quinta-feira, 22 de abril de 2010

Comentários sobre o texto "O conflito à luz do carisma da unidade"

Abaixo, transcrevo meus comentários sobre o texto da socióloga Vera Araújo proposto para discussão em reunião do Conselho Editorial da Revista Cidade Nova, texto que inseri na íntegra no post anterior.

Caríssimos, gostaria de partilhar com vocês as reflexões que fiz acerca do texto “O conflito à luz do carisma da unidade”.

Primeiramente, considerei muito acertada a escolha do assunto, pois, além de na Revista Cidade Nova tratarmos de situações conflituosas da sociedade, deparamos com o conflito desde as nossas relações mais íntimas às mais abertas, do casal, com os filhos, até o Focolare, do trabalho, condomínio, paróquia, bairro, até a cidade, e a sociedade brasileira (aí vêm as eleições) e global. Para não ter de construir um texto, optei por destacar trechos da exposição de Vera Araújo, que aparecerão sublinhados, e comentá-los. Aí vai:

“Para resumir em poucas palavras o que já foi dito a esse respeito neste Congresso, podemos indicar sumariamente duas posições, duas grandes orientações ou modos diferentes de ver os conflitos por parte das diversas teorias e correntes sociológicas que contêm, obviamente, muitos matizes e enfoques diferentes. Uma delas vê os conflitos como fenômenos patológicos, como sintomas de uma doença do corpo social, como indicações de desvios nas relações sociais.Uma segunda, ao invés, considera os conflitos como formas normais da interação que contribuem para a conservação, para o desenvolvimento, para as necessárias mudanças e para o conjunto dos equilíbrios dos setores sociais. É suficiente para mim destacar que a teoria do conflito e a da integração, não só não devem ser consideradas sistemas interpretativos contrapostos, que se excluem reciprocamente, mas, pelo contrário, devem ter cidadania plena como componentes de uma teoria sociológica geral que tem a missão, não só de descrever os fenômenos sociais, mas também de compreendê-los e de transformá-los”.

Aqui Vera Araújo, emprega já, na minha opinião, o método por excelência do intelectual que deseja servir à unidade, ao dizer que as duas linhas, a do conflito e a da integração, não devem ser vistas como contrapostas. Então é importante evitar a tendência de sempre assumir, a priori, um lado ou outro das disputas - por favor, atenção para o negrito/itálico em a priori.

“(...) o grande desafio, para a construção de uma sociedade civil e vivível, é encontrar as motivações e as capacidades de transformar a dialética conflitual de violência, contraste e contraposição, numa dinâmica de empatia, harmonia e cooperação.”

Penso que é interessante ver aqui como Vera parece apresentar a “dialética conflitual da violência” como estratégia a ser transformada. Ela explicíta: “conflitual da violência”. Mas eu me pergunto, e coloco a pergunta para o Conselho: Será que a dialética, pura e simples, como concepção filosófica (Hegel, Marx), não é um conceito que fere no âmago a fraternidade? Na minha opinião, ela se difundiu no senso comum como “visão crítica”, como pretenso instrumento de melhoria e transformação da realidade. Mas é, na verdade, grande geradora de embates não fraternos, pois parece trazer em si um projeto de dominação e poder. O que acham?

“De que modo o carisma da unidade, na riqueza de sua doutrina espiritual e na sua aplicação feita pelos seus membros em situações sociais muito variadas e universais, pode oferecer um modelo ou até mesmo um paradigma para a construção de modelos teóricos, de estratégias de busca empírica e de esquemas de aplicações inovadores?

Do esforço que venho fazendo em ler a elaboração teórica dentro do Movimento acerca da fraternidade, penso que do que foi publicado, Antonio Maria Baggio é quem mais desenvolveu na reflexão e na aplicação prática as inspirações de Chiara Lubich. Transcrevo aqui trechos que expus na “discussão-diálogo” que tivemos via Internet no Grupo Frat&Mídia, por ocasião da polêmica do diploma de jornalismo, em que houve contraposições mesmo entre nós “comunicadores da unidade”. Na seção “competição fraterna” do livro “Reflexões para a vida pública”, Baggio afirma:

“A competição será verdadeira e útil se as diversas culturas e os diversos programas políticos forem definidos com clareza; as ideias não devem ser adocicadas. (...) construir propostas sólidas e argumentadas (...) já é um ato de amor (...)” (p. 41)

E propõe também a “a superação da idéia de ‘inimigo’”:

“O que há de bom no seu desígnio [do outro] deveria ser tão importante para mim quanto o que há de bom no meu, pois só consigo atingir meu objetivo se também todos os outros conseguirem atingi-lo”.

