quinta-feira, 22 de abril de 2010

O conflito à luz do carisma da unidade

Vera Araújo

(Texto proposto para discussão na reunião do Conselho Editorial da Revista Cidade Nova em 22/4/10, da qual não participei. Mas enviei minha reflexão a respeito que vou inserir no meu próximo post).

Não há dúvida de que o conflito é um dos temas freqüentes na Sociologia, um dos mais estudados e aprofundados, porque está relacionado ao problema da ordem e da mutação, colunas principais do conhecimento sociológico.
Para livrar o campo de equívocos e mal-entendidos, é preciso afirmar imediatamente que não cabe à Sociologia indagar as causas ontológicas do conflito, mas, sobretudo constatar a sua presença na vida social, identificar e analisar as suas causas (funcionais, comportamentais, organizativas, ambientais, estruturais), além dos seus efeitos, da sua dinâmica e, possivelmente, da sua solução.
Olhando dessa perspectiva, concordo com Coser, quando afirma que: «A existência de conflitos no interior de um grupo e entre eles é uma característica perene da vida social, um componente essencial da interação em cada sociedade conhecida» .
Constatar a existência dos conflitos na convivência social, entre indivíduos, grupos, associações, comunidades, setores de interesse, Estados, etnias, culturas, foi e continua sendo uma contribuição que a Ciência Sociológica dá para a compreensão da interação e da integração social.
Para resumir em poucas palavras o que já foi dito a esse respeito neste Congresso, podemos indicar sumariamente duas posições, duas grandes orientações ou modos diferentes de ver os conflitos por parte das diversas teorias e correntes sociológicas que contêm, obviamente, muitos matizes e enfoques diferentes.
Uma delas vê os conflitos como fenômenos patológicos, como sintomas de uma doença do corpo social, como indicações de desvios nas relações sociais.
Uma segunda, ao invés, considera os conflitos como formas normais da interação que contribuem para a conservação, para o desenvolvimento, para as necessárias mudanças e para o conjunto dos equilíbrios dos setores sociais.
Não desejo, nem é o meu interesse, inclusive porque já foi feito na mesa redonda precedente, penetrar nas posições de Marx, de Simmel, de Weber ou de outros autores sobre a função do conflito na vida da sociedade.
É suficiente para mim destacar que a teoria do conflito e a da integração, não só não devem ser consideradas sistemas interpretativos contrapostos, que se excluem reciprocamente, mas, pelo contrário, devem ter cidadania plena como componentes de uma teoria sociológica geral que tem a missão, não só de descrever os fenômenos sociais, mas também de compreendê-los e de transformá-los.
Isso significa que o problema não é tanto aquele de eliminar os conflitos da vida social (muitos consideram isso uma tentativa destinada ao fracasso), mas de compreender quando o conflito torna-se prejudicial ou disfuncional para o benesse social. Mas isso não basta: o grande desafio, para a construção de uma sociedade civil e vivível, é encontrar as motivações e as capacidades de transformar a dialética conflitual de violência, contraste e contraposição, numa dinâmica de empatia, harmonia e cooperação.
Isso exige um conhecimento teórico e prático da essência dos atores sociais e dos processos que os envolvem na construção de uma convivência social harmoniosa e feliz, dinâmica e em crescimento.
Este conhecimento não pode ser só sociológico. Ele é metasociológico e chama em causa outras ciências humanísticas e sociais como a antropologia, a psicologia, a filosofia, a economia, as Ciências políticas, a teologia, etc.

De que modo o carisma da unidade, na riqueza de sua doutrina espiritual e na sua aplicação feita pelos seus membros em situações sociais muito variadas e universais, pode oferecer um modelo ou até mesmo um paradigma para a construção de modelos teóricos, de estratégias de busca empírica e de esquemas de aplicações inovadores?
Que indicações pode nos oferecer para a compreensão dos mecanismos conflituais e para descobrir a possibilidade concreta de passar para uma etapa sucessiva de crescimento e de progresso?
Para ter uma resposta exaustiva acerca dessas questões serão necessários anos, décadas, ou até mesmo séculos de estudos e de experimentação.
Gostaria de indicar alguns pontos de interesse para a nossa reflexão e a nossa praxe.
Vamos partir de um dado bíblico, mas da nossa perspectiva sociológica, conscientes de que, se para os cristãos a Bíblia constitui o texto fundamental da sua fé, nela todos os seres humanos podem encontrar uma fonte de ensinamentos aceitáveis também a nível social, pela sua validade humanística e axiológica.

