quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A virada para o Séc. 20, como num filme. Alguma semelhança com nosso século?

Comentário que escrevi sobre o livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz (orgs.). Editora: Cosac Naify, São Paulo, 2004.




Marcello Riella Benites

No livro “O cinema e invenção da vida moderna” (Cosac Naify) a passagem da tradição para a modernidade é observada não como quem olha para trás, mas a partir de um ponto específico no passado: a virada do século 19 para o 20. E essa transição é observada tendo a sétima arte como referência, fruto, motor e símbolo da vida moderna. No conjunto, os 13 ensaios escritos por professores de cinema, história, literatura e história da arte analisam o surgimento de novas tecnologias do visual, e também a arte, a imprensa, a publicidade e o marketing (embora essa palavra não apareça), a literatura e os museus como resultantes ou como alimentadores do tipo de vida que se iniciava. O advento da população – como  aglomerado de pessoas nos grandes centros urbanos cada vez mais numerosos – e de uma vida agitada nas cidades foram fenômenos ocasionados pelo progresso tecnológico e industrial. Eles constituíram uma realidade na qual invenções precursoras do cinema satisfaziam as demandas de diversão e reforçavam os novos comportamentos.

Os ensaios “dialogam” – nem sempre a partir de citações textuais – principalmente com Walter Benjamin, Siegfried Kracauer e Georg Simmel, mas também com outros, como Michel de Certeau, Michel Foucault, Marx e Freud. O mundo tornou-se mais rápido. Mudou o regime de atenção e distração das pessoas, tanto diante do cotidiano quanto diante da arte que, com o cinema adquire – ou, segundo alguns, degenera para – o status de entretenimento. O consumo surge como estilo de vida e mediação social: as pessoas passam a marcar seu lugar na sociedade de acordo com o que consomem. À frente de invenções emblemáticas do período – como telégrafo, telefone, automóvel, estrada de ferro e fotografia –, o cinema é a síntese daquele momento revolucionário. Aparece como a diversão mais apta a entreter o agitado indivíduo que presenciou a chegada do século 20. E ao mesmo tempo dá o tom da nova forma de viver.

Outras expressões culturais, porém, dão sua contribuição. A fotografia, a ficção policial, o impressionismo, a imprensa e os novos entretenimentos acompanham a nova disciplina imposta ao corpo e ao comportamento das pessoas. O consumo como estilo de vida, o comparecimento da mulher como sujeito e alvo privilegiado dos mecanismos desse mesmo consumo, e as identidades sociais construídas a partir desse estilo de vida também são temas abordados nos ensaios. Outros temas são o cotidiano como ambiente propício aos ritmos de atenção e distração típicos daquele período – necessários ao hábito do consumo e ao torpor que facilitava encarar as extenuantes jornadas de trabalho – bem como a experiência do flaneur, o observador curioso e descompromissado das ruas das cidades, que nada tem a fazer a não ser olhar...

O livro leva ainda à reflexão sobre a constituição do público da comunicação e do entretenimento de massa, público que aparece como alvo dessa cultura mas que é também gerado por ela, comparecendo nesse filão dois densos textos que aprofundam a teoria da comunicação. O advento da fotografia com objetivos policiais marca o aperfeiçoamento da prática do registro da imagem como acúmulo de informação/conhecimento visando à constituição de aparatos de controle e vigilância (segundo Foucault); também é registrado em um ensaio a submissão do corpo a essas técnicas, como se vê no caso de fotos feitas à força com detentos que se recusavam a ser fotografados.

O olhar perdido (distração) e a ambigüidade da relação entre homem e mulher transparecem no comentário a um quadro de Manet. Um dos ensaios discorre sobre o ritmo alucinante da cidade grande, que surpreende o indivíduo recém-chegado ao século 20 com atropelamentos, acidentes e crimes nunca vistos, registrados de forma sensacionalista com o objetivo de ganhar o público/vender jornais.

O Cinema e a Invenção da Vida Moderna é um livro que observa a transição. Não constrói juízos de valor mas mostra o início da modernidade de uma forma tão crua que parece continuar observando, como num filme, o início do século 21.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eleições 2010: Cidadãos da Web 2.0

Twitter, Facebook, Orkut & Cia não vão se igualar ao rádio e à TV nas eleições, pelo menos por enquanto. Mas colocando as pessoas em contato direto com os candidatos, as redes sociais abrem possibilidades inéditas à cidadania



Marcello Riella Benites

(Íntegra da reportagem publicada na Revista Cidade Nova SET/2010)



O presidenciável José Serra, na semana de fechamento desta reportagem, era seguido por cerca de 320 mil pessoas no Twitter. Tinha conquistado 8 mil seguidores em apenas dois dias e aproveitava a fama de estar entre os políticos que mais tuitavam sem auxílio de assessoria. No final de junho, um estudante gravou um vídeo cantando a paródia de uma música pop com letra favorável a Dilma Rousseff e colocou no You Tube: em pouco mais de um mês, o vídeo atingiu 189 mil exibições. Já o “tuitaço” de Marina Silva em 20 de julho, idealizado por um usuário do Orkut, fez com que a candidata ultrapassasse os 100 mil seguidores no Twitter – no início de agosto ultrapassavam 116 mil e Marina era considerada a que mais usava o microblog entre os três candidatos. Em comum, nesses três relatos, a importância de Sua Excelência, o “cidadão comum”, utilizando as chamadas redes sociais para se informar e fazer a diferença nas eleições.



