quinta-feira, 7 de junho de 2018
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
“É a tecnologia, estúpido!”: A hegemonia do discurso sobre a Geração Digital*
ABSTRACT
In this article, we intend to verify if there is in the book Grown Up Digital (Tapscott, 2010) an hegemonic discourse that put technology as the most important factor for social relationships. We will base our research in the article Managed sociabilities: technological discourse and disempowerment of the imaginary, written by Edilson Cazeloto (2014), professor from Casper Líbero University. Our research indicates how Tapscott (2010) makes a constructive speech making natural the technological superiority of knowledge. It seems that this constructive speech, with others discursive strategies, by means of performative enounciates, ridicule of technological unfit people and the benefites of those who have “tecnological autonomy”. Key-words: Tecnology. Discourse. Digital Generation.INTRODUÇÃO
O livro A hora da geração digital: Como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos, de Don Tapscostt (2010), cujo título digitado na busca do Google resulta em 470 mil resultados, apresenta uma visão otimista sobre a geração que nasceu de 1977 a 1997 nos EUA, a partir de entrevistas com 10 mil jovens. Dos resultados obtidos pelo site de busca, dezenas são relativos a resenhas – entre elas, de revistas científicas e sites de universidades – além de citações em artigos acadêmicos. Professor da Universidade de Toronto, Tapscott escreveu 11 livros abordando e/ou relacionando os temas tecnologia, juventude e negócios. Ele se une assim a outros autores do mundo acadêmico na América do Norte, como Marc Prensky, autor do ensaio “Nativos digitais, Imigrantes Digitais” (PRENSKY, 2001). São formadores de opinião construindo uma hegemonia discursiva em torno da tecnologia. Neste artigo, pretendemos investigar, em A hora da geração digital, a presença de tal discurso que coloca a tecnologia como fator determinante das relações sociais. Para tal lançaremos mão, como contraponto, do artigo Sociabilidades gerenciadas: o discurso tecnológico e a despotencialização do Imaginário, do professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero, Edilson Cazeloto (2014). Nossa pesquisa vai no sentido de apontar como Tapscott realiza uma construção discursiva naturalizando a superioridade do saber tecnológico. Essa construção se dá, entre outras estratégias discursivas, por meio de enunciados performativos, da ridicularização do “tecnologicamente inapto” e da naturalização do enunciado sobre as vantagens de quem tem “autonomia tecnológica”.1.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
“A hora da geração digital: como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos”, de Don Tapscott, é o nosso objeto de estudo. Ao lado do seu enunciado sobre “autonomia tecnológica” figura a idéia de que os benefícios da sociedade tecnológica são universalizados; ou que, pelo menos, estão em vias de se universalizarem por meio do barateamento dos dispositivos eletrônicos. A popularização tecnológica, estendendo-se assim a todos os cantos do planeta seria a panacéia para os problemas da humanidade. Essa noção, assumida a priori, promove o apagamento de toda e qualquer evidência de que esses benefícios são, na verdade, restritos segundo critérios de hierarquia social. Já “Nativos digitais, imigrantes digitais” (2001), de Marc Prensky, dá grande respaldo ao discurso sustentado por Tascott (2010) traz a conhecida e inspirada metáfora segundo a qual os jovens que cresceram após a consolidação das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTICs) seriam nativos digitais. Os mais velhos que eles, por sua vez, seriam os imigrantes digitais. Em “Sociabilidades gerenciadas: o discurso tecnológico e a despotencialização do Imaginário”, de Cazeloto (2014) alerta para a “hegemonia de uma lógica social que coloca o computador e seus derivados como elemento central e indispensável nas relações humanas”. Neste ponto, acrescentamos, a partir de sugestão feita quando da apresentação deste trabalho no Coninter de Foz do Iguaçu, uma breve consideração sobre o conceito de hegemonia. Embora Cazeloto não mencione Gramsci ao falar em hegemonia, é com o olhar desse italiano revisionista do marxismo que lemos tal conceito no autor brasileiro. Em nota, na obra O conceito de hegemonia em Gramsci, Gruppi (1978) oferece uma etimologia da palavra: O termo hegemonia deriva do grego eghestal, que siginifca “conduzir”, “ser guia”, “ser líder”; ou também do verbo eghemoneuo, que significa “ser guia”, “preceder”, “conduzir”, e do qual deriva “estar à frente”, “comandar”, “ser o senhor”. Por eghemonia, o antigo grego entendia a direção suprema do exército. Trata-se, portanto, de um termo militar. Hegemônico era o chefe militar, o guia e também o comandante do exército. Na época das guerras do Peloponeso, falou-se de cidades hegemônicas para indicar a cidade que dirigia a aliança das cidades gregas em luta entre si (Gruppi, 1978). (...) consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto, da confiança) que o grupo dominante obtém, por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção (GRAMSCI, 1979). Vemos, portanto, hegemonia como a hegemonia cultural, que Gramsci considerava como condição anterior ao domínio político que a classe dominante procura manter para preservar essa mesma dominação, e que as classes subalternas tendem a alcançar na medida em que se apropriam de fatias do poder.2.AUTONOMIA TECNOLÓGICA E BENEFÍCIOS UNIVERSALIZADOS