• O ensinamento bíblico concebe o ser humano como "imagem e semelhança" de Deus (Gn 1,26 ss), isto é, como um ser pessoal, chamado a realizar plenamente a sua capacidade constitutiva de relacionar-se.
«O contexto bíblico da definição do homem como imagem de Deus, autoriza a conceber o homem substancialmente como um ser capaz de viver uma existência relacional. A sua capacidade dialógica enunciada assim, a sua destinação à comunidade e à comunhão plasma de tal modo que a sua consciência a ponto de poder livremente estruturá-la, com uma conseqüente responsabilidade a seu respeito» .
Esta relacionalidade é vivida pelo homem, na narração bíblica, de modo harmonioso e pacífico, alegre e feliz.
«A imagem do casal humano, colocado no jardim, é a imagem de uma harmonia criada a partir da relação com Deus que do nada dá a vida e dá a vida ao homem e à mulher, tornando-os seus interlocutores e colocando-os em diálogo entre eles. Deus cria essas criaturas humanas numa condição de possível e devida interlocução. As imagens do "jardim" exprimem uma terra capaz de fazer o homem viver serena e harmoniosamente (cf Gn 2,8-15). Deus criador não só provê a isso, mas ele mesmo está presente, fala com o homem e faz com que compreendam o sentido da realidade (cf Gn 2,16-18), a ponto de poder governá-la segundo a intencionalidade do próprio Criador (Cf Gn 3,18) .
Chiara Lubich exprime este conhecimento e esta certeza em termos muito claros: tudo o que existe é amor, tudo é substância de amor. Aliás, Deus é amor, Amor Trinitário. Toda a realidade criada é amor, é comunhão de amor. O amor é também a lei do relacionamento entre os seres humanos, da vivência e da convivência, dos processos de crescimento e das mutações, da ordem, do progresso.
«Tudo está enamorado em mim e fora de mim. Sinto que fui criada como um dom para quem está perto de mim e quem está perto de mim foi criado por Deus como um dom para mim (...) Na Terra tudo está em relacionamento de amor com tudo: cada coisa com outra. Mas é preciso ser o Amor para encontrar o fio de ouro entre os seres». (Escritos inéditos).

• Mesmo assim a realidade dos relacionamentos sociais se apresenta a nós, historicamente, na sua dimensão conflituosa com características universais.
Também neste caso o dado bíblico é explicito ao indicar um significado para esta realidade.
A falta de unidade entrou no mundo e a unidade se desfez por causa da desobediência do homem ao projeto originário de Deus. Também a natureza é envolvida e no lugar da harmonia entra o conflito.
«O pecado constitui uma condição histórica de relações que deixaram de ser comunhão. Adão e Eva parecem estar unidos no desejo de construir a própria vida sem depender de Deus (cf Gn 3,1-6). Mas quando a desarmonia com Deus exprime-se na sua tentativa de evitar a sua presença, escondendo-se, também a aparente comunhão entre eles se revela ardilosa. Assim que deve "responder", Adão procura defender-se e, para se desculpar, não hesita em acusar Eva. Dessa relação falsificada deriva a hostilidade da própria terra. Os homens não vivem mais no "jardim", as relações entre eles são de posse e de defesa, com os frutos da morte que logo depois começam a aparecer» (Cf Gn 4,1-6).
Com o pecado – termo com o qual na Bíblia indica a nova situação –, entram no mundo e nas relações humanas o mal, a luta, a violência e o conflito, mas no coração do homem permanecerá para sempre a recordação inconsciente e a saudade do que ele perdeu e o seu vagar pelo mundo, no fundo, nada mais será que a busca do seu destino originário.