O geólogo Leandro Machado, de Niterói (RJ), que segue Serra no Twitter e confirma a informação sobre o uso pessoal que o tucano faz do microblog, é seguidor também de Marina Silva e de vários perfis de Dilma, além de candidatos a governador. Também visita blogs de candidatos a senador e sites como o Vote na Web e o Cidade Democrática. “O Twitter nos deixa mais próximos dos candidatos. Na TV é tudo muito armado, como num cenário. E no caso de um candidato que disponha de pouco tempo na TV, não posso conhecê-lo bem, mas na Internet eu posso”, afirma Leandro.

Apesar da tecnologia envolvida, já que a Internet tem como primeira definição uma “rede de computadores”, as redes sociais, como vêm sendo chamados o Twitter, o Orkut, o You Tube, os blogs e o Facebook, entre outros, têm se demonstrado cada vez mais como “redes de pessoas”. Mesmo não tendo, em geral, a mesma carga de investimento afetivo e durabilidade na ligação que o contato presencial, possuem características sociológicas inerentes às relações humanas. Afinal, por trás das máquinas e dos perfis, existem pessoas. E como as redes sociais possibilitam essa busca de reciprocidade típica dos seres humanos, isso tem feito a diferença também na política. O exemplo mais emblemático foi a importância que tiveram na eleição de Barack Obama.



“Outra grande capacidade da Internet é a mobilização. Ela é um ótimo instrumento para unir pessoas em volta de interesses comuns. As redes fazem com que esses vínculos fiquem mais fortes e resultem em decisões concretas. Porém, isso não se consegue apenas direcionando mensagens para o eleitor, como nos meios de comunicação tradicional, mas, simplesmente, fazendo com que as pessoas se encontrem”, afirma Daniel Souza, coordenador de pesquisas da agência digital Talk Interactive que, entre outros serviços, presta assessoria a campanhas. E nesse “simplesmente” a que Daniel se refere está a diferença entre o político que quer levar sua mensagem aos eleitores por meio da web, e sentir as expectativas deles, e aquele que quer estar na rede apenas para não parecer “atrasado”.

 
Os “virais” da web

 
“A utilização das redes na política é um desdobramento de diversos fatores, como a conexão de pessoas, a resistência da Internet aos meios de comunicação tradicional como rádio e TV, a transparência que se exige nos processos, a mobilização de pessoas em prol de uma causa e a facilidade de se replicar conteúdo”, completa a jornalista Cibele Lana, especializada em redes sociais. Um fenômeno que vem chamando a atenção devido à facilidade de se multiplicar conteúdo nas redes sociais é a ocorrência dos chamados “virais”, conteúdos produzidos geralmente por internautas comuns, não ligados oficialmente a candidatos, que se disseminam pela web com rapidez como vírus e podem influenciar o processo eleitoral.


“Os virais preferidos são os de vídeo e os de fotografia. Toda ‘remixabilidade’ própria da Internet se encontra neles. O viral consegue desconstruir inúmeras mensagens maquiadas dos candidatos, desmascarar possíveis estratégias políticas, zombar da contradição nos discursos e, é claro, propagandear com muito humor através das recombinações de áudio, imagem e vídeo, idéias que podem circular como praga pela rede”, afirma Fábio Malini, professor de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).


Um vídeo viral que teve significativo destaque, porém, desfavorável, foi o de um candidato entrevistado no site do próprio partido fazendo afirmações gravemente desabonadoras a outra agremiação partidária, resultando, inclusive, em concessão, pelo Tribunal Superior Eleitoral, do direito de resposta na homepage. Não se tratou apenas de um “tiro no pé”. Mesmo identificado o deslize pela equipe do site, uma vez colocado o viral na rede por internautas, rapidamente, já se multiplicaram por milhares as cópias, que não podiam mais ser detidas e tiveram repercussão nacional.


Redes sociais pautam a grande mídia

Outro vídeo, ainda, disseminou pela web, horas antes do comício de uma candidata, as imagens de material de campanha dela num automóvel da prefeitura da cidade onde se realizaria o evento. E nesse caso, as imagens foram feitas por um blogueiro comum, sendo depois divulgadas em blogs da grande mídia, e finalmente ganhando todos os meios de comunicação. “O que a gente percebe agora é que o Twitter e os blogs estão pautando a grande mídia. Em eleições anteriores, um assessor de imprensa influente talvez ligasse para determinado jornal falando: ‘Olha, isso aí não pode ser publicado...’ Mas hoje não há como. Depois que está no You Tube, ninguém tira”, comenta Daniel Souza.

E além da espontaneidade dos blogueiros e da curiosidade e observação dos internautas que seguem políticos nas redes sociais, há o protagonismo de cidadãos que colocam na rede ferramentas altamente criativas para contribuir com a democracia. É o caso de Paula Góes, que mora em Londres, e Diego Casaes, de São Paulo, que, sem qualquer remuneração, lançaram ainda antes do início da campanha, a plataforma Eleitor 2010, que conta com a participação de mais de 50 voluntários. “Plataforma” é como vem sendo chamados no jargão da web sites com específicas capacidades colaborativas e de relacionamento. No caso do Eleitor 2010, essas características, ou “funcionalidades”, permitem a qualquer pessoa com alguma conexão na Internet fazer denúncias de crimes eleitorais em todo o Brasil.