Enfatizando, porém, que “fenômenos políticos essencialmente negativos portadores de terror, de ditadura e de violência” requerem a “crítica e a oposição concreta e declarada inclusive perante os próprios aliados”. (p.35)

E ao concluir essa seção, Baggio sustenta:

“Podemos facilmente ser acusados de ingenuidade por sustentarmos essas ideias. Foi o que aconteceu com o primeiro político do Movimento [dos Focolares] Igino Giordani [segue no livro nota de pé de pagina sobre Giordani]. Mas justamente pela pureza de sua opção, a figura e o pensamento dele continuam, ainda hoje, a fascinar muitos jovens (...)”. (p. 36)

e ainda:

“É chegado o momento de cumprir, ou renovar, esse ato de amor com o qual nós nos doamos à polis. A ingenuidade não o torna menos verdadeiro e menos necessário. Que esses ‘ingênuos’ aprendam a se reconhecerem entre si e a apoiarem-se concretamente, na esfera privada e na pública, para além das diferentes filiações partidárias. Se vivermos a fraternidade entre nós, vamos nos tornar, juntos, guardiões do desígnio comum, viveremos já entre nós a realidade da unidade que queremos levar à humanidade”, conclui Antonio Maria Baggio, na mesma página.

“O Espírito Santo ensinou Chiara a levar até às últimas conseqüências o seu "ler", "interpretar" e "resolver" os males do mundo – todos – à luz do abandono de Jesus.”

Comento pouco acerca desse trecho em que Vera lembra que Chiara apresenta Jesus Abandonado como “segredo” e “chave” para “ler”, “interpretar” e “resolver” (belíssima e já bem-sucedida ousadia) os males do mundo. Mas destaco que considero este o ponto alto do texto. Na minha opinião, “levar até às últimas consequências” esse método é uma exigência de quando os conflitos NOS ENVOLVEM EM PRIMEIRA PESSOA.


“Graças a esta dinâmica, o cientista social da unidade não será mais um espectador "avaliador" (para usar uma expressão de Max Weber), neutro e separado da realidade para a qual trabalha. Ele, para ser autêntico, é uma pessoa "envolvida", "implicada" na realidade que pede o seu compromisso profissional ”.

Sobre essa reflexão acerca do papel do intelectual, “o cientista social” – aqui substituímos para o “papel do comunicador”, o “papel do membro do Conselho Editorial de Cidade Nova” - recordo-me do conceito de “intelectual orgânico” proposto por Antonio Gramsci, que criticava o stalinismo, opondo o conceito de “hegemonia” ao de “luta de classes”: não mais o militante brilhante e erudito que acusava de ignorante e ingênuo o proletariado hesitante em formar fileiras para tomar o poder; e, sim, o intelectual que vivia “organicamente” junto ao povo percebendo e valorizando suas estratégias, embora não conflituosas, de se aproximar da “hegemonia” e nesse caminho transformar aos poucos a sociedade injusta. Não sei se estou “forçando a barra” mas lembro aqui de Chiara quando fala “de homem ao lado do homem” e até do “fazer-se um”, conceito que Vera mesma citará mais à frente, apresentando como estratégia fundamental na abordagem dos conflitos à luz da unidade.

“Franco Ferrarotti escreveu muito bem: «O que hoje parece (...) necessário, é a passagem das culturas presumivelmente imperiais e onipotentes para o diálogo entre as culturas. Na situação atual as culturas não podem evitar o encontro e também um certo grau de "mistura" intercultural”.

Com relação a esse trecho, comento aqui a leitura que fiz de “Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade”, de Néstor Garcia Canclini. Argentino naturalizado mexicano, Canclini acrescentaria ao texto de Vera a denúncia à mentalidade de que as culturas erudita, popular e massiva existem como categorias “puras”, uma mentalidade de exclusão: simplificando muito, quem é erudito exclui as classes que vivenciam a cultura popular e a cultura massiva. Tal mentalidade seria a origem de muitos embates não fraternos em nossa sociedade.

Mas a reflexão central acerca da cultura neste texto de Vera é a denúncia do conceito de “choque de civilizações”, difundido, como sabemos, por meio do livro homônimo de Samuel Huntington, cujas con sequências podem ter sido um dos maiores males causados por um livro na história recente da humanidade.

“Este dinamismo do "fazer-se um" nunca é automático e muito menos instantâneo. Pelo contrário, segundo a diversidade e a variedade das personalidades e dos contextos em que se opera, exige ritmos e tempos diferentes. Ritmos e tempos não vazios, mas impregnados de atitudes e valores como a paciência, a expectativa, a espera, a vigilância, e também o controle, a avaliação e a capacidade de intervir no momento oportuno”.

Penso que eu nem precisaria comentar esse penúltimo parágrafo, tão brilhante, do texto de Vera. Mas enfatizo que os “ritmos e tempos” que o “fazer-se um” exige são “não vazios”, na minha opinião, também porque, do momento em que empreendemos essa caminhada de aposta na fraternidade, a conflituosidade já começa a arrefecer.

Grande abraço a todos!
Marcello

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