Voltando a Cazeloto, percebemos que o autor apresenta uma teoria na qual o discurso tecnológico aparece como uma “despotencialização do imaginário”, no sentido de levar as pessoas a priorizarem a aquisição e a aprendizagem das tecnologias como estratégia para alcançar seu (bem-)estar no mundo. Elas buscam, portanto, uma “autonomia tecnológica”. Ao lado do enunciado sobre “autonomia tecnológica” figura a ideia de que os benefícios da sociedade tecnológica são universalizados; ou que pelo menos estão em vias de se universalizarem por meio do barateamento dos dispositivos eletrônicos. A popularização tecnológica estendendo-se assim a todos os cantos do nosso “mundo plano” – expressão de Thomas Friedman que Dapscott ratifica – seria a panacéia para os problemas da humanidade. Essa noção, assumida a priori, promove o apagamento de toda e qualquer evidência de que esses benefícios são, na verdade, restritos segundo critérios de hierarquia social. O caráter de ineditismo histórico objeto de estudo de Tapscott – que ele chama também de “Geração Internet”, ou “Geração Y – é um dos trunfos do sua argumentação. Trata-se da primeira geração a crescer em um ambiente digital e também a primeira a sobrepujar os adultos em algum tipo de saber, no caso, o manuseio dos dispositivos tecnológicos. Os Y são também mais inteligentes, mais tolerantes, mais rápidos, mais lúdicos, mais transparentes, amam mais a liberdade e são avessos à hierarquia. Realizaremos, entretanto, um deslocamento do foco central da atenção do autor, a Geração Internet, que ele se dedica a exaltar. Nos concentraremos, sim, em evidenciar a construção discursiva com a qual o professor canadense busca dar a entender que uma incondicional “rendição” ao paradigma tecnológico é o único caminho de sentido para a vida social. Como dissemos, não é nosso objetivo questionar valores que possam ser realmente conquistas dos jovens. Cabe-nos, sim, neste estudo, indicar o quanto e como a obra atribui discursivamente essa conquista a uma causa predominantemente tecnológica.3.FUNDAMENTANDO A CRÍTICA AO DISCURSO TECNOLÓGICO
Após essa introdução, na qual fizemos um delineamento geral da estratégia discursiva do autor, vamos aprofundar um referencial teórico que questiona na raiz e de forma geral a hegemonia do discurso tecnológico, para em seguida voltar à obra e analisá-la mais detalhadamente. Em seu artigo publicado na XXIII Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), o já citado professor Edilson Cazeloto alerta para a hegemonia de uma lógica social que coloca o computador e seus derivados como elemento central e indispensável nas relações humanas. Cada vez mais, a informática submete o social seus imperativos, criando formas específicas de ser e estar no mundo, assim como relações humanas inerentes à mediação das telas (CAZELOTO, 2014). O autor estabelece distinções entre os conceitos de “tecnologia”, “técnica” e “objeto técnico”, antes de apresentar uma teoria na qual o discurso tecnológico aparece como uma “despotencialização do imaginário” das pessoas. Essa despontencialização seria no sentido de levá-las a priorizar a aquisição e a aprendizagem das tecnologias para o seu (bem-)estar no mundo tendo de adaptar-se às perspectivas do capitalismo. Assim, ele define “técnica” como um conjunto de saberes, formalizados ou não, articulados para o cumprimento de objetivos determinados que pode ser aprendida, aperfeiçoada e ensinada. A definição de tecnologia vem em comparação com a ciência: “Enquanto a ciência preocupa-se em descrever como o mundo ‘é’, a tecnologia tenta prescrever como ele poderia ser”. A tecnologia está, assim, ligada a um enfoque pragmático e instrumentalista, segundo determinados interesses. Os objetos técnicos, por sua vez, seriam as ferramentas instrumentos e máquinas, independentemente de seus níveis de sofisticação. Segundo Cazeloto, a tecnologia se inicia com um processo na articulação de saberes disponíveis na sociedade e produzindo objetos técnicos que, por sua vez, estão intimamente relacionados à visão que os indivíduos que os inventaram e o usam têm de si e do mundo. Existe um “imaginário social” com juízos, idéias, representações e escolhas que se materializam nos objetos técnicos. As tecnologias são sociais e históricas. Surge daí, por exemplo, uma certa dificuldade em avaliar a tecnologia de uma sociedade a partir do olhar de outra: o que se avalia não é apenas o “desenvolvimento tecnológico” (expressão que, aliás, perde muito de seu sentido) expresso na materialidade dos objetos técnicos, mas toda uma cultura e um modo de articulação de saberes, valores e interesses. A etnografia do século XIX, por exemplo, acabou por criar a imagem dos “povos primitivos” da América e da Ásia com base, principalmente nas diferenças entre os objetos técnicos encontrados nessas sociedades e aqueles dominados na Europa. As ferramentas destes povos eram consideradas “atrasadas” porque eram medidas em relação a uma noção abstrata de “eficiência” que regulava o pensamento técnológico Europeu. O silogismo que