 
E aqui voltamos às características de compartilhamento na web. Assim como se compartilham informações, também se compartilham as técnicas. “Muitos dos programas de computador livres que conhecemos, como o Linux, foram desenvolvidos a muitas mãos, a partir do momento em que os seus desenvolvedores começaram a deixar os códigos abertos para que quem tivesse ainda mais conhecimento pudesse aperfeiçoá-los”, afirma Cibele Lana. A plataforma Ushahidi, utilizada pelo Eleitor 2010, é um desses casos, e combina funcionalidades como o Google Maps e outras para que as pessoas possam enviar textos, fotos e vídeos, denunciando crimes, como compra de votos, conteúdo ofensivo em sites de campanha e inscrição eleitoral fraudulenta.



Fiscais do pleito

“O nosso foco é dar ao eleitor as ferramentas para que ele se torne um fiscal do pleito. Em vez de apenas votar, ele vai atuar também como um observador das eleições”, afirma Paula Góes. Para exemplificar essa fiscalização do cidadão comum, ela conta o caso de uma pequena cidade no norte do país. “Duas pessoas de lá fizeram denúncias. Uma mandou fotos e textos, dizendo que o prefeito distribuiu no dia de um jogo do Brasil camisetas verde e amarelas para o torcedor curtir a Copa, mas com o número do candidato que ele apoiava para o governo do Estado. E além de dar a camiseta, havia o recado de que o prefeito ficaria muito triste se os funcionários públicos não a usassem. O denunciante mandou fotos de uma espécie de carreata pelas ruas da cidade com as pessoas usando a camiseta. Eu acho que nossa plataforma foi o primeiro lugar onde isso foi publicado. Depois saiu na imprensa local”.

Paula conta que cada denúncia passa por um filtro, sendo examinada por um grupo que avalia sua coerência. Depois, a equipe tenta verificar por outros meios o relato. Quando ele é publicado, aparece com o status de “verificado” ou não. As denúncias são sempre anônimas. Não há como saber quem está mandando, se a pessoa não se identificar. “O cidadão pode fazer sua denúncia, sem precisar ligar para os grandes meios de comunicação e aguardar que mandem uma equipe de reportagem, ou esperar que sua denúncia passe pelo filtro dos interesses dos donos daquele meio de comunicação, correndo o risco até mesmo de ser ignorada, devido às limitações de espaço e tempo, porque um jornal tem espaço limitado, assim como o rádio e a TV”, diz a idealizadora do plataforma, que no início de agosto já tinha recebido cerca de 90 denúncias.

O Eleitor 2010 soma-se a inúmeras outras iniciativas. O Sem Sujeira combate a propaganda irregular como placas, cartazes e faixas em lugares proibidos. No Vote na Web, o visitante conhece os projetos de lei propostos por parlamentares e vota favoravelmente ou contrariamente, e assim, pode acompanhar também a qualidade dos mandatos. “Ali nós encontramos cada besteira... Mas também há projetos muito legais e temos a oportunidade de construir junto com o político, apoiar aquela proposta interessante com nossa manifestação”, afirma o geólogo Leandro Machado. Já o Cidade Democrática ajuda a aproximar pessoas que identificam diversos problemas e suas soluções em cidades do Brasil inteiro.

Porém...

Ainda na linha da webcidadania eleitoral, está no ar o site Ficha Limpa. Nele, não só o cidadão comum pode fazer denúncia de candidatos que tenham “ficha suja”, como os candidatos que quiserem, podem se deixar avaliar pela equipe do site, para figurar numa lista se comprometendo a serem transparentes em sua campanha eleitoral, informando semanalmente a origem dos recursos obtidos e os gastos efetivados. “Somente após a avaliação, o candidato é autorizado (ou não) a figurar na lista”, informa o site, que por sua vez, não é uma iniciativa de cidadãos comuns, mas da sociedade civil organizada, no caso o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) que recolheu mais de 1 milhão de assinaturas para que fosse votada e aprovada a Lei Ficha Limpa.

Vale lembrar, entretanto, que embora as redes sociais possibilitem toda essa liberdade de expressão e de controle social sobre o processo eleitoral, o caminho da denúncia fácil e mal intencionada, acobertada pelo anonimato, não está livre de processos judiciais. Outra ressalva é que as redes sociais ainda não têm a mesma influência nas eleições que os meios de comunicação tradicionais. “No Brasil, a influência da TV e do rádio ainda é muito grande na cabeça da maior parte dos eleitores. Temos uma população digital de apenas 30% a 40%”, afirma Daniel Souza, que lembra ainda: para que as redes sociais cumpram o papel cidadão de que falamos, não é suficiente apenas uma democratização digital, mas deve ocorrer antes uma “democratização educacional”.

Estatísticas que se pulverizam

Em se tratando de Internet, os números se alteram de forma muito rápida e frequentemente “se pulverizam”, sendo logo ultrapassadas devido às constantes novidades tecnológicas e novos usos das redes sociais. A característica principal é de um crescimento vertiginoso. No Brasil, como a utilização das redes nas campanhas eleitorais terá neste ano seu primeiro grande teste, as estatísticas a respeito não são consistentes, mas registros sobre a web em geral já dão um quadro de seu potencial nas eleições.

Brasil

- 66 milhões de usuários da Internet

- 87% dos internautas acessam redes sociais

- 20% dos usuários brasileiros têm a intenção de entrar nas redes sociais em breve

- País está em décimo no uso de serviços como Twitter, Orkut, Facebook e You Tube. A Índia é a líder, à frente da Sérvia, Coréia do Sul, Rússia, Espanha, China, Turquia, Romênia e Itália

- 18% do eleitorado (131,5 milhões) tem de 18 a 24 anos e acessa a web

- Twitter: 10,7 milhões de visita por mês (sem contar as repetidas) ao lado do Facebook e atrás do Orkut (26,9)

Twitter no mundo

- Mais de 100 milhões de usuários, terceira maior rede social, atrás do Facebook (400) e do QZone (310, presente apenas na China)

- 65 milhões de mensagens diárias; desde a criação, foram mais de 20 bilhões mensagens

- 190 milhões de visitas por mês (fora as repetidas)


Fontes: Ibope; Worldwide Independent Network of Market Research (WIN); Revista Veja; Ibope/Nielsen On Line; TSE.

