terça-feira, 1 de junho de 2010

Machado 1: Euforia financeira no Rio Antigo

Bem-vindos ao meu blog, (improváveis) convidados do twitter e demais amigos que por essa amizade ou interesse pelo assunto chegaram até aqui.

No texto abaixo, do capítulo “Um Eldorado”, de Esaú e Jacó, Machado de Assis descreve a efervescência econômica e financeira do Rio Antigo (de sua época). Quase um poema, o trecho descreve uma nação que começa, como outras, festeja o declínio da tradição (que se quer esquecer, como à escravidão); e saúda a modernidade, que só tinha o nome de progresso, que se deslumbra e se seduz com as maravilhas do mercado, cujas ações adquirem “vida”, “alma”, religiosidade e imortalidade. Mais uma bela lição de como escrever e, um pouco, uma profecia que nos deixa o Bruxo do Cosme Velho. (Aliás, aproveitem para ver no post anterior a poesia que originou esse apelido ao maior escritor brasileiro, com uma pequena introdução - perdoem-me, pois é do Wikipedia; mas é coerente e aparentemente confiável)

Com vocês, afinal, o texto prometido:

“A capital oferecia aos recém-chegados um espetáculo magnífico. Vivia-se dos restos daquele deslumbramento e agitação, epopéia de ouro da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das empresas e companhias de toda espécie. Quem não viu aquilo não viu nada. Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos , fábricas, minas, estaleiros, navegação , edificação, exportação , importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões , todas a regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organizadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas públicas, os títulos sucediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a princípio não era frouxo. Cada ação trazia vida intensa e liberal alguma vez imortal, que se multiplicava daquela outra vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as nações a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos”.

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