se segue é preciso: ferramentas “atrasadas” indicam povos “selvagens”. A hierarquia da técnica degrada-se rapidamente em etnocentrismo mal disfarçado (CAZELOTO, 2014). O professor da faculdade paulista observa que no contexto contemporâneo, as tecnologias digitais são consideradas “superiores” às analógicas. Ele cita Andrew Fennberg, docente da cadeira de Filosofia de Tecnologia da Universidade Simon Fraser no Canadá, discípulo de Herbert Macuse. Fennberg estudou as relações entre tecnologia e sociedade elaborando a chamada Teoria Crítica da Tecnologia, que reflete acerca do fenômeno da instrumentalização. De acordo com essa teoria, as potencialidades e o significado de cada objeto técnico estão nos relacionamentos sociais que o envolvem, resultando numa dupla instrumentalização.4.AS TORRES GÊMEAS E A INSTRUMENTALIZAÇÃO TECNOLÓGICA
Cazeloto dá o exemplo de uma tragédia histórica para ilustrar essa duplicidade. O avião como objeto técnico, em sua idealização e produção, passa por uma instrumentalização primária que o faz ser utilizado como meio de transporte. Em setembro de 2001, o objeto técnico “avião” sofreu uma instrumentalização secundária servindo como uma arma terrível resultante em mais de três mil mortes no ataque às Torres Gêmeas. A reflexão de Cazeloto mostra que as instrumentalizações primária e secundária de um objeto técnico podem privilegiar a eficiência econômica ou a equidade social, a autonomia ou a heteronomia, a dominação ou a integração. Todo objeto técnico possui uma sociabilidade inerente a qual (...) induz certas práticas culturais em detrimento de outras. Desta forma, a disseminação de uma tecnologia e de seus objetos técnicos correlatos pode ser interpretada como a generalização de uma visão de mundo e de um conjunto de valores, oriundos de um contexto social particular, assim como de “finalidades” inerentes a esse contexto. O particular se mostra como universal e neutro, como pura necessidade e “tecnicidade”, obliterando sua contingência original. Esse processo, de transformação do particular em universal, pode ser descrito por um conceito das ciências políticas: hegemonia. Em uma metáfora mais ilustrativa, trata-se de uma colonização. Desta forma, pode-se deduzir que os objetos técnicos induzem sociabilidades (CAZELOTO, 2014). Nessa linha de raciocínio, a sociabilidade inerente ao objeto técnico chega também ao nível simbólico por meio de “estratégias de semiotização da mercadoria”, resultando na sustentação do processo social da tecnologia por meio de um “discurso tecnológico”. Tal discurso, na sociedade tecnológica se recicla com a mesma intensidade com que os objetos são produzidos, consumidos e descartados. Cada novo gadget passa imediatamente a ser tema de toda a mídia que enfatiza suas funcionalidades e seu potencial social, conferindo a ele “marcas de status social” que impregnam a “banalidade das conversações cotidianas como índices de pertença a grupos específicos”. E nós consideramos, a partir de Fennberg e Cazeloto, que é na “banalidade” do cotidiano que a ideologia dominante se aloja sem ser percebida, determina a “pertença a grupos específicos” e realiza seu potencial de distinção e exclusão. O discurso tecnológico também produz o consenso de que a tecnologia transformou-se em uma questão estratégica. Ela é a única ou ao menos a melhor saída para os problemas das pessoas, desde o bem-estar, até a segurança e os riscos sociais e ambientais, passando pela saúde, a busca da beleza e a própria felicidade de forma mais ampla. “Antecipar e acompanhar de perto o furacão vertiginoso da sucessão de objetos técnicos torna-se um ponto crucial para a gestão do cotidiano. (...) o discurso tecnológico constrói os artefatos como portadores da esperança de mudar mundo” (CAZELOTO, 2014) Foi com base em Cazeloto que mencionamos na introdução os enunciados performativos presentes em Tapscott – apenas para citar alguns exemplos, “Deixe que a Geração Internet lidere...” e “Esqueça a idéia de...” e “Repense a sua idéia de...” (TAPSCOTT, 2010). A partir de Austin (Apud PRADO), o autor brasileiro afirma que os discursos não se limitam à atribuição de sentido e valor. Eles também são, em si, modos de ação e de intervenção no mundo. Por constituirem-se em linguagens, os discursos são performativos (...).Dessa forma, o discurso tecnológico faz ao dizer. Ele legitima formas de relações como os “amigos” do Facebook ou os “seguidores” do Twitter, sanciona as performances dos aficcionados pelos objetos técnicos nomeando grupos como “gamers”, “ciberativistas”, ou “hackers” e naturaliza práticas culturais como a superexposição individual, a publicação caótica de textos e imagens, ou o sampling. O discurso tecnológico prescreve, ao descrever, os comportamentos tidos como adequados ou desejáveis, “antenados” e compatíveis com o que se espera de um ser humano que “viva o seu tempo”. É, portanto, um gerenciador de sociabilidades (CAZELOTO, 2014). Cazeloto acrescenta ainda a seguinte citação de Prado: A linguagem não é somente um meio em que palavras designam objetos e estados de coisas no mundo por meio de representações mais ou menos adequadas segundo um método de correspondência, mas também um meio em que as coisas ditas servem para os enunciadores/agentes agirem. Dizer é fazer, eis o resumo da fórmula do performativo (PRADO Apud Cazeloto, 2014)5.PESSOAS COMO MEROS USUÁRIOS