• Desta situação não se podia sair nem por uma intuição psicológica, nem por meio de uma construção social e muito menos por meio de uma revolução política. Um dom de amor foi o seu início e nada mais que um dom de amor é o seu "retorno", por meio de um novo nascimento.
O Verbo de Deus – nos diz o ensinamento bíblico no ápice da sua mensagem – assumindo a nossa humanidade realiza aquele "retorno", realiza historicamente a nossa transfiguração.
«Na Encarnação (...) a perdida união do homem com Deus volta a ser realidade. (...) A união com Deus, sendo natural no homem-Deus, poderá estender-se também aos outros homens, quando estiverem unidos fisicamente. E isso não é tudo. Se a sua humanidade está destinada a se tornar uma fonte de santidade para todos, o Homem-Deus deverá transformar totalmente a natureza que adotou e libertá-la de todas as conseqüências do afastamento de Deus» .

• O carisma da unidade nos indica no mistério de Jesus crucificado e abandonado o evento onde tal transformação se realiza plenamente.
O Espírito Santo ensinou Chiara a levar até às últimas conseqüências o seu "ler", "interpretar" e "resolver" os males do mundo – todos – à luz do abandono de Jesus.
«Para amar bem – assim ela afirma –, não identifique nas dificuldades, nas coisas erradas e nos sofrimentos do mundo unicamente males sociais, que devem ser sanados, mas é preciso ver em tudo o semblante de Cristo, que aceitou esconder-se em cada miséria humana» .
Uma análise e uma leitura que levam muito a sério a solidariedade, a identificação do Abandonado com todos os crucificados da terra: «De fato, cada dor física, moral ou espiritual são uma sombra da sua grande dor.
Jesus abandonado é a figura de quem se sente perplexo, hesitante, de quem pergunta por quê? Jesus abandonado é a figura do mudo: não sabe mais falar... De certo modo, Jesus abandonado é também a «figura do cego: não vê, do surdo: não ouve mais. É o cansado que se queixa. Chega à beira do desespero. É o faminto de união com Deus. É a figura do iludido, do medroso, do desorientado, parece fracassado. Jesus Abandonado é a imagem das trevas, da melancolia, do contraste; é a figura de tudo o que é indefinível, que é estranho, porque é um Deus que pede ajuda! É a falta de sentido».
Jesus abandonado é o solitário, o deserdado...
E o que acontece quando se encontram essas figuras vivas de Jesus abandonado? Quando se aproximam de nós aqueles que se assemelham a ele podemos falar-lhe abertamente de Jesus abandonado: "Viu, também Jesus abandonado era como você!" E para todos os que se descobriam semelhantes a Ele e aceitavam compartilhar a sua sorte, eis que ele se tornava: para o mudo, a palavra; para quem não sabe, a resposta; para o cego, a luz; para o surdo, a voz; para o cansado, o repouso; para o desesperado, a esperança; para o faminto, a saciedade; para o iludido, a realidade; para o fracassado, a vitória; para o medroso, a coragem; para o triste, a alegria; para o incerto, a segurança; para o estranho, a normalidade; para o solitário, o encontro; para o separado, a unidade; para o inútil, a única coisa que é útil; o descartado se sente eleito. Jesus Abandonado era para o inquieto, a paz; para o sem teto, a casa; para o expulso, o reencontro. Com Ele, as pessoas se transformam e o absurdo da dor adquire sentido» .
Os cientistas sociais (com esta expressão me refiro a todos aqueles que trabalham em nível teórico, e àqueles que o fazem a nível mais operativo) encontram constantemente situações particulares de sofrimento e de não sentido, onde identificar o semblante de Jesus abandonado.
Ele, Jesus abandonado, é o comprometido, a negação, a rejeição, o dissensão, a estranheza, a necessidade, a desintegração, a alienação, o desvio, a pobreza, a violência, a discriminação, a coerção, a punição, a anomia , a desocupação, a dialética, a desagregação, o conflito.
Tendo a coragem de olhá-lo de frente, chamando-o pelo nome, para amá-lo, ele pode se tornar: o acordo, a afirmação, a acolhida, o consenso, a participação, a abundância, a integração, a identidade, a retidão, a riqueza, a calma, a igualdade, a liberdade, o prêmio, a legalidade, a ocupação, o diálogo, o entrosamento.
Ainda é possível reconhecer e encontrar Jesus abandonado na negatividade que hoje permeia o tecido da vida social, política, econômica, cultural, internacional. Podemos encontrá-lo nas estruturas de pecado, na sede de dinheiro, na prepotência e na sede de poder, nos mecanismos financeiros e monetários injustos e opressivos, nos regimes de governo corruptos, na dilapidação da criação, nas relações sociais antagônicas... O elenco poderia crescer sem parar.

