sexta-feira, 28 de maio de 2010

O desafio do futuro já presente

As conquistas da tecnologia ao mesmo tempo fascinam e decepcionam, mas o sentido da vida em nossa sociedade pode ser encontrado na busca comunitária do bem de cada pessoa

Marcello Riella Benites


Já estamos no futuro. Tal impressão não é rara. A publicidade frequentemente atribui essa vantagem a muitos produtos. E o acesso a bens tecnológicos sempre mais surpreendentes chega a nos convencer que é verdade. Existe de fato uma parcela da população mundial que, embora pequena, dispõe de tudo que desde os antigos gregos a humanidade sonhou e desenvolveu. E muitos de nós, em maior ou menor grau, talvez estejamos incluídos nesse grupo. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman lembra que com a era moderna o ser humano “ganhou alguma coisa mas perdeu em troca alguma coisa”. Inadiável, portanto, “o dever de casa” de descobrirmos o que fazer e para onde caminharmos após essas perdas e ganhos da modernidade.

Foi essa mesma modernidade que consolidou um domínio bastante significativo do homem sobre a natureza. Esse domínio ficou cada vez mais patente a partir da virada do século XIX para o XX. O projeto da modernidade previa, em linhas muito gerais, que seríamos felizes nos emancipando da religião e da tentação do poder; nos sustentaríamos eticamente e socialmente pelos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade; e usufruiríamos das coisas boas da vida ancorados na cultura, na ciência e na tecnologia; tudo isso baseado e impulsionado pelo progresso e pelo crescimento da riqueza econômica.

Embora haja estudiosos afirmando que alguns cantos do mundo já entram na pós-modernidade, a única coisa de que podemos ter certeza é que o projeto moderno atingiu, para o bem e para o mal, os patamares extremos de suas possibilidades. É esse o quadro descrito no livro “A Sociedade em Rede” (Paz e Terra), do espanhol Manuel Castells, sociólogo e professor da Universidade de Berkley (EUA), que pode ser bastante útil na tarefa de nos situarmos e buscarmos o sentido de nossas vidas nesse nosso “admirável mundo novo”.

A tese de “A Sociedade em Rede” é que existe um novo “modo de desenvolvimento” dentro do já secular “modo de produção” capitalista. Trata-se do “informacionalismo”, ou seja, a produção econômica potencializada vertiginosamente pela informação e pelo conhecimento. A tecnologia é a ferramenta fundamental do informacionalismo. Seu domínio condiciona decisivamente a relação de poder entre os países. Na sua vertente informática, a tecnologia dinamiza todos os processos produtivos, desde as máquinas até a administração. Aliada às comunicações sociais, Internet à frente, a tecnologia provoca uma revolução cultural.

Todas essas mudanças configuram a “sociedade em rede”, na qual, em nível econômico, diminui a importância do modelo fordista/taylorista de produção em série e forte hierarquia vertical, com centros de comando e produção muito fixos e permanentes, o que se reflete também nas relações sociais.

E o nosso dia-a-dia de pessoas comuns, o que tem a ver com isso? É que essa sociedade funciona “em rede” não só no aspecto produtivo. A própria vida das pessoas passa a ser “em rede”. É o princípio da Internet, que surgiu como ferramenta militar de comunicação na década de 60, nos EUA, para ser uma rede que não pudesse ser destruída pela extinta URSS, já que não possuía um nó central de comando do qual o todo dependesse. Destruído um nó, a rede continuaria a funcionar a partir dos demais nós da rede. Em nossa sociedade, cada empresa, cada país, cada cidade, cada pessoa é um nó dessa rede. Os nós estão sempre ligados, mas são autônomos, independentes e, no final das contas, solitários.



Castells demonstra que a tecnologia e o mercado imprimem as mudanças características da sociedade em rede nos mais diferentes aspectos da nossa vida. A influência do tempo sobre nosso dia-a-dia se transforma profundamente devido à evolução dos transportes e das comunicações, configurando um tempo “atemporal. O espaço, no qual “tudo flui” – veículos, pessoas, mercadorias - se torna um espaço “de fluxos”. A família e a sexualidade também são afetadas na medida em que nelas se infiltra a fragmentação, a competição e a disputa típicas de todas as relações na sociedade em rede. E até mesmo a nossa relação com a morte é modificada ao passo que pelo avanço da medicina já se consegue adiar cada vez mais eficazmente o próprio fim da vida.

Importante nas relações pessoais da sociedade em rede é a questão do exercício do poder. Mesmo se as relações formais de hierarquia ficam relativizadas, o estado permanece como base do exercício do poder, possuindo a prerrogativa da violência institucionalizada (as guerras na política externa, e a repressão na política interna). Predomina também, no entanto, o que Michel Foucault chama de “microfísica do poder”, um poder disperso em instituições e organizações fechando as pessoas “numa estrutura rigorosa de deveres formais e agressões informais”.

Contraponto desse caráter repressor da sociedade em rede pode ser a indicação de Castells de que “nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser”. Embora a rede (sociedade) se imponha sobre o ser (indivíduo), “devemos nos lembrar de que a busca de identidade [pelo indivíduo] é tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica (...)”, como diz o autor. Aqui refletimos sobre o fato de que a autêntica “busca de identidade” ocorre num processo comunitário. E identificamos a busca da identidade como busca do sentido da vida. Arriscamos dizer que Castells pareceria colocar seu livro a serviço dessa busca quando afirma a existência de um “poder libertador da identidade”, enquanto sustenta que “observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo diferente e melhor”.

A busca da própria identidade e do sentido para a vida, dentro de processo comunitário parece, nessa linha de raciocínio, grande motivação para teorizar sobre nossa sociedade em rede. É necessário que o esforço de teorizar esteja aliado à sua utilidade para a vida de todas as pessoas. No caso da nossa vida (pós?) moderna, a teoria é válida para desvendar os mecanismos que enfraquecem o “ser” em sua relação com o que há de dominador na “rede”. A busca de sentido para a vida, agora vinculada não mais ao consumo, ao lucro e à produção, mas ao bem da comunidade – e portanto, ao bem de cada pessoa – parece-nos a escolha que afasta os medos e potencializa as vantagens da sociedade em rede.

Assim, e só assim, a impressão de estar no futuro não é mais a desilusão com progressos tecnológicos que, mesmo eficazes, não geram felicidade; o “futuro-já-presente” não lembra mais, por exemplo, os medos da crise financeira mundial, do fim do (meu, do seu, do nosso) emprego. Ao contrário, a alegria das conquistas humanas pode ser partilhada, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, com as demais pessoas, que passam à nossa frente neste momento ou que enfrentam situações difíceis nos mais remotos cantos do planeta. E essa é uma tarefa e um caminho que pode, aliás, urge começar agora.

Um comentário:

  1. Não conheço a obra de Castells; penso que estamos ainda engatinhando sobre as possibilidades das comunidades em rede. Chiara nos ensina a não ter medo da tecnologia, mas aproveitar suas potencialidades.
    A Internet, os grupos e outros meios de comunicação potencializaram muito a comunicação. Podemos aproveitar; porém, tudo tem um preço, temos a sensação de não ter o tempo necessário para dar conta da nova situação.

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