Lembramos agora a menção do autor à noção de “democratização tecnológica”, usada por Fennberg, a saber, “a abertura do processo de criação dos objetos técnicos às pressões exercidas por valores diferentes daqueles que regem a simples acumulação de capital”. Não vemos ligações, porém, da “democratização tecnológica” com a universalização do uso pela tendência de redução no preço de gadgets, que ideólogos da tecnologia chamam de superação da barreira digital. O próprio Cazeloto vê grandes dificuldades para se chegar à “democratização tecnológica”. Segundo ele, a tecnologia da informação (informática à frente), tendo como objetivo final a acumulação de capital tornou-se o paradigma de desenvolvimento dos objetos técnicos, “engolindo”, cada vez mais, outras possibilidades concorrentes. Pensar no desenvolvimento tecnológico, neste momento, impõe que se tenha em vista essa “hegemonia” de uma única tecnologia frente às demais, criando uma tendência inexorável à informatização generalizada do cotidiano. Ocorre, então, o monopólio de uma tecnologia e de suas sociabilidades associadas, em detrimento da diversidade de contextos (...). A distribuição dos “criadores” da tecnologia informática e, portanto, das estratégias sociais de orientação do design desses objetos técnicos é extremamente concentrada, social e geograficamente (CAZELOTO, 2014). De acordo com o autor, no setor informático, uma quantidade reduzida de empresas de regiões industrializadas fabrica a maior parte dos aparatos, distribuídos em todo o planeta. “Os valores e visões de mundo que encontram-se incorporados a esses aparelhos, portanto, refletem apenas marginalmente os contextos concretos de utilização”. Assim, os povos para quem os dispositivos são destinados não influenciam, com suas demandas, o design das inovações. As pessoas são consideradas como meros usuários. Além disso, a formação e a circulação de valores é segundo, Cazeloto, “altamente dependente do aparato midiático e a própria configuração conjuntural deste aparato tende a fazer predominar visões de mundo específicas”.6.INEDITISMO HISTÓRICO E NATURALIZAÇÃO DO ARTIFICIAL
A leitura do texto de Cazeloto nos mostra elementos fundadores do discurso tecnológico em geral. Voltamos agora à leitura de A hora da geração digital, percorrendo algumas de suas páginas para identificar mais detalhadamente os elementos sustentadores do discurso tecnológico hegemônico . Podemos citar a proclamação do ineditismo histórico sobre Geração Y e a naturalização do ambiente digital presentes na introdução da obra como alguns desses elementos: Cheguei à conclusão de que a característica que definia a geração daqueles jovens era o fato de serem os primeiros a crescer em um ambiente digital. (...) chamei-os de Geração Internet. (...) Observei que eles eram mais numerosos do que os adultos da Geração Baby Boom e diferentes de qualquer outra geração porque foram os primeiros a crescer cercados por mídia digital. “As crianças de hoje estão tão imersas em bits que acham que isso faz parte da paisagem natural” (TAPSCOTT, 2010). A argumentação do autor aproveita o impacto de declarar o surgimento de um fato inédito e de conferir ao ambiente tecnológico o atributo de “paisagem natural”, numa inversão que “naturaliza” o artificial. Não é difícil inferir daí o aspecto excludente desse enunciado. Se a tecnologia é a paisagem natural, aquilo que não é tecnológico passa a não ser visto como natural ou, pelo menos, a ter valor reduzido no universo tecnológico dominante. “Pela primeira vez na história, as crianças se sentem mais à vontade, são mais bem informadas e conhecem melhor que seus pais quando uma inovação é fundamental para a sociedade. Por meio da utilização da mídia digital a Geração Internet “vai desenvolver e impor sua cultura ao resto da sociedade”. Fica evidente a entronização da tecnologia como “fundamental para a sociedade” bem como o requisito de que é por meio de sua utilização que os jovens vão “impor sua cultura”. Também é relevante a declaração de que a cultura tecnológica é a cultura da nova geração, o que vemos mais como uma construção discursiva do que como algo “natural”. Isso porque parece-nos mais lógico entender que a cultura tecnológica tem como raiz os inventores/desenvolvedores de tecnologias e não os jovens que as utilizam. E vale observar também a oposição colocada entre filhos e pais, que vai permear todo o livro, como estratégia de comparação por pares de opostos, desqualificando um elemento (os pais não suficientemente tecnológicos) e exaltando o outro (os filhos “2.0”). “Baby boomers, afastem-se . Essas crianças já estão aprendendo, brincando, se comunicando, trabalhando e criando comunidades de forma muito diferente da de seus pais. Elas são uma força de transformação social”. A menção aí a uma “transformação social” confere um teor empático às alterações e à aceleração que o progresso técnico leva ao cotidiano e dá a ele uma dimensão de processo irrefreável. A velocidade, atribuída pelo autor aos jovens como uma de suas oito características retomadas em todo o livro, aparece, também em pares de opostos, com a lentidão, aqui numa menção à internet discada: “(...) tudo ainda era tão lento que você tinha tempo de ir pegar um cafezinho enquanto esperava a informação aparecer na tela. Se meus filhos tivessem de lidar com uma conexão tão lenta assim hoje em dia, ficariam malucos”. Parece-nos contraditório que a tolerância seja também mencionada pelo autor como uma das oito características dessa geração. Refletimos sobre que nível de tolerância teriam seus representantes – se obcecados pela velocidade eles naturalmente o fossem – diante de processos necessariamente lentos como, por exemplo, o da travessia de uma rua por alguém com deficiência motora.7.RECEPTIVIDADE DO DISCURSO TECNOLÓGICO NA PERIFERIA