• Mas não basta "ler" e "constatar" a sua presença no mundo. Jesus abandonado se revelou com o verdadeiro "segredo" e a preciosa "chave" para realizar a unidade para transformar o negativo em positivo. Como por uma alquimia divina, a dor amada se resolve em positivo. A divisão, o conflito, a contradição encontram o modo de recompor-se em harmonia, em unidade. É uma experiência de vida que pode se tornar um dado sociológico.
«(Deus) quis fazer de toda a falta de unidade: Amor! Ele se fez homem para amar em forma nova: com a dor; para divinizar a dor, isto é, toda a falta de unidade e resumiu em si todas as dores do mundo, todas as faltas de unidade do universo e as fez: Amor, Deus» (Escrito inédito)
E acrescenta:
«De fato, ficou claro para nós que ele havia sofrido aquela tremenda sensação de abandono, de separação do Pai, exatamente para reunir todos os homens a Deus, separados como estavam dele por causa do pecado, e para reuni-los entre eles. Era evidente, portanto, que aquela dor imensa estava ligada ao mistério da unidade. Não só: mas ele, que não permaneceu no abismo daquele infinito sofrimento mas, com um esforço imenso e inimaginável, voltou a abandonar-se ao Pai – «em tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito» (Lc 23,46) – nos ensinava o modo de nos comportarmos nas várias faltas de unidade, nas separações, nos abandonos e a maneira de superá-los» .
Em outra ocasião Chiara enfatizou: «Jesus abandonado foi aquele que explicou e ajudou a resolver todos os problemas que encontramos na vida, mas sobretudo as faltas de unidade, as divisões, as contraposições, as dilacerações, os traumas, as desarmonias que podiam se apresentar em nós e no meio do mundo» .

• Uma pergunta se impõe nessa altura: de que modo e com que instrumentos os cientistas sociais, que se deixam guiar pelo paradigma da unidade, se colocam diante destas situações de conflito? De que modo ter influência, e não só como atitude pessoal, na sua resolução?

1. Não tentar ignorar ou esconder a existência do conflito nas relações sociais em cada nível. Ele existe e deve ser encarado de frente. Mas para o cientista social da unidade ele tem um rosto e um nome: chama-se Jesus abandonado.
Jesus abandonado, o pendurado no madeiro é o homem que assume todas as faltas de unidade do mundo: «Jesus abandonado é a encarnação da falta de unidade» (Chiara Lubich, escrito inédito). E, como tal, ele é o Deus dos que crêem e dos que não crêem, reduzido a mero homem, menos do que homem.
2. Quando se identificou Jesus abandonado-conflito, deve ser "abraçado", aceito, amado para poder ser transformado.

