nas garras cruéis das circunstâncias
Não tremo nem me desespero
Golpeado pelo destino
Minha cabeça sangra
Mas não se curva
Além deste lugar de raiva e choro
Paira somente o horror das sombras
Ainda assim, a ameaça do tempo
Vai me encontrar
E deve me achar
Destemido
Não importa se o portão é estreito
Não importa o tambanho do castigo
Sou o senhor do meu destino
Sou o capitão da minha alma

sábado, 12 de junho de 2010

Link de Apresentação da Rede de Comunicadores Net One

Pessoal, este é um vídeo de apresentação da Net One, a Rede de Comunicadores de que participo. Vale a pena conferir!
Abraços!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Machado 1: Euforia financeira no Rio Antigo

Bem-vindos ao meu blog, (improváveis) convidados do twitter e demais amigos que por essa amizade ou interesse pelo assunto chegaram até aqui.

No texto abaixo, do capítulo “Um Eldorado”, de Esaú e Jacó, Machado de Assis descreve a efervescência econômica e financeira do Rio Antigo (de sua época). Quase um poema, o trecho descreve uma nação que começa, como outras, festeja o declínio da tradição (que se quer esquecer, como à escravidão); e saúda a modernidade, que só tinha o nome de progresso, que se deslumbra e se seduz com as maravilhas do mercado, cujas ações adquirem “vida”, “alma”, religiosidade e imortalidade. Mais uma bela lição de como escrever e, um pouco, uma profecia que nos deixa o Bruxo do Cosme Velho. (Aliás, aproveitem para ver no post anterior a poesia que originou esse apelido ao maior escritor brasileiro, com uma pequena introdução - perdoem-me, pois é do Wikipedia; mas é coerente e aparentemente confiável)

Com vocês, afinal, o texto prometido:

“A capital oferecia aos recém-chegados um espetáculo magnífico. Vivia-se dos restos daquele deslumbramento e agitação, epopéia de ouro da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das empresas e companhias de toda espécie. Quem não viu aquilo não viu nada. Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos , fábricas, minas, estaleiros, navegação , edificação, exportação , importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões , todas a regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organizadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas públicas, os títulos sucediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a princípio não era frouxo. Cada ação trazia vida intensa e liberal alguma vez imortal, que se multiplicava daquela outra vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as nações a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos”.

Machado 2: Por que Bruxo do Cosme Velho?

Bruxo do Cosme Velho é um epíteto consagrado a Machado de Assis. O termo ganhou força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou o poema: "A um bruxo, com amor", no qual o poeta fez referência à casa (número 18) da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis. O poema toma a casa como ponto de partida, como um passaporte para a proximidade com Machado, e, a partir daí, faz um "passeio" pela obra do autor, do geral ao particular, sem, para tanto, manifestar uma loa ao homenageado, mas uma admiração profunda e respeitosa ao "bruxo".

ÍNTEGRA:

A UM BRUXO, COM AMOR

Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.



Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O desafio do futuro já presente

As conquistas da tecnologia ao mesmo tempo fascinam e decepcionam, mas o sentido da vida em nossa sociedade pode ser encontrado na busca comunitária do bem de cada pessoa

Marcello Riella Benites


Já estamos no futuro. Tal impressão não é rara. A publicidade frequentemente atribui essa vantagem a muitos produtos. E o acesso a bens tecnológicos sempre mais surpreendentes chega a nos convencer que é verdade. Existe de fato uma parcela da população mundial que, embora pequena, dispõe de tudo que desde os antigos gregos a humanidade sonhou e desenvolveu. E muitos de nós, em maior ou menor grau, talvez estejamos incluídos nesse grupo. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman lembra que com a era moderna o ser humano “ganhou alguma coisa mas perdeu em troca alguma coisa”. Inadiável, portanto, “o dever de casa” de descobrirmos o que fazer e para onde caminharmos após essas perdas e ganhos da modernidade.

Foi essa mesma modernidade que consolidou um domínio bastante significativo do homem sobre a natureza. Esse domínio ficou cada vez mais patente a partir da virada do século XIX para o XX. O projeto da modernidade previa, em linhas muito gerais, que seríamos felizes nos emancipando da religião e da tentação do poder; nos sustentaríamos eticamente e socialmente pelos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade; e usufruiríamos das coisas boas da vida ancorados na cultura, na ciência e na tecnologia; tudo isso baseado e impulsionado pelo progresso e pelo crescimento da riqueza econômica.

Embora haja estudiosos afirmando que alguns cantos do mundo já entram na pós-modernidade, a única coisa de que podemos ter certeza é que o projeto moderno atingiu, para o bem e para o mal, os patamares extremos de suas possibilidades. É esse o quadro descrito no livro “A Sociedade em Rede” (Paz e Terra), do espanhol Manuel Castells, sociólogo e professor da Universidade de Berkley (EUA), que pode ser bastante útil na tarefa de nos situarmos e buscarmos o sentido de nossas vidas nesse nosso “admirável mundo novo”.