Um dado relevante é a grande receptividade que o discurso tecnológico hegemônico de obras como a de Tapscott têm em sociedades tão diferentes daquelas onde elas são escritas ou às quais elas se referem, no caso, as da América do Norte, especialmente, dos EUA. Entende-se que as vendas dessas publicações se concentram em setores de renda mais alta nas regiões periféricas da produção e do consumo de tecnologias. Nesses setores, a hegemonia discursiva tecnológica é acolhida e os livros que a veiculam convertem-se em guias de atitudes sociais, influenciando, inclusive, como vimos na introdução, o mundo acadêmico. Só assim faze sentido, num país de grande exclusão social como o Brasil, receptividade favorável de uma obra com enunciados como o da citação abaixo. (...) o acesso via banda larga de alta velocidade é comum hoje em dia. Além disso, você pode acessar um mundo de conhecimento de vários outros lugares que pode navegar na internet, capturar coordenadas de GPS, tirar fotos e trocar mensagens de texto. Quase todas as crianças nos Estados Unidos têm um iPod e um perfil pessoal em sites de redes sociais como o Facebook, que permitem que os integrantes da Geração Internet monitorem o tempo todo cada gesto de seus amigos. (...) em todo o mundo essa geração está inundando os locais de trabalho, o mercado e todos os nichos da sociedade. Ela está introduzindo no mundo sua força demográfica, sua sabedoria midiática, seu poder de compra, seus novos modelos de colaboração e criação de filhos, seu empreendedorismo e seu poder político. (TAPSCOTT, 2014). O autor constrói sua argumentação permeando o núcleo central, que tem a tecnologia como paradigma, com os ideais da liberdade e da democracia. “Essa geração está se engajando politicamente e vê a democracia e o governo como ferramentas essenciais para melhorar o mundo”. Vale notar aí que a democracia passa de paradigma a ferramenta numa linguagem que simplifica a difícil tarefa de “melhorar o mundo”. O que queremos observar é que a tecnologia é, numa inversão, colocada como ponto de partida para profundos valores e conquistas da humanidade que, ao contrário, a deveriam preceder, gerar e controlar. É o caso da família e da educação, citadas abaixo num enfoque instrumentalista que exalta a “cultura da capacitação” – tecnológica, presumimos. Com sua imagem ligada a velocidade e liberdade, esses jovens emancipados estão começando a transformar todas as instituições da vida moderna. Desde o local de trabalho até o mercado, desde a política, pasando pela educação, até a unidade básica de qualquer sociedade – a família – , eles estão substituindo uma cultura de controle por uma cultura de capacitação (TAPSCOTT, 2014) O teor de inexorabilidade característico de discursos dominantes segue subordinando virtudes sociais a dispositivos sociotécnicos. “A nova rede nas mãos de uma Geração Internet tecnologicamente preparada e com uma mentalidade comunitária, tem o poder de abalar a sociedade e derrubar autoridades em várias área”. Após essa referência positiva ao preparo tecnológico, a transformação social e derrubada de autoridades (resta saber quais) está assegurada em prol de um futuro promissor e inevitável: “Escolas, universidades, lojas, empresas e até a política terão de se adaptar ao modo de agir dessa geração”.8.O DISCURSO TECNOLÓGICO NÃO É UM DISCURSO DA GERAÇÃO DIGITAL
Na mesma página a e sessão Aprenda com eles e aja lança mais uma vez mão do poder do enunciado performativo, o que é recorrente ao longo do livro. E segue um recado a para que possamos “aprender com eles a fim de melhorar as nossas instituições e a nossa sociedade”. A contribuição dos jovens para a evolução social não é inédita e não é o que criticamos em Tapscott. O que ocorre em seu discurso é que ele atribui aos jovens um discurso, o tecnológico, que na verdade é o discurso dos detentores/desenvolvedores das tecnologias que são, aliás, com freqüência, são pessoas mais velhas. E a idade aí não é relevante e, sim, a produção de um discurso que tem sua origem nos setores dominantes, sobretudo dos países dominantes, política e economicamente na sociedade global. O recado de Tapscott vai também para os professores para que alterem “sua abordagem tradicional da educação do tipo cuspe e giz”. E aí segue uma dica que não nos permite deixar de lembrar o Flautista de Hamelin: “Espero que este livro os tranquilize [os pais] e os ajude a perceber que a imersão digital é uma coisa boa para seus filhos”. A reflexão sobre quem seriam os beneficiados com a imersão digital dos jovens daria um belo estudo. Mas o escopo deste trabalho é apenas indicar as evidências de um discurso em construção. Outros dois mecanismos discursivos estão presentes na argumentação do professor da Universidade de Toronto. Um deles é a desqualificação – num termo mais coloquial, a ridicularização – de tudo e todos que (ainda) sejam “inaptos tecnologicamente”. O segundo mecanismo discursivo, já mencionado, é a naturalização discursiva tantos dos hábitos de uso quanto da posse desses dispositivos, bem como da possibilidade de imersão no ambiente digital. Como se essa realidade fosse natural e, para ocorrer plenamente com alguém, não dependesse de que tal pessoa viva em determinado local e pertença a determinada classe social.9.DESQUALIFICAÇÃO DOS “TECNOLOGICAMENTE INAPTOS”