Glossário 2.0

Site – Uma das mais tradicionais estruturas da Internet, os sites, geralmente mantidos por instituições, são endereços para exposição de informações e todo tipo de conteúdo na web.



Redes sociais – Emprestada da sociologia, a expressão “redes sociais” vem sendo utilizada para designar sites que facilitam o relacionamento entre as pessoas.



Web 2.0 – Usada como sinônimo de Internet, a palavra “web”, teia em inglês, tem também um significado próximo a “rede”. A Web 2.0 é a segunda geração de sites, serviços e comunidades na Internet, da qual fazem parte as redes sociais.



Blog – É um site mantido geralmente por pessoas físicas, que ali manifestam suas opiniões, mas também por instituições, permitindo atualizações rápidas e comentários imediatos por parte dos visitantes.



Orkut - O Orkut é uma rede social criada para ajudar os integrantes a conhecer ou reencontrar pessoas e formar comunidades segundo interesses comuns, compartilhando fotos e outros conteúdos.



Facebook – Nessa rede o usuário pode adicionar “amigos”, enviar e receber mensagens deles, e atualizar o próprio perfil pessoal e profissional. Guardando algumas semelhanças com o Orkut, o Facebook é bastante utilizado para contatos no mundo do estudo e do trabalho.



Twitter – Também conhecida como microblog, a rede social Twitter é composta por usuários que são acompanhados por “seguidores”, para os quais enviam mensagens de até 140 caracteres. Os seguidores, por sua vez, são seguidos por outros usuários.

You Tube – Site de compartilhamento de vídeos.


Box 3: Confira os endereços cidadãos citados nesta reportagem


http://eleitor2010.com/

http://semsujeira.com/

http://www.votenaweb.com.br/

http://www.cidadedemocratica.org.br/

http://www.fichalimpaja.org.br/

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Somos modernos ou pós-modernos? Respostas híbridas na América Latina


Publico aqui o comentário que fiz do livro "Culturas Híbridas" (Edusp, 2006), de Néstor García Canclini

Diante da transição, que muitos teóricos afirmam ocorrer no Ocidente, de uma cultura moderna para uma cultura pós-moderna, um questionamento provocado pelo livro Culturas Híbridas (Edusp) é: como sermos, nós latino-americanos, pós-modernos se ainda não somos modernos? Na verdade, até mesmo a conveniência sobre sermos modernos é questionada pelo autor, o acadêmico argentino radicado no México Néstor García Canclini, no subtítulo -  “estratégias para entrar e sair da modernidade” – desse livro publicado originalmente em 1989 e que mantém ainda consistentes suas teses.

Ora, como sabemos, o ideal modernista é o projeto de um indivíduo emancipado da religião e das ideologias, rico de conhecimento/informação; construindo uma sociedade voltada para a expansão da produção econômica, fundada nas descobertas científicas e no desenvolvimento industrial; e na renovação incessante em todos os níveis da atividade humana, com o objetivo ético, moral e racional de aperfeiçoar a democracia; com popularização cultural e científica e com eliminação da pobreza.  O livro nos lembra que esse projeto não está de forma alguma realizado de forma homogênea no continente latino-americano.

Numa “Introdução à edição de 2001”, Canclini analisa os prós e contras do conceito de hibridismo/hibridação. Ele o faz já a partir do aspecto histórico, mostrando que não se trata de um fenômeno novo, constituindo-se a própria história da humanidade num contínuo processo de hibridação que se particularizou no continente entre colonizados, colonizadores e escravos negros vindos da África. É evidente, porém, o fato de que as hibridações se aceleraram, em todos os níveis – étnico, cultural, ideológico... -, de forma marcante nas décadas finais do século 20.

A obra percebe o entrelaçamento sem volta entre o culto (erudito), o popular e o massivo (mídia) - vale ressaltar que essa é uma das reflexões centrais deste texto. Indica ainda o fênomeno da desterritorialização dos processos culturais e identitários urbanos, que ocorre com as migrações generalizadas pelo planeta. A cidade de Tijuana, no México, fronteiriça com os EUA, que em 1950 tinha 60 mil habitantes e hoje abriga mais de 1 milhão, é apresentada como exemplo da desterritorialização: a característica mais importante nas cidades de hoje não é mais tanto a natureza ou a cultura do local (território), e, sim, as marcas globais (concluímos, por exemplo, arquitetura urbana, ambientes homogeneizados dos shoppings e aeroportos; problemas como trânsito e violência; ritmo de vida ditado pelo mercado, pelo consumo e pela pressa...). Mas o autor não deixa de identificar também um esforço dos mexicanos de Tijuana – como ocorreria em outras cidades “desterritorializadas” - no sentido de uma “reterritorialização” que resiste/negocia para manter certa identidade original.

Outro conceito interessante proposto por Canclini é o de “poderes oblíquos”, que poderiam ser o poder dividido em parcelas também controladas pelos dominados, que sempre têm, afinal, alguma força de barganha e que podem por “vias diagonais” gerir conflitos e marcar conquistas. Trata-se de uma perspectiva na qual “hegemônicos e subalternos precisam uns dos outros”; uma perspectiva que aceita a fragmentação e as combinações entre tradição, modernidade e pós-modernidade; que vê a pós-modernidade não como nova etapa histórica, mas como crítica àquele evolucionismo  que apresenta os progressos tecnológicos e econômicos os únicos geradores de todo o sentido de que a sociedade precisa.