A tese de “A Sociedade em Rede” é que existe um novo “modo de desenvolvimento” dentro do já secular “modo de produção” capitalista. Trata-se do “informacionalismo”, ou seja, a produção econômica potencializada vertiginosamente pela informação e pelo conhecimento. A tecnologia é a ferramenta fundamental do informacionalismo. Seu domínio condiciona decisivamente a relação de poder entre os países. Na sua vertente informática, a tecnologia dinamiza todos os processos produtivos, desde as máquinas até a administração. Aliada às comunicações sociais, Internet à frente, a tecnologia provoca uma revolução cultural.

Todas essas mudanças configuram a “sociedade em rede”, na qual, em nível econômico, diminui a importância do modelo fordista/taylorista de produção em série e forte hierarquia vertical, com centros de comando e produção muito fixos e permanentes, o que se reflete também nas relações sociais.

E o nosso dia-a-dia de pessoas comuns, o que tem a ver com isso? É que essa sociedade funciona “em rede” não só no aspecto produtivo. A própria vida das pessoas passa a ser “em rede”. É o princípio da Internet, que surgiu como ferramenta militar de comunicação na década de 60, nos EUA, para ser uma rede que não pudesse ser destruída pela extinta URSS, já que não possuía um nó central de comando do qual o todo dependesse. Destruído um nó, a rede continuaria a funcionar a partir dos demais nós da rede. Em nossa sociedade, cada empresa, cada país, cada cidade, cada pessoa é um nó dessa rede. Os nós estão sempre ligados, mas são autônomos, independentes e, no final das contas, solitários.



Castells demonstra que a tecnologia e o mercado imprimem as mudanças características da sociedade em rede nos mais diferentes aspectos da nossa vida. A influência do tempo sobre nosso dia-a-dia se transforma profundamente devido à evolução dos transportes e das comunicações, configurando um tempo “atemporal. O espaço, no qual “tudo flui” – veículos, pessoas, mercadorias - se torna um espaço “de fluxos”. A família e a sexualidade também são afetadas na medida em que nelas se infiltra a fragmentação, a competição e a disputa típicas de todas as relações na sociedade em rede. E até mesmo a nossa relação com a morte é modificada ao passo que pelo avanço da medicina já se consegue adiar cada vez mais eficazmente o próprio fim da vida.

Importante nas relações pessoais da sociedade em rede é a questão do exercício do poder. Mesmo se as relações formais de hierarquia ficam relativizadas, o estado permanece como base do exercício do poder, possuindo a prerrogativa da violência institucionalizada (as guerras na política externa, e a repressão na política interna). Predomina também, no entanto, o que Michel Foucault chama de “microfísica do poder”, um poder disperso em instituições e organizações fechando as pessoas “numa estrutura rigorosa de deveres formais e agressões informais”.

Contraponto desse caráter repressor da sociedade em rede pode ser a indicação de Castells de que “nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser”. Embora a rede (sociedade) se imponha sobre o ser (indivíduo), “devemos nos lembrar de que a busca de identidade [pelo indivíduo] é tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica (...)”, como diz o autor. Aqui refletimos sobre o fato de que a autêntica “busca de identidade” ocorre num processo comunitário. E identificamos a busca da identidade como busca do sentido da vida. Arriscamos dizer que Castells pareceria colocar seu livro a serviço dessa busca quando afirma a existência de um “poder libertador da identidade”, enquanto sustenta que “observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo diferente e melhor”.

A busca da própria identidade e do sentido para a vida, dentro de processo comunitário parece, nessa linha de raciocínio, grande motivação para teorizar sobre nossa sociedade em rede. É necessário que o esforço de teorizar esteja aliado à sua utilidade para a vida de todas as pessoas. No caso da nossa vida (pós?) moderna, a teoria é válida para desvendar os mecanismos que enfraquecem o “ser” em sua relação com o que há de dominador na “rede”. A busca de sentido para a vida, agora vinculada não mais ao consumo, ao lucro e à produção, mas ao bem da comunidade – e portanto, ao bem de cada pessoa – parece-nos a escolha que afasta os medos e potencializa as vantagens da sociedade em rede.

Assim, e só assim, a impressão de estar no futuro não é mais a desilusão com progressos tecnológicos que, mesmo eficazes, não geram felicidade; o “futuro-já-presente” não lembra mais, por exemplo, os medos da crise financeira mundial, do fim do (meu, do seu, do nosso) emprego. Ao contrário, a alegria das conquistas humanas pode ser partilhada, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, com as demais pessoas, que passam à nossa frente neste momento ou que enfrentam situações difíceis nos mais remotos cantos do planeta. E essa é uma tarefa e um caminho que pode, aliás, urge começar agora.