Vamos ao primeiro desses mecanismos, a desqualificação do que é “inapto tecnologicamente”, à qual Tapscott dedica um longo parágrafo. Mesmo se ele se refere a um tempo passado, sabemos que se trata de um elemento discursivo comum socialmente. A ridicularização de quem não sabe usar ou falar sobre o último avanço tecnológico é muitas vezes até motivo de piada: (...) havia tantas histórias bizarras que algumas podem até ter sido inventadas. (...) Alguém achou que o mouse fosse um pedal e não conseguia fazê-lo funcionar. (...) pediram que uma funcionária copiasse um disco e ela voltou com uma fotocópia do dito-cujo. Quando [alguém] perguntou a uma mulher se ela tinha Windows (janelas em inglês), ela respondeu: “Não, temos ar-condicionado”. (...) Um amigo meu tentou usar o mouse apontando para a tela do computador como se fosse um controle remoto (TAPSCOTT, 2014). A desqualificação de um sujeito em suas práticas ou em sua linguagem é uma estratégia de disputa e dominação estudada desde autores da sociologia até sociolinguistas. O humor, seja a partir de fatos reais ou mesmo em simples piadas, reflete estratégias sociais tanto de resistência, quanto de ascenção social e de manutenção do poder. Mesmo sem relação com a A hora da geração digital, identificamos, por exemplo, dentro de um amplo discurso tecnológico, a linguagem utilizada por técnicos de informática. Quando falam entre si de seus embates com clientes, diante dos quais têm superioridade de saber tecnológico, é comum designarem esses clientes com siglas jocosas como USB (Usuários Super Burro) ou Bios (Bicho Ignorante Operando o Sistema).10.“É NATURAL SER TECNOLÓGICO”
O outro mecanismo discursivo presente no discurso tecnológico de Don Tapscott é a naturalização dos hábitos de uso e da posse desses dispositivos, bem como da possibilidade de imersão no ambiente digital. Fala-se como se fossem naturais para todos essas oportunidades. O caso de Rahaf – jovem de 24 anos identificada sem o sobrenome e entrevistada na grande pesquisa que deu origem ao livro – é bastante emblemático. Perguntaram a ela como era um dia rotineiro em sua vida (p 67). Rahaf, que mora em Toronto, dispõe na verdade de possibilidades restritas a um número baixíssimo de jovens hoje em dia, especialmente, em países como o Brasil. Apresentá-la como modelo de vida feliz na juventude é construir um discurso de naturalização do cosmopolitismo tecnológico como se ele estivesse ao alcance de um grande número de pessoas. Para começar, ela trabalha em seu apartamento, viaja “muito” pela América do Norte e trabalha como “estrategista independente de novas mídias”. Largou o emprego anterior, “numa empresa de ponta no setor de pesquisas de mercado”, alegando que não era uma “pessoa matutina” – na ocasião da entrevista, seu dia rotineiro começava ás 10h e terminava às 2h45. A liberdade de escolher deixar o emprego por um motivo assim tão distante daquele de se manter e viver com dignidade – a que a maioria das pessoas está obrigada – revela o enunciado de que os indivíduos bem qualificados tecnologicamente são capazes de gerenciar a própria carreira. Porém, enquanto esse discurso afirma que a Geração Digital escolhe mudar de empregos muitas vezes, o noticiário econômico tem informado que o desemprego – involuntário, por sinal – é uma realidade bem mais comum. Rahaf acorda às 10h30. “Ligo meu MacBook. Sandy (WWW.iwantsandy.com) é a minha assistente virtual on-line que gerencia as minhas tarefas/compromissos do dia a dia”. Em seu empolgante “dia digital”, a garota lê pelo menos 10 blogs (55 por semana), recebe notícias personalizadas pelo Google News e assina listas RSS customizadas. Começa a trabalhar às 11h em projetos de clientes, iniciando com uma sessão no wiki privado que criou para um deles. Com o Google Notebook pega várias páginas de projetos de pesquisa. Conversa com amigos no MSN, “dá uma olhada em alguns vídeos engraçados no You Tube”.11.COSMOPOLITISMO GLOBAL
Ao meio-dia, fala com a irmã, que está em Londres, por vídeo-conferência Skype, e a vê preparando “um sanduíche de frango assado incrível para o almoço”, relato que mostra o quanto é natural para ela o ambiente digital. Por SkypeOut, fala com os avós na Síria: “É muito barato. Incrível. Eles estão bem”. E prossegue: “Falo com meu tio em Dubai num bate-papo com vídeo. Prometo colocar mais fotos no site da família”. Tudo numa grande naturalidade, como quem simplesmente respira. ÀS 14h, vai para academia carregando o iPod com os últimos podcasts e um ou dois episódios de “The Colbert Report/Daily Show, para se “distrair na esteira”. Na volta, supostamente num táxi, recebe uma mensagem de texto de outra irmã lembrando do jantar de aniversário da mãe no sábado. Envia um email para Sandy, a assistente virtual, que registra o compromisso em sua agenda do Google, sincronizada com o BlackBerry. Por mensagem de voz, pede ao namorado para alugar um filme e lhe manda uma lista de sugestões que haviam preparado antes. Às 15h30, tem reunião com um cliente numa parte da cidade que não conhece e localiza com o GPS do celular. Toda essa atividade enquanto se move é um exemplo de outra palavra mágica do discurso tecnológico: mobilidade.12.RIQUEZA DE ELEMENTOS DO DISCURSO TECNOLÓGICO