O autor indica, finalmente, três vias de adaptação às reestruturações provocadas pela modernidade tardia: 1) resistência e reafirmação do autêntico projeto moderno; 2) adesão incondicional ao evolucionismo já citado. 3) um “deslizamento constante entre o culto, o popular e o massivo”. É uma “saída” – lembremo-nos do subtítulo - que poderia desfazer a falsa obrigatoriedade de escolher entre inovar (e, portanto, estabelecer diferença, distinção, discriminar entre o novo e o velho, o desenvolvido e o subdesenvolvido) e democratizar.

Inovar e democratizar são escolhas, concluímos, que não necessariamente se excluem, e podem se  “hibridar”. Tanto a via do “deslizamento entre culto, popular e massivo”, quanto as decisões de inovar e democratizar podem se harmonizar e servir de base às duas propostas com as quais o livro termina: a) um esforço para a reconstrução da crítica social e b) o questionamento do neoliberalismo como dogma da modernidade; tudo isso sendo “radical sem ser fundamentalista”, conclui Canclini.

(Escrito em fevereiro de 2009)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O desafio do futuro já presente: Refletindo com Z. Bauman, M. Castells e M. Foucault

Já estamos no futuro. Tal impressão não é rara. A publicidade frequentemente atribui essa vantagem a muitos produtos. E o acesso a bens tecnológicos sempre mais surpreendentes chega a nos convencer que é verdade. Existe de fato uma parcela da população mundial que, embora pequena, dispõe de tudo que desde os antigos gregos a humanidade sonhou e desenvolveu. E muitos de nós, em maior ou menor grau, talvez estejamos incluídos nesse grupo. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman (O Mal-estar da Pós-Modernidade, Zahar, 1998) lembra que com a era moderna o ser humano “ganhou alguma coisa mas perdeu em troca alguma coisa”. Inadiável “o dever de casa” de descobrirmos o que fazer e para onde caminharmos após essas perdas e ganhos da modernidade.

Foi essa mesma modernidade que consolidou um domínio bastante significativo do homem sobre a natureza. Esse domínio ficou cada vez mais patente a partir da virada do século XIX para o XX. O projeto da modernidade previa, em linhas muito gerais, que seríamos felizes nos emancipando da religião e da tentação do poder; nos sustentaríamos eticamente e socialmente pelos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade; e usufruiríamos das coisas boas da vida ancorados na cultura, na ciência e na tecnologia; tudo isso baseado e impulsionado pelo progresso e pelo crescimento da riqueza econômica.

Embora haja estudiosos afirmando que alguns cantos do mundo já entram na pós-modernidade, a única coisa de que podemos ter certeza é que o projeto moderno atingiu, para o bem e para o mal, os patamares extremos de suas possibilidades. É esse o quadro descrito no livro “A Sociedade em Rede” (Paz e Terra), do espanhol Manuel Castells, sociólogo e professor da Universidade de Berkley (EUA), que pode ser bastante útil na tarefa de nos situarmos e buscarmos o sentido de nossas vidas nesse nosso “admirável mundo novo”.

A tese de “A Sociedade em Rede” é que existe um novo “modo de desenvolvimento” dentro do já secular “modo de produção” capitalista. Trata-se do “informacionalismo”, ou seja, a produção econômica potencializada vertiginosamente pela informação e pelo conhecimento. A tecnologia é a ferramenta fundamental do informacionalismo. Seu domínio condiciona decisivamente a relação de poder entre os países. Na sua vertente informática, a tecnologia dinamiza todos os processos produtivos, desde as máquinas até a administração. Aliada às comunicações sociais, Internet à frente, a tecnologia provoca uma revolução cultural.

Todas essas mudanças configuram a “sociedade em rede”, na qual, em nível econômico, diminui a importância do modelo fordista/taylorista de produção em série e forte hierarquia vertical, com centros de comando e produção muito fixos e permanentes, o que se reflete também nas relações sociais.

E o nosso dia-a-dia de pessoas comuns, o que tem a ver com isso? É que essa sociedade funciona “em rede” não só no aspecto produtivo. A própria vida das pessoas passa a ser “em rede”. É o princípio da Internet, que surgiu como ferramenta militar de comunicação na década de 60, nos EUA, para ser uma rede que não pudesse ser destruída pela extinta URSS, já que não possuía um nó central de comando do qual o todo dependesse. Destruído um nó, a rede continuaria a funcionar a partir dos demais nós da rede. Em nossa sociedade, cada empresa, cada país, cada cidade, cada pessoa é um nó dessa rede. Os nós estão sempre ligados, mas são autônomos, independentes e, no final das contas, solitários.

Castells demonstra que a tecnologia e o mercado imprimem as mudanças características da sociedade em rede nos mais diferentes aspectos da nossa vida. A influência do tempo sobre nosso dia-a-dia se transforma profundamente devido à evolução dos transportes e das comunicações, configurando um tempo “atemporal. O espaço, no qual “tudo flui” – veículos, pessoas, mercadorias - se torna um espaço “de fluxos”. A família e a sexualidade também são afetadas na medida em que nelas se infiltra a fragmentação, a competição e a disputa típicas de todas as relações na sociedade em rede. E até mesmo a nossa relação com a morte é modificada ao passo que pelo avanço da medicina já se consegue adiar cada vez mais eficazmente o próprio fim da vida.