«Jesus abandonado, abraçado, estreitado a si, desejado como único tudo exclusivo, consumado em um conosco, consumados em um com Ele, feitos dor com Ele Dor: eis tudo. Eis como nos tornamos (por participação) Deus, o Amor» .
Graças a esta dinâmica, o cientista social da unidade não será mais um espectador "avaliador" (para usar uma expressão de Max Weber), neutro e separado da realidade para a qual trabalha. Ele, para ser autêntico, é uma pessoa "envolvida", "implicada" na realidade que pede o seu compromisso profissional .
3. Resumindo, a realidade conflitual deve ser amada para ser superada e resolvida. Mas o que significa para o cientista social da unidade "amar"?
A resposta é simples e ao mesmo tempo complexa. Significa dialogar.
Vivemos numa sociedade complexa, não mais unívoca e ainda menos unitária. Multiplicam-se, no interior da sociedade, dos Estados e entre os Estados uma rede de valores, culturas, religiões, civilizações. Como encontrar um ponto de referência, um esquema que nos permite comunicar?
A resposta é uma só: o diálogo, como meio para lançar pontes entre as partes em contraposição, para atar fios rompidos, reacender a comunicação interrompida, reavivar a interação apagada.
Na situação atual multi-cultural e multiétnica o diálogo não pode mais ser um "acessório", mas se impõe como necessidade.
Franco Ferrarotti escreveu muito bem: «O que hoje parece (...) necessário, é a passagem das culturas presumivelmente imperiais e onipotentes para o diálogo entre as culturas. Na situação atual as culturas não podem evitar o encontro e também um certo grau de "mistura" intercultural. No Ocidente se possui sobre isso uma visão exclusiva e puramente mercantil da troca, de forma que, se alguém ganha alguma coisa, deve existir alguém que perde. É preocupante ter que constatar que intelectuais de fama, que se proclamam liberais, pensam seriamente numa Europa e numa América do Norte "blindadas" Ao invés, é necessário e urgente elaborar no plano teórico e aplicar no plano prático-político um conceito e uma praxe de "co-tradição cultural", ou seja, a capacidade de aceitar e oferecer contribuições que superem e desdigam as lúgubres previsões daqueles que teorizam o "choque entre as civilizações". Quem não aceita as co-tradições culturais, deve, desde já, se preparar para o genocídio, se não para o auto-extermínio da humanidade. O dilema atual é claro: dialogar ou perecer» .
Para realizar o diálogo o paradigma da unidade oferece um método, uma estratégia muito rica e eficaz, cujo núcleo pode ser sintetizado em duas palavras: fazer-se um.
«Fazer-se um» implica um duplo movimento: sair de si (= esvaziar-se) e entrar no outro para realizar uma integração que não é fusão, mas unidade plena, na distinção. O primeiro movimento (=sair de si) se concretiza na disponibilidade de ouvir, de libertar a mente e o coração para criar um lugar de silêncio sobre o qual o outro pode falar, criar um cenário de fundo para colocar em evidência a luz. O segundo movimento (= entrar no outro) é conseqüente. Com escreve Rifkin: «É preciso superar os confins de si mesmo, estabelecer uma "residência emotiva" no ser do outro, a fim de que os seus sentimentos se tornem os nossos» . O resultado é a integração, a unidade na distinção. As partes assim se encontram nas condições de serem enriquecidas por uma verdade mais verdadeira, por uma nova identidade que supera aquela de cada um, verdade universal e ao mesmo tempo comum a ambos, se bem que culta e expressa por ambos os sujeitos na sua distinta identidade.
As partes a que me refiro não são só os atores individuais, mas também os atores coletivos, ou seja, os grupos, as comunidades, os Estados. Os relacionamentos que se criam não são só interpessoais mas também estão presentes nas dimensões "macro" das instituições e estruturas privadas e públicas.
É óbvio que o modo para fazer-se um vai variar segundo as dimensões das partes em causa, mas o cerne dos conteúdos relacionais é sempre o mesmo.
"Fazer-se um", então, permite e torna possível acender um contato lá onde a relação, cada relação, estiver apagada ou parece morta (=conflito latente); de estabelecer uma reciprocidade onde ela se bloqueou (=conflito em ação=); de abrir uma brecha onde a relação se fechou, de criar um espaço, onde se torna possível um movimento; de acionar uma mudança onde a relação está parada.
Este dinamismo do "fazer-se um" nunca é automático e muito menos instantâneo. Pelo contrário, segundo a diversidade e a variedade das personalidades e dos contextos em que se opera, exige ritmos e tempos diferentes. Ritmos e tempos não vazios, mas impregnados de atitudes e valores como a paciência, a expectativa, a espera, a vigilância, e também o controle, a avaliação e a capacidade de intervir no momento oportuno.
Só assim somos capazes e estamos preparados para enfrentar e, eventualmente, encontrar soluções para os conflitos nas suas várias formas, e também os possíveis fracassos da própria ação.

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