O depoimento ocupa duas páginas do livro, que aqui resumimos numa lista com os demais gadgets e serviços tecnológicos que Rahaf utiliza: mensagens de texto no BB e Google Chat; cinema agendado com amigos usando eventos compartilhados no Google; trailler do filme na internet e leitura da crítica no Rottentomatoes.com; música no iTunes ou Seeq.Pod.com (streaming de música ao vivo); videoconferência Skype com o pai e planejamento de uma visita a ele, que já sabia da disponibilidade da filha pois tem acesso à assistente virtual dela; preparação do jantar com a receita de um site; preparação de um filme usando iMovie, sobre o jantar, para ser enviado à irmã. E mais: compras e pagamento de contas pela internet; escolha (via fotos enviadas) da blusa que a irmã usará no aniversário da mãe; programa da Oprah Winfrey previamente gravado, via Joost.com, no computador; discussão do último episódio de Lost em um fórum virtual; término do trabalho para um cliente, de 22h à 1h30; jogo de Xbox Live “com alguns colegas na cidade”; atualização de seu site no Shelfari.com, sobre o último livro que leu, dando uma nota avaliativa e discutindo-o com outras pessoas; pesquisa sobre livros que amigos estão lendo e encomenda de alguns pela Amazon; às 2h45, verificação do resumo do dia enviado pela “Sandy”, com a agenda do dia seguinte, escolhendo prioridades, antes de se preparar para dormir. Dedicamos tal espaço ao “dia digital” de Rahaf pelo mesmo motivo pelo qual Tapscott destinou a ele duas páginas em letras com corpo de tamanho reduzido, pelo que esse depoimento tem de emblemático: tamanha impregnação tecnológica na rotina de uma pessoa feliz. Sim, é de alguém feliz a imagem que a jovem passa, em seus relacionamentos com familiares, namorado e amigos, alguém saudável, praticante de esporte e que tem por meio da tecnologia o controle sobre a própria vida. É imensa a riqueza de elementos formadores do discurso tecnológico hegemônico nesse depoimento. Ele evidencia todas as vantagens atribuídas a alguém com autonomia tecnológica, mesmo se essa atribuição pode guardar distância quanto á realidade vivida pela maioria das pessoas do planeta. Entre essas vantagens, lembramos o já citado poder de gerenciar a própria vida/tempo, a mobilidade (pessoas que produzem e se divertem em movimento); a liberdade de escolha, o exercício da opinião, o poder de compra; o cosmopolitismo e uma certa onipresença, evidenciada por conversas naturalíssimas com pessoas em outros continentes. E a lista poderia ser maior.13.RESULTADOS ALCANÇADOS
Com esta pesquisa procuramos ler criticamente a obra A hora da geração digital, que contribui, com outras, para formar o consenso que acerca dos jovens que convivem desde a infância com a internet e as NTICs. Observando que essa conceituação se afirma até no mundo acadêmico, mesmo sem querer desqualificá-la, procura-se oferecer um contraponto a partir do estudo desenvolvido por Cazeloto (2014). O pesquisador brasileiro apoia-se, por sua vez, em autores como Andrew Feenberg e Jean Baudrillard para elaborar sua crítica à hegemonia do discurso tecnológico. Na fundamentação de Cazeloto (2014), encontramos elementos conceituais úteis para análise do livro de Tapscott: da ideia de tecnologia como conjunto de saberes e produção de objetos que refletem a ideologia de quem os fabrica à valorização de determinadas tecnologias em função do poder das culturas que as geram; da dupla instrumentalização dos objetos técnicos concebida na Teoria Crítica da Tecnologia, de Feenberg, às “estratégias de semiotização da mercadoria”, que alimentam o discurso tecnológico ao mitificar cada novo gadget como fonte de status e diferenciação social; da banalização dos mesmos gatgets via sua popularização, que impregna o cotidiano com a ideologia do discurso tecnológico à ideia de aquisição da tecnologia e do saber tecnológico como principal estratégia de ascenção social. Como exemplo encontrado na obra de Tapscott, citamos o caso dos enunciados performativos apontados por Cazeloto (2014), como “Deixe que a Geração Internet lidere...”; “Esqueça a idéia de...” e “Repense a sua idéia de...” (TAPSCOTT, 2010, p. 321) Analisamos a argumentação do autor canadense em diversos itens que assim identificamos: alegação do ineditismo histórico da geração digital e naturalização do que é artificial/tecnológico; receptividade (contraditória) do discurso tecnológico em regiões periférica.CONSIDERAÇÕES FINAIS