Importante nas relações pessoais da sociedade em rede é a questão do exercício do poder. Mesmo se as relações formais de hierarquia ficam relativizadas, o estado permanece como base do exercício do poder, possuindo a prerrogativa da violência institucionalizada (as guerras na política externa, e a repressão na política interna). Predomina também, no entanto, o que Michel Foucault chama de “microfísica do poder”, um poder disperso em instituições e organizações fechando as pessoas “numa estrutura rigorosa de deveres formais e agressões informais”.

Contraponto desse caráter repressor da sociedade em rede pode ser a indicação de Castells de que “nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser”. Embora a rede (sociedade) se imponha sobre o ser (indivíduo), “devemos nos lembrar de que a busca de identidade [pelo indivíduo] é tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica (...)”, como diz o autor. Aqui refletimos sobre o fato de que a autêntica “busca de identidade” ocorre num processo comunitário. E identificamos a busca da identidade como busca do sentido da vida. Arriscamos dizer que Castells pareceria colocar seu livro a serviço dessa busca quando afirma a existência de um “poder libertador da identidade”, enquanto sustenta que “observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo diferente e melhor”.

A busca da própria identidade e do sentido para a vida, dentro de processo comunitário parece, nessa linha de raciocínio, grande motivação para teorizar sobre nossa sociedade em rede. É necessário que o esforço de teorizar esteja aliado à sua utilidade para a vida de todas as pessoas. No caso da nossa vida (pós?) moderna, a teoria é válida para desvendar os mecanismos que enfraquecem o “ser” em sua relação com o que há de dominador na “rede”. A busca de sentido para a vida, agora vinculada não mais ao consumo, ao lucro e à produção, mas ao bem da comunidade – e portanto, ao bem de cada pessoa – parece-nos a escolha que afasta os medos e potencializa as vantagens da sociedade em rede.

Assim, e só assim, a impressão de estar no futuro não é mais a desilusão com progressos tecnológicos que, mesmo eficazes, muitas vezes não geram felicidade; o “futuro-já-presente” não lembra mais, por exemplo, os medos da crise financeira mundial, do fim do (meu, do seu, do nosso) emprego. Ao contrário, a alegria das conquistas humanas pode ser partilhada, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, com as demais pessoas, que passam à nossa frente neste momento ou que enfrentam situações difíceis nos mais remotos cantos do planeta. E essa é uma tarefa e um caminho que pode, aliás, urge começar agora.











segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Primeira Reunião do Grupo Frat&Mídia


Agentes de comunicação debatem fraternidade na mídia*



Grupo vai se reunir mensalmente
                                                                                                                                  (Valter Hugo Muniz)

Na tarde de sábado do dia 01 de abril de 2006, reuniu-se na capital paulista um grupo de agentes de comunicação (profissionais e estudantes) com o objetivo de compartilhar experiências e estudos no campo da comunicação, com foco na fraternidade. Não foi a primeira vez que um grupo reuniu-se em São Paulo com esse objetivo mas a meta é, a partir desse último encontro, manter a periodicidade mensal.

Onze foi o número dos participantes, dos quais seis eram estudantes universitários. O dado é importante pois demonstra a expectativa dos jovens e pode garantir futuro para a iniciativa.

A partir de uma reflexão sobre a relação entre mídia e fraternidade (a fraternidade universal, ensinamento central do cristianismo), foi feita uma profunda partilha de experiências vividas no trabalho e na universidades.

O estudante Bruno R. C. de Oliveira (Publicidade-Casper Líbero) falou sobre o relativismo ético na universidade, na qual vários colegas perdem, muitas vezes, o sentido do bem e do mal. “A ética é subjetiva”, teria dito uma colega de Bruno. O estudante possibilitou também uma reflexão sobre a função do marketing e da publicidade ao citar a promoção Mc Lanche Feliz (Mc Donalds), que destina recursos a crianças com câncer.

Foi a deixa para o publicitário Carlos Ristow (proprietário da empresa de comunicação Aquacom) fazer uma interessante análise sobre o “marketing de causa”. Até que ponto esse tipo de marketing tem uma função de autêntica responsabilidade social? Carlos entende que, muitas vezes, ocorre realmente essa função. É o caso do Mc Lanche, na opinião dele.

Com uma das intervenções de Thiago Borges, que estuda jornalismo na Casper Líbero, ficou evidenciada a importância do estudo da teoria da comunicação, para poder fazer uma leitura crítica da mídia.

Já o estudante de jornalismo Valter Hugo Muniz, da PUC, fez algumas ressalvas sobre o estudo de teoria da comunicação. Valter, que passou um mês na Indonésia prestando socorro às viítimas do Tsunami, disse que, muitas vezes a teoria, mesmo se oferece uma visão crítica da mídia – o que é importante - não aponta caminhos para que os meios de comunicação contribuam para o bem comum.

A produtora Aline Muniz (TV Cultura) falou sobre a experiência que teve ao trabalhar num programa de auditório que na opinião dela não dava uma contribuição positiva ao telespectador. Ela, no entanto, valorizou o contato com as pessoas que iam ao estúdio para formar a platéia, pessoas carentes, que ela pôde conhecer melhor.

Os quatro, juntamente com os demais participantes, manifestaram a satisfação de terem um “espaço de fraternidade”, para partilharem suas idéias e experiências profissionais e, assim, se ajudarem na difícil tarefa de viverem como comunicadores e, ainda, tentar levar à fraternidade à mídia.

Ficou evidenciada no encontro a necessidade do aprofundamento teórico e doutrinal sobre a fraternidade aplicada à mídia; a importância do conhecimento da trajetória e da história da NetOne (rede de comunicadores pela fraternidade), com seus textos básicos – já há quatro livros publicados em italiano dos quais trechos poderiam ser estudados com o auxílio de traduções; a importância do contato entre os comunicadores; a urgência do aperfeiçoamento desse contato via internet.

O próximo encontro está marcado para o dia 6 de maio, sábado, às 15h30. O endereço é Av. Aratãs, 1609 – Indianápolis-SP-SP. Telefone: (11) 5055-0607. Os encontros se repetirão sempre aos primeiros sábados de cada mês. O convite é feito, especialmente, é claro, para os que residem e/ou trabalham na região metorpolitana de São Paulo. Mas todos os que estão recebendo este e-mail nos dariam uma grande alegria ao comparecer.

Participantes:

Aline Muniz (Produtora - TV Cultura)

Daniel Fazza (Jornalismo-USP)

Regina Duarte (Locutora free-lancer)
Vitor Reis (Multimeios-PUC-SP)

Bruno R. C. de Oliveira (Publicidade-Casper Líbero)

Valter Hugo Muniz (Jornalismo – PUC)

Marcello Benites (Jornalista-Cidade Nova)

Luciana Collet (Jornalista-Gazeta Mercantil)

Luiz Paulo (Cinema-USP)

Thiago Borges (Jornalismo-Casper Líbero)

Carlos Ristow - (Aquacom Comunicação Responsável)

*Esta notícia foi enviada ainda num esquema de “responder a todos” pelo hotmail na segunda quinzena de abril de 2006. O Google group surgiu após o Congresso nacional Net One.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

RELEASE DO LIVRO "PESSOAS QUE FAZEM A ECONOMIA DE COMUNHÃO"

LIVRO-REPORTAGEM CONTA HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO DA POBREZA


Uma grande reportagem que narra a história de pessoas em necessidade, empresários e estudiosos que enfrentam fraternalmente o problema da pobreza, num projeto orgânico que envolve cerca de 7 mil famílias, aproximadamente 750 empresas e já resultou em mais de 280 monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Trata-se do livro Pessoas que fazem a Economia de Comunhão (Editora Cidade Nova, 2009), do jornalista Marcello Riella Benites.

A Economia de Comunhão (EdC), como o próprio livro define, “é uma proposta de fraternidade* e comunhão vivida no setor econômico que procura superar o clássico conflito entre capital e trabalho”. As empresas envolvidas não são filantrópicas. Elas atuam normalmente no mercado, produzindo lucros que são destinados em parte aos pobres. Fundada em 1991, no Brasil, a EdC demonstrou ser uma alternativa real às injustiças do capitalismo e já está presente nos cinco continentes.

“A idéia do livro surgiu num Congresso da EdC há alguns anos, justamente após ouvirmos tantos depoimentos daqueles que acreditaram no Projeto e se comprometeram com ele”, afirma o editor Klaus Brüschke. O livro traz histórias como a da empresária paulista Ercília Teixeira Fiorelli que, durante um engarrafamento em frente a uma favela, vendo crianças na lama, tomou a decisão de dedicar-se inteiramente a uma das empresas pioneiras da EdC.

E o diferencial da Economia de Comunhão aparece ainda mais nitidamente na experiência da enfermeira Maria José Faustino Silva, de Maceió. Após enfrentar a extrema pobreza e começar a participar da EdC, ela afirmou: “Alguns dão sua contribuição em dinheiro e eu contribuo com as minhas necessidades”. Sempre numa relação de fraterna reciprocidade, aplicando os recursos recebidos para suas demandas básicas e para estudar, Maria José se formou e conseguiu emprego.

“Responsabilidade, fraternidade, igualdade entre quem dá e quem recebe recursos materiais, dignidade de todos. Esses são alguns dos principais diferenciais da EdC”, explica Benites. O livro “Pessoas que fazem a Economia de Comunhão”, foi escrito com base em mais de 50 entrevistas com pessoas de 26 cidades das cinco regiões brasileiras.

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* Fraternidade aqui entendida também como "princípio esquecido" da tríade da Revolução Francesa que pautou a modernidade (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), e que vem sendo resgatada conceitualmente nas ciências humanas (O Princípio Esquecido, Vols. 1 e 2; Org.: Antonio Maria Baggio,  Editora Cidade Nova, 2007, 2009)

Ficha técnica

Livro: Pessoas que fazem


a Economia de Comunhão

Autor: Marcello Riella Benites

Formato: 14cmX21cm

Nº de págs: 184

ISBN: 978-85-89736-80-0

Preço: R$ 29,00

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Artigo do Valor Econômico sobre o livro Economia Civil,de Stefano Zamagni

Bem-estar: Estímulos para um sistema que valorize a felicidade como virtude social.

Por Edson Pinto de Almeida, para o Valor, de São Paulo

24/08/2010

"Economia Civil - Eficiência, Equidade, Felicidade Pública"

Luigino Bruni e Stefano Zamagni. Tradução de Durval Cordas. Cidade Nova. 287 páginas, R$ 59,00

Uma bolsa de valores dedicada exclusivamente ao terceiro setor. A expectativa de que essa proposta seja concretizada em 2011, caso tenha aprovação do Banco Central italiano, é de um de seus idealizadores,Stefano Zamagni, professor de economia da Universidade de Bolonha. Ele é autor de vários livros e pregador incansável da "economia do altruísmo", ou "economia civil", como diz o título de sua obra mais recente, em parceria com o professor Luigino Bruni, da Universidade de Milão. Para o lançamento no Brasil, Zamagni fez uma palestra sobre o tema na Bienal do Livro, onde falou com exclusividade para o Valor.

A bolsa social, segundo Zamagni, não terá finalidade especulativa, mas servirá como fonte de recursos para organizações sociais, cooperativas e associações. Essas entidades do terceiro setor, que precisam de capital para seu desenvolvimento, pagariam no máximo 5% de dividendos ao ano. "O lucro deverá ser reinvestido exclusivamente em atividades com fins sociais."

Abrir espaço para novas formas de equacionamento financeiro é mais um passo dessa corrente de pensamento que pretende "humanizar" o mercado. Suas origens remontam ao Quatrocentto italiano, com as organizações econômicas do início do Renascimento. A intenção é ganhar visibilidade e encontrar eco num momento de crise do atual modelo econômico.

Como explica Ricardo Abramovay, professor de economia da FEA-USP, no prefácio do livro, "a economia civil se insurge contra o mito de que a esfera dos interesses econômicos pouco tem a ver com a do civismo, da qualidade dos vínculos sociais entre os cidadãos". Zamagni aponta a escola neoclássica como principal responsável por essa separação, pois consolida a visão utilitarista do economista inglês Jeremy Bentham (1748-1832). A doutrina do utilitarismo vê a conduta humana movida apenas pelo egoísmo e pela busca da felicidade. Zamagni faz distinção entre felicidade, como virtude social, porque é algo subjetivo e depende do relacionamento com outras pessoas, da visão utilitarista - no sentido de vantagem ou prazer de possuir alguma coisa. "É possível maximizar a utilidade de alguma coisa sem depender de outro, mas é impossível ser feliz sozinho."

Para Zamagni, houve um movimento reducionista, que empobreceu a economia contemporânea. "Nos últimos 30 anos, a autossuficiência da economia foi marcada pela globalização e pela terceira revolução industrial. A filosofia do individualismo destruiu a economia civil. Os economistas passaram a pensar que a ciência econômica e a ética são coisas excludentes."

Zamagni mostra em seu livro que é preciso haver uma nova convergência da economia no âmbito das ciências sociais. A economia civil, explica, é uma alternativa, "não uma terceira via", ao neoliberalismo e ao socialismo. E pretende romper com a visão polarizada que existe hoje em relação ao mercado. Segundo ele, de um lado estão os que afirmam que o mercado gera riquezas, atua pelo bem comum e representa a sociedade civil. Qualquer interferência é danosa. De outro, estão os que enxergam no mercado um local de exploração de domínio do mais fraco pelo mais forte. A economia civil de Zamagni e Bruni acabaria - é a proposta deles - com o dualismo entre o equilíbrio mágico da eficiência do mercado e a ação reparadora do Estado para redistribuir a riqueza. "As recentes crises financeiras mostraram os limites da autossuficiência do mercado."

Sua visão é crítica em relação aos dois pólos de pensamento. "A economia de mercado do neoliberalismo não é liberal, porque afirma somente um tipo de empresa." Daí, a necessidade de criação da bolsa social como mecanismo de inclusão das empresas do terceiro setor. Sobre a outra
ponta, Zamagni afirma que Marx nunca foi entendido pelos marxistas, nem pregou a revolução. "Quem a fez foi Lenin. Marx via o socialismo como uma evolução posterior da fase de acumulação do capital." O economista italiano desenha um triângulo para explicar que Estado, mercado e sociedade civil devem agir de forma integrada. "São instâncias que interagem. O Estado precisa ser forte em alguns momentos e, em outros, deve retirar-se, para que a sociedade civil se desenvolva." Zamagni defende a aplicação do princípio da subsidiariedade, como na União Europeia, segundo o qual, a instância mais alta (Estado) não deve fazer o que a instância local (comunidade) pode fazer.

A economia civil inclui as empresas do terceiro setor na vida econômica e não as vê como uma atividade paralela. O que o livro de Zamagni e Bruni propõe é quebrar a lógica dos dois tempos: antes, as empresas produzem; depois o Estado cuida do social. "É preciso agir também no momento da produção da riqueza. Nas condições atuais, atuar apenas na redistribuição é demasiado tarde. Por conseguinte, o que se exige da empresa é tornar-se 'social' na normalidade de sua atividade econômica." Em outras palavras, trazer valores éticos para o desenvolvimento sustentável é mais do que uma estratégia de marketing. "É preciso resgatar o sentido de fraternidade da Revolução Francesa, que foi abandonado, e entender que o capitalismo não vai conseguir oferecer emprego para todo mundo e tampouco trazer reconhecimento pessoal e reduzir as desigualdades", diz Zamagni.

A economia civil advoga mais tempo livre para se alcançar a felicidade. A organização atual da sociedade, segundo Zamagni, insiste em reduzir o tempo livre, "por ver no consumo a atividade econômica por excelência". Esquece, assim, a satisfação encontrada em atividades compartilhadas com outras pessoas. Valendo-se do pensamento de Aristóteles, Zamagni entende que a riqueza em si não produz mais felicidade, a não ser que seja um meio para se alcançar uma finalidade útil. A sociedade de consumo, de acordo com estudos apresentados no livro, faz da busca pela felicidade uma corrida na esteira rolante. Quanto mais ricos ficamos, mais exigimos e ocupamos tempo para ter mais, abrindo mão da saúde e da família. Em resumo: corremos cada vez mais rápido para não sairmos do mesmo lugar.