Identificamos na obra A hora da geração digital, de Don Tapscott, o discurso tecnológico hegemônico que caracteriza nossa sociedade. O livro com grande penetração, inclusive, no mundo acadêmico, tem o objetivo de louvar a geração de jovens nascidos entre 1977 e 1997 como a portadora das inovações que levarão a humanidade a uma felicidade e bem-estar inéditos. Por meio da exaltação de Geração Digital o que na realidade Tapscott valoriza é primazia tecnológica sobre as demais instâncias da atividade e da vivência humana. Tendo como contraponto o ensaio Sociabilidades gerenciadas: o discurso tecnológico e a despotencialização do Imaginário (CAZELOTO, 2014), fundamentamos uma crítica à hegemonia do discurso tecnológico. O autor brasileiro critica o papel da informática como elemento central nas relações humanas, o enfoque pragmático e instrumentalista da tecnologia, a valoração social da superioridade das tecnologias digitais sobre as analógicas e as estratégias de semiotização dos objetos técnicos como mercadoria. Tais elementos, entre outros, vêm a constituir um discurso tecnológico hegemônico atrelado a interesses capitalistas. O discurso tecnológico, por sua vez, faz-se tema da mídia que informa sobre cada gadget lançado no mercado; e se aloja até nas conversas cotidianas como definidor de status social, distinção e exclusão. Cazeloto aborda ainda tecnologia como questão estratégica, apontada como saída privilegiada, senão a única, para os problemas das pessoas; indica o discurso tecnológico como portador de enunciados performativos; e questiona o papel de “meros usuários” que a maior parte das pessoas ocupam na produção dos aparatos eletrônicos. Com o aporte crítico fornecido por Cazeloto, voltamos a nos debruçar sobre o livro de Tapscott evidenciando nele diversos elementos constitutivos de uma hegemonia discursiva, como a proclamação do ineditismo histórico da Geração Digital e o discurso de naturalização do ambiente digital. Questionamos que a cultura e o discurso tecnológico sejam realmente, como afirma Tapscott, a cultura e o discurso da nova geração; ao invés, sustentamos que esse discurso tem como fonte os detentores da poder econômico e do saber tecnológico, que nem sempre são pessoas jovens. Constatamos ainda a presença de enunciados performativos. Criticamos a incoerência entre a velocidade e a tolerância como valores atribuídos à Geração Digital; e também a recepção favorável com que obras veiculadoras do discurso tecnológico são acolhidas em sociedades tão diferentes daquelas a partir das quais tal discurso é elaborado. Discordamos que obras assim sejam adequados "guias", referências de vida social. Detectamos a inversão entre tecnologia e valores: estes é que deveriam inspirá-la e não ela ser ponto de partida para atingi-los. Duvidamos da inexorabilidade das mudanças geradas e a serem geradas pela tecnologia. Finalmente, criticamos a desqualificação de tudo o que possa ser “tecnologicamente inapto” e denunciamos a naturalização discursiva dos bens da tecnologia como acessível a todos. Em nossa opinião, essa naturalização é a maior ilusão apregoada pela hegemonia do discurso tecnológico.REFERÊNCIAS
CHARAUDEAU, P. e MAINGUENEAU D. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2012.
CAZELOTO, E. Sociabilidades gerenciadas: o discurso tecnológico e a despotencialização do Imaginário. Trabalho apresentado no XXIII Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, Belém do Pará, 2014.
PRADO, José Luiz Aidar. Convocações biopolíticas dos dispositivos comunicacionais. São Paulo: Educ, 2013.
PRENSKY, M. Nativos digitais, imigrantes digitais. De On the Horizon (NCBUniversity Press, Vol. 9 No. 5, 2001). Tradução do artigo "Digital natives, digital immigrants", cedida por Roberta de Moraes Jesus de Souza.
GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. São Paulo: Civilização Brasileira, 1979.
GRUPPI, L. O conceito de hegemonia em Gramsci. 1978. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
TAPSCOTT, D. A hora da geração digital: como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios, 2010.
*Artigo apresentado no IV Congresso Internacional Interdisciplinar em Sociais e Humanidades (Coninter-SH), de 8 a 11 de dezembro de 2015 - Foz do Iguaçu (PR)
AUTORES
BENITES, Marcello - Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo (UFRJ), mestre pelo Programa de Pós-graduação em Cognição e Linguagem (PPGCL) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) Bolsista FAPERJ marcellobenites@hotmail.com
CAETANO, Joane Mestranda em Cognição e Linguagem (PPGCL/Uenf), especialista em Letras pelo Centro Universitário São José - Itaperuna-RJ Bolsista CAPES joaneiff@gmail.com
****SOUZA, Carlos Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Professor e coordenador do PGCL/Uenf chmsouza@gmail.com
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Uma Narrativa do Eu: Diário da fundação da Mídia Ninja em artigo da revista Piauí
Como aprendem os nativos digitais?
A produção acadêmica sobre a Mídia Ninja
Disputas linguísticas e ideológicas no Facebook à luz de Bourdieu e Bakhtin
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
2010: Primeiro cabeçalho e post inaugural
Vale lembrar que a palavra "ousadia", no contexto em que será lida abaixo, ouvi-a pela primeira vez do meu amigo Klaus Brüschke.
Segue, então, o cabeçalho inicial do blog Releituras. Abraços!
Reflexões diversas, especialmente sobre a “ousadia” da fraternidade, como “princípio esquecido” da tríade da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), mais particularmente ainda, sobre a “Proposta da Fraternidade na Mídia”; e ainda sobre jornalismo, teorias da comunicação etc